Saturday, May 10, 2008

'Somos todos texto'

Memistória - “Perseguindo Nisus” - Parte 09

Saturday, April 5th, 2008

Certo, meu amigo Djabal me passou esse meme. Vambora. Caiu no chá, é açúcar.
parte 01 por Alex Primo
parte 02 por Gabriela Zago
parte 03 por Donizetti
parte 04 por Olivia sem acento
parte 05 por André Gazola
parte 06 por Daniel Lopes
parte 07 por Daisy
parte 08 por Djabal

Parte Nove (que lindo número me coube!)

O homem saiu da sala, largando os dois lá. Ele odiava problemas reincidentes. Entrando em seu escritório, pegou o telefone, discou um número e aguardou o som do toque.

Seu amante estava sentado à escrivaninha, com as pernas estendidas ao longo do tampo de madeira, a blusa de rede deixando entrever seu físico de dançarino, as calças de couro marcando os músculos das pernas, perfeitamente arrematadas com caríssimas botas francesas de vinil. Ele sorriu malicioso, vendo o nervosismo do seu homem.

“Problemas?”, ele perguntou naquele tom de voz divertido que sempre usava com ele.

O homem estava puto dentro das calças, nem mesmo Angel iria esfriar sua cabeça, ele queria era ver sangue.

“Vamos precisar de um faxineiro, eu tenho dois mortos na outra sala.”

“Hmmm…”, Angel murmurou, “Mas você ainda não executou o serviço, eu imagino.”

“Não. Os filhos da puta ainda estão vivos, mas não por muito tempo. Vamos ver se o faxineiro está disponível.”

“Eu vou.”, disse ele com um sorriso, sacando sua Beretta, destravando-a, beijando seu homem na boca e saindo para o pátio.

E como usei meu personagem favorito, passo a história para a homônima dele, a Angel.

Life as a myth

Tuesday, March 18th, 2008

“Your vision will become clear only when you look into your heart …
Who looks outside, dreams. Who looks inside, awakens.”

- C. G. Jung

Butterflies. Redon. 1910
Butterflies. Redon. 1910

- Lyfe as a Myth

some music

Ovo Derramado

Thursday, January 17th, 2008

O Rafael agora mora aqui.

Esse menino me enche de orgulho.

Sobre miopia novamente

Friday, December 7th, 2007

O que vou escrever aqui é um email que enviei a uma menina que leu esse post aqui sobre miopia e fez um comentário irônico sobre mim no blog dela, dizendo que “eu acho lindo não enxergar”.

Quem não está enxergando nada é ela. Ela operou miopia e fala do assunto como se a miopia fosse um fardo a se carregar, uma maldição da qual a pessoa se livra com cirurgia.

Fiquei aborrecida, não só com a superficialidade dela, mas especialmente, por mencionar meu nome e meu blog como se eu fosse uma pessoa que não sabe do que fala, de forma pejorativa e irônica. O problema não é pensar o que quiser nem expressar o que pensa. O problema é me citar de forma irônica como se eu não soubesse do que falo. Eu me senti desrespeitada.

Eis o email que eu mandei para ela:

Você me citou de forma irônica no seu blog. Eu sou uma pessoa muito séria, faço um trabalho sério, não “acho lindo” não enxergar. Aprendi a conviver com uma deficiência visual séria, tenho hoje 41 anos de idade e tinha o diagnóstico de que ficaria cega antes dos 30. Não fiquei, e uma das razões foi o cuidado extraordinário que sempre tive com meus olhos, evitando, inclusive, entrar em cirurgias experimentais que ainda não foram testadas ao longo do tempo. Não tem um cirurgião de miopia que garanta que o operado não vai ter que voltar para a cirurgia em um período de 4 a 8 anos ou que após a cirurgia a miopia não vá retornar.

Eu sou diretora de arte e cineasta. Um dos meus alunos é cego de um olho. Ainda assim, está estudando para ser diretor de arte, eu expliquei à ele que ele pode não ter visão tridimensional, mas que a visão bidimensional que ele tem é o suficiente para ele trabalhar com computação gráfica, que é o que ele trabalha atualmente.

Eu defendo que pessoas com deficiência visual têm direito a trabalhar com arte e em profissões que exercitem estética e visão, porque a visão não é determinada apenas por um aparelho ocular que irá inevitavelmente se desgastar com o tempo, porque as células de fundo de olho começam a perder acuidade, a visão é muito mais, é saber ver, é compreender como os olhos funcionam, como se desgastam com o tempo, como o olho de uma pessoa pode ter a parte das lentes (o cristalino) comprometida pela miopia mas pode também ter uma retina extraordinária, que captura um número maior de cores que a retina comum. É o meu caso. Meu cristalino tem problemas (tenho 12 graus de miopia, 2 de astigmatismo) mas enxergo melhor que a maioria os espectros de cor da luz solar. A cirurgia de miopia compromete a qualidade do cristalino. Se a pessoa ainda por cima desenvolver catarata com a idade (muito possível) terá mais problemas ainda.

