'Claro que é Rock'
A curiosa cobertura da imprensa ao claro que é rock
Monday, November 28th, 2005Ontem e hoje, na ressaca pós-show, fui pesquisar notícias e fotos. Tinha um monte de imprensa atrapalhando a visão do palco durante o show todo, então eu supus que tivessem feito uma ampla cobertura.
Fui otimista demais.
O UOL postou notícias sobre o show em São Paulo. Deu destaque para Iggy Pop, os “patetas” e a banda adolescente dos “Charlotes”. Mike Patton foi notícia porque a imprensa sabe quem ele é. Falou-se levemente sobre NIN e sobre o Sonic Youth, mas ao menos colocaram uma pequena galeria de fotos para cada uma das “atrações” do show. Ignoraram completamente o show do Rio.
A cobertura da globopontocom falou sobre o cancelamento do show da Nação no Rio - o Rio sofre sempre com a desorganização - e nem menciona NIN. Cobriram o show de SP: um jornalista postou um comentário sobre o show em seu blog, falando mais sobre drogas que sobre rockn’roll.
O Terra fez uma cobertura burocrática. Tem uma foto de Trent Reznor. Uma foto do Sonic Youth. Algumas dos demais. Só. O Terra ao menos mencionou os dois. Na Globo, tirando o blog do tal jornalista, nem isso.
A MTV brasileira sempre foi apenas a “filial tupiniquim” da toda poderosa MTV americana, odiada por quase todos que fazem música não-comercial no mundo por sua postura caça-níqueis e censora. NIN sempre foi censurado, a MTV se recusa a exibir seus clipes e quando exibe, corta tudo que não gosta: “Closer” foi exibido na década de 90 com uma tela “scene missing” em todas as cenas que a MTV não gostava.

