Fui jantar com uma amiga que está de malas feitas para ir viver um ano em Amsterdan. Fomos a um restaurante nipochinocoreano na Rua Galvão Bueno, que se chama “Churrascaria Galvão Bueno”, mas, ao contrário do que o nome sugere, não serve churrasco: serve sushi, comida chinesa e comida coreana. Curiosa mistura de três nações asiáticas que nunca se deram e então são reunidas pela paz da culinária no bairro da Liberdade, numa cidade brasileira. Sushi, sashimi, chopsuey e grelhas coreanas - cada mesa tem uma grelha para fritar ali na hora as carnes temperada com shoyu e ervas - em um só buffet, um só restaurante. Uma verdadeira ONU gastronômica.
O jantar foi ótimo até que, lá pelas tantas, todas as pessoas que estavam no restaurante - literalmente, todas as pessoas! - começaram a tossir, até eu. Surreal. Tinha alguma coisa errada, claro. Meu nariz ardia, eu tossia, todos tossiam e tossiam. A minha imaginação fértil e surrealista já ficou imaginando que todos morreríamos ali mesmo, como naquele episódio apavorante do gás venenoso na estação de metrô de Tokio. Finalmente um garçon passou ao meu alcance e eu perguntei o que estava acontecendo. Ele respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que alguém tinha colocado pimenta na grelha, que não pode colocar pimenta na grelha porque dá nisso - os vapores da pimenta irritam o nariz e a garganta e as pessoas tossem - mas que às vezes algum cliente desavisado faz isso e então todo os garçons saem correndo pra descobrir quem foi e desligar a grelha.
Surreal.
Mas não vai ser por esse episódio que essa noite vai entrar para a história da minha vida como uma noite especial. Vai ser por outro motivo: foi a primeira vez que eu comi ostras.
Sim, eu comi ostras.
Certo, ostras são realmente esquisitinhas. Jamais tinha visto ostras ao vivo, elas realmente ficam melhores nas fotografias. Elas tem aquela aparência de molusco dentro das cascas - que lindas cascas cor de madrepérola! A casca é linda, mas a ostra em si é… esquisitinha.
Eu já ouvi os mais variados comentários sobre ostras. Tem pessoas que adoram, como Monsieur Pai, grande fã de ostras, que sempre me disse ser o prato que ele mais gosta de comer como entrada em um jantar. Ele aprecia o sabor, a textura, a cor. Já Monsieur Filho me disse que não gosta, não. Tem pessoas que detestam, tem horror até de ver. Confesso que a aparência da ostra é um pouco desanimadora. Você não sabe se está comendo um animal vivo ou morto. A consistência é de uma fatia de filé de peixe cru mais gelatinoso. Se você olhar aquilo muito tempo, desiste de comer.
Interessante que eu sempre perguntei “mas ostra tem gosto do quê?” - e ninguém jamais soube me responder.
Bom, lá fui eu. Criei coragem, comecei a descolar a carne da ostra da casca com o hashi. Coloquei o limão, resolvi pegar a carne inteira e comer antes que eu perdesse a coragem. Perguntei à minha amiga se eu podia mastigar - ouvi algumas pessoas dizerem que não se mastiga a ostra - e ela respondeu que sim. Okay. Coloquei a ostra na boca e mastiguei.
Primeiro: a consistência é ótima. Não é tão firme quanto peixe cru, é mais macio, trinca entre os dentes, perfeitamente mastigável, gostoso. Segundo: o limão, ao contrário do que já me disseram, não serve para atenuar o sabor da ostra, ao contrário, ajuda a destacar o sabor da ostra. Terceiro: é deliciosa de saborear.
Que sabor tem uma ostra? Sabor de mar.
A ostra é isso, um pedaço de oceano, completo, com gosto de mar, areia, sal e sol. É como estar na beira da praia, depois de um mergulho, com aquele gosto de mar que fica na boca. É maravilhoso, simplesmente maravilhoso. Ostra tem gosto de mar.