A maioria das pessoas enxerga a cirurgia de miopia como algo estético, só para não usar óculos. Não é. É muito mais sério, mas pouco se fala sobre isso. A maioria das pessoas acredita que a cirugia faz “enxergar normalmente”. Não faz. E com o tempo, deteriora.

A miopia é apenas um desvio de foco, o foco do olho cai no lugar errado. A lente corrige isso. O míope tem vantagens que nenhuma outra alteração de foco (como a hipermetropia ou a presbiopia) oferece: enxergar de muito perto, quase como uma lente macro de fotografia.

Claro, tem gente que acha lindo operar e não usar mais óculos. O mundo está cheio de superficialidades, essa é uma delas. Mas daqui a 20 anos, vai começar a lamentar, porque vai perder acuidade visual por presbiopia ou catarata e vai voltar a usar óculos, e terá perdido as oportunidades de visão de mundo que a miopia traz. Mas existem dois tipos de miopia: física e moral. A física conserta-se com lentes, a moral, só com muita vivência, sabedoria e experiência de mundo.

Nota: Eu achei o blog dela porque o WP me dá o link quando alguém linka o chá. Eu tinha postado um comentário no blog dela, e ela achou por bem me mandar email sobre esse comentário. O comentário que eu postei no blog dela foi o seguinte:

“A miopia é um privilégio. Permite ver o que não se vê normalmente, ler letras em tamanho reduzido, visualizar detalhes de filigrana em impressos. Algumas pessoas só enxergam a miopia como “visão embaçada”. Falta-lhes visão. Outras pessoas sabem que a múltipla visão é uma janela para um outro universo. É só assistir “Janela da Alma”, talvez você comece a entender o que todos esses míopes e deficientes visuais tem em comum, e que mundo lindo é esse que eles enxergam. Pena que ser míope não lhe abriu os olhos, com certeza abriu os meus.”

Como ela me mandou email, me deu a oportunidade de falar o que penso. E não, eu não vou dar o link do blog dela, para evitar que alguém mais exaltado vá lá espinafrar ela, não há necessidade. Estou satisfeita com as respostas que dei.

Edit para adicionar: Algumas pessoas são impressionantes. Não satisfeitas de eu ter ficado chateada, a pessoa em questão, junto com mais pessoas, (IPs de mesma origem) ficaram postando recados ofensivos aqui, reclamando, inclusive, que eu não os aprovava logo.
Eu trabalho. Eu leciono, eu dou palestras, eu tenho uma vida. Eu não li nada ontem, eu estava fora, lecionando e trabalhando, só li hoje.
Não vou aprovar comentários ofensivos que me xingam, foram todos deletados. Ofensas e palavras de baixo calão jamais serão publicadas aqui, não importa quem é o ofendido, se sou eu mesma ou outra pessoa. É norma da casa há muitos anos.
Estou surpresa com a grossura de quem postou os comentários. Além de eu ter sido mal citada desde o início, ficam “nervosos” por que eu respondi e vem aqui me ofender? Que tipo de gente é essa? Ainda usaram o argumento de que “eu não entendi” o texto original. Na minha opinião, depois dessas demonstrações, podem até ter editado o “texto original” para modificá-lo e se fazer de vítima. Ficou claro que, no mínimo, são pessoas sem educação.

Edit 2:
Os caras não param de mandar email pra mim com reclamação de que eu “não entendi o post do tal blog” e não param de postar comentários ofensivos aqui. Olha, não adianta ficar me xingando via sistema de comentários, eu não vou aprovar nenhum.
E dou a conversa por encerrada. Se houver insistência, saibam que os IPs estão sendo todos anotados e que eu tomarei providências legais. O que vocês estão fazendo se chama assédio, injúria e difamação.
Boa tarde.

Steinbeck

Tuesday, August 28th, 2007

“Tularecito tinha ainda um dom extraordinário: era capaz de, com a unha do polegar, modelar notavelmente animais em terracota. Franklim Gomez guardava em casa muitas miniaturas de coiotes, leões de montanha, pintos e esquilos. Uma reprodução de um falcão de dois pés de envergadura pendia do tecto da casa de jantar, segura por fios. Pancho, que nunca considerara o rapaz completamente humano, punha a sua habilidade para a escultura na crescente categoria dos seus dons diabólicos, definitivamente provenientes da sua origem sobrenatural.

Se bem que a população de Pastagens do Céu não acreditasse na origem diabólica de Tularecito, ninguém se sentia à vontade quando ele estava perto. Os olhos dele eram secos como os de alguém muito velho e havia algo de troglodita no seu aspecto. A enorme força do seu corpo e os seus dons estranhos e obscuros afastavam-no das outras crianças e faziam os adultos sentir-se mal.”