Just for the records, não foi apenas a MTV que censurou Trent, várias rádios e outros canais de TV pelo mundo fizeram o mesmo. A arte exibida em “Closer” foi, entretanto, reconhecida: o video de Mark Romanek faz parte da coleção permanente do MoMA, junto com “Bedtime Stories”, feito também por ele, para a música de mesmo nome de Madonna. Trent Reznor está muito bem acompanhado na categoria “censurado” por Radiohead, também censurado pela MTV em “Paranoid Android”, exibido com pontos de “blur” e em “Rabbit in your headlights”, que a MTV se recusou a exibir. Pois a platinada MTV tupiniquim nem noticiou o Claro que é rock. Se resumiu a uma nota de blog dizendo que vai colocar imagens no ar na programação do canal hoje, segunda-feira. Pela quantidade de notas de rodapé sobre o Tim Festival presentes na primeira página do site, desconfio que é uma questão de conflito de interesses comerciais.
O campeão da falta de atenção da imprensa, depois do NIN, foi o Sonic Youth. A imprensa brasileira praticamente ignorou a banda ao mesmo tempo que focou todo o interesse nos “lábios flamejantes” - o que era aquilo, por favor? - nos charlotes e em Iggy Pop.
A imprensa brasileira conhece pouco, não pesquisa nada e dá destaque apenas ao que está na moda, ao que toca nas FMs e tem clipes nos programas de “popularidade” da MTV. Ou o óbvio: bandas com mais de 30 anos de história.
Que saudade do Fabio Massari!
Informação adicionada posteriormente, em 29/11:
Mais uma reportagem, dessa vez, um pouco mais consistente (pelo menos comentaram todas as bandas, apesar do festival de clichés usados):
Apocalipse
“O terror eletrônico do NIN (Nine Inch Nails), apesar do horário, também impressionou e obteve resposta efusiva do público. A apresentação de Trent Reznor foi como o anúncio do fim do mundo. Pesado, poderoso, o som do Nine Inch Nails é rápido e violento, com uma massa de guitarras, sintetizadores e bateria casada com melodias por vezes até mesmo doces que faz com que seja impossível assistir parado. Quando se percebe, já se está pulando –ou no mínimo, sacudindo a cabeça. O vocalista disse que era um prazer finalmente ter vindo tocar no Brasil. Que seja a primeira apresentação de várias.”- da Folha online
Comentário curioso que achei em um fórum:
“Eu diria que o Trent Reznor é o Stanley Kubrick da música. Demora muito tempo para lançar algo, mas quando lança, lança uma obra-prima (e perturbadora =D)
Postado por Mahdi”
Jamais poderia ter definido melhor.
E um email de meu amigo Löis Lancaster:
“Realmente, as pessoas têm gostos muito diferentes… eu e a renca de amigos que encontrei lá no Claro nos amarramos no Flaming Lips, no Sonic Youth, mas principalmente no FANTÔMAS! No NIN a galera já tava dormindo, e Iggy Pop foi burocrático… Mas é por isso que o mundo é interessante. E de qualquer forma, Bad Charlotte realmente era uma m****. ![]()
Bejo do Löis”
Rock’n roll & lama
Sunday, November 27th, 2005Meninos, eu estive lá. Rapaz, que show. Tudo que foi bom, foi ótimo. O que era ruim, era ruim de doer.
O local é legal. Tinha lama, muita lama, porque tinha chovido mais cedo, pela manhã. Perto da área onde se vendia bebida & comida era onde havia mais lama. É curiosa a relação da lama com o rock. Desde o primeiro Woodstock, passando pelo Rock in Rio. Rock & Lama.
Foi interessante perceber como a platéia claramente se dividia em grupos. Enquanto uma garotada acompanhava o show de uma banda estilo “beach rock” da qual eu nunca tinha ouvido falar, no palco Um - nem vou mencionar como a música dos tais “Charlotes” era fraca e ruim de doer, uma pálida cópia dos Beach Boys. Argh! - uma outra galera se reunia para esperar a Nação Zumbi, no palco Dois. Os perfis das pessoas eram claramente diferentes a um mero olhar. Estranhas criaturas “fashion victims”, assexuadas, sem identidade. Fico com a galera do Maracatu, muito mais genuinamente brasileiro, original e de rica sonoridade.
Nação Zumbi tocou “O Cidadão do Mundo”, “Da Lama ao Caos”, “Manguetown”, “Meu Maracatú Pesa Uma Tonelada” e músicas do novo CD. Sempre é um prazer assistir um show da Nação.
Depois da Nação, foi duro esperar NIN. Mas quem esperou por dezesseis anos para ver um show ao vivo de Trent Reznor & sua banda, esperou até o último show da noite - Trent entrou às duas da manhã, depois de muita banda ruim, só o show do Iggy Pop para felicidade de quem gosta de música boa, o resto era no mínimo lamentável.
A primeira vez que vi NIN ao vivo foi na cobertura do Woodstock de 1994, feita pela MTV. Trent era uma criatura selvagem e nervosa, coberta de lama, correndo pelo palco de botas militares e bermudas, jogando o microfone ao chão e quebrando instrumentos. Ao final do show, com um dedo sangrando, deu uma entrevista à repórter-barbie da MTV, num tom sarcástico, muitas vezes fazendo comentários cruéis às perguntas ingênuas e cheias de cliché feitas pela repórter.
Quem quiser conhecer mais sobre essa complexa mente musical, que reage mal ao mundo como ele é, está finalmente livre da heroína e do álcool e coloca tudo isso em suas letras, músicas e performances, leia essa reportagem inteira, que, inclusive, traz o vídeo do show de Woodstock de 1994 feito pela MTV. Leia também a entrevista que ele deu para a Rolling Stone. Vale a pena.
Trent está chegando aos 40. Eu também. Ele tem me feito companhia e tem me feito questionar a mim mesma desde meus 23 anos. Tem feito com que eu sinta que não estou sozinha na minha estranheza com o mundo, na minha hipersensibilidade artística, na minha própria dificuldade de me relacionar com o mundo, com as pessoas, comigo mesma. Adorei a resposta dele quando o repórter da Rolling Stone perguntou sobre como é atingir a idade dos 40 anos: “É apenas um número”.
Ontem, finalmente, eu consegui vê-lo ao vivo.
Depois de horas em pé em meio à lama e ao caos, lá veio ele, com um show de luzes de alta tecnologia, um som de alta qualidade e uma performance incrível, que só fizeram com que eu o respeite ainda mais como músico, engenheiro de som e cantor.
Eu não sabia qual seria a seleção. E foram as minhas favoritas: “Wish”, “Sin”, “The Line Begins to Blur”, “March of Pigs”, “Terrible Lie”, “The Frail/The Wretched”, “Closer”, “Burn”, “With Teeth”, “Only”, “Suck”, “Hurt”, “The Hand That Feeds”, “Starfuckers Inc” e “Head Like a Hole”.
Rapaz, eles tocaram até “Burn”.
Trent quebrou dois microfones, jogou um terceiro para a platéia e ao final da performance, ele e o guitarrista quebraram suas guitarras.
Ontem à noite eu tinha dezesseis anos de novo. E ao mesmo tempo, meus 39. E pela primeira vez desde que eu conscientizei esses 39 anos, eu me senti muito, muito bem. Tem sido uma aventura e tanto. Tem valido a viagem.
Thank you so much for be such a great company, Trent.
Now Listening: Reptile
NINE INCH NAILS
Saturday, November 26th, 2005Sim, é hoje.

Vamos de turminha para assistir Trent Reznor.
Alguém por aí vai?

Now Listening: Only - NIN
OHMEUDEUS!
Sunday, August 21st, 2005O Tiago me manda a notícia:
É isso mesmo: Nine Inch Nails vem ao Brasil em novembro.
OHMYGOD. Eu quero ir. Será que vai ser estupidamente caro? Mesmo que seja, eu vou.
Em 2002, eu pude ir ver o Rush, no Morumbi. Na época, eu não tinha a grana necessária para comprar o ingresso, meu irmão caçula me deu de presente de aniversário. Foi uma das maiores experiências da minha vida, um dos maiores e mais importantes shows desde que assisti o Queen também no Morumbi, em 1981.
Rapaz, eu vou ver o NIN. Trent Reznor, meu ídolo há 15 anos. Comprei o primeiro CD dele em 1990, eu acho, um bootleg .
E por falar em música, Harry me avisa: Thom York tem blog.
Now Listening: Nine Inch Nails, With Teeth, All The Love In The World