- As Pastagens do Céu, John Steinbeck

Poema em linha reta

Monday, August 20th, 2007

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Leitura recomendada

Thursday, July 5th, 2007

Leiam o texto do professor, músico, pesquisador e ser humano magnífico Spirito Santo:

Ausländer haus, negão!

É para ler e ficar pensando horas e horas.

A volta dos que não foram.

Friday, April 20th, 2007

A Meg voltou e está melhor do que quando era viva. O pós-morte faz bem, eu sempre digo.

E por falar em mortes e transformações, não soltem rojões ainda, mas parece que os rumores sobre minha morte eram um tanto exagerados.

Bukowski

Saturday, March 24th, 2007

The Laughing Heart - Charles Bukowski
Lido por Tom Waits

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

Roll the Dice - Charles Bukowski
Lido por Bono Vox

if you’re going to try, go all the way.
otherwise, don’t even start.

if you’re going to try, go all the way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.

go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.

if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.

do it, do it, do it.
all the way
all the way.

you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.

Sobre Paulo Francis e sobre 40 anos

Tuesday, February 6th, 2007

Eu ia apenas postar um comentário no blog do Edward, mas o pensamento começou a ficar muito comprido. Os agentes de provocação da reflexão são um comentário que o Edward deixou por aqui e uma frase do Paulo Francis:

“Não existe nada que eu queira da vida. Atingi um nível de entendimento das coisas que considero satisfatório. Quer dizer, sei que sou ignorante, mas que tenho a base para deixar de ser naquilo que me interessar. O problema é que menos e menos me interesso por tudo. Considero programa ficar num sofá, sem fazer nada, nem lendo. A cabeça corre sozinha, forma conceitos, imagens, contradições, impressões, etc. Nada fica ou me estimula ao esforço de completar o sugerido ou iniciado. Será a menopausa intelectual dos 40 anos, ou uma forma (ainda) branda de esquizofrenia?”
- Paulo Francis

Aos 40 anos a gente passa por uma transformação. Você finalmente se ilumina. Acho que Buda tinha 40 anos. Descobrimos que a única coisa que vale a pena querer é viver, e isso atinge a gente de uma forma que todas as coisas que pareciam importantes anteriormente simplesmente desaparecem no ar. Só queremos ler os livros que ainda não lemos, escutar as músicas que mais gostamos, comer boas comidas enquanto ainda temos dentes e ficar olhando o amanhecer ouvindo maritacas ou o entardecer ouvindo buzinas de trânsito - aliviados porque estamos de banho recém tomado em uma varanda com flores brincando com uma gata preta e escutando NIN, e não presos no trânsito buzinando. Ah, sim, e o sexo é melhor que nunca, mas eu não falo sobre sexo, assim como não discuto política, porque geralmente quem fala de sexo é porque nunca faz e quem discute política ainda não entendeu que fé demais faz mal.

Eu sempre me admiro como existem pessoas capazes de se enfurecer com comentários inteligentes e sarcásticos - não é o caso do Edward, vejam bem, que me pareceu apenas puzzled - mas vejo muita gente suando e bufando no blog do ASS ou com as colunas do Mainardi. Mainardi é mediano - não faço parte da turma de macacas de auditório dele, acho apenas que o Mainardi fala o óbvio, algo como uma versão pós-moderna do “Rei está Nu”, enquanto que a maioria das pessoas ainda prefere elogiar as roupas do Rei ou brincar de avestruz. Eu me impressiono de como o fato do mundo ser uma meleca choca as pessoas. É isso aí, crianças, o mundo É uma meleca e muitas das coisas que vocês acreditam que estão fazendo para melhorar o mundo não vai dar em nada. Não se choquem com isso. Observem que todos os males do mundo existem desde que o ser humano pisou no planeta e se ainda não mudou nada é porque a melhor coisa que poderia acontecer ao planeta é a extinção da raça humana. Aí sim, o mundo vai deixar de ser uma meleca.

Mas me desculpem, eu me afastei do assunto.

Existe também a sabedoria de morrer na hora certa - isso é importantíssimo, embora seja subestimado pelos seres humanos, que passam uma parte da vida achando que são imortais, uma outra parte tentando se tornar imortais e uma outra parte tentando não morrer, a todo custo. Perda de tempo. Devíamos desfrutar mais a época em que somos imortais - eu tenho sorte, fui imortal até os 35 anos de idade e então, como eu já expliquei anteriormente, eu morri e essa morte foi libertadora - e então nos despreocupar e só fazer o que queremos fazer.

E se o Paulo Francis não queria fazer nada, então tá ótimo, porque pra quem não queria fazer nada, ele fazia até demais. E vai ver é isso mesmo, pra fazer muito a gente precisa primeiro não querer fazer nada. Paulo Francis soube até mesmo morrer na hora certa, morreu no auge da performance e deixou todos os inimigos embasbacados, “como é que você se atreve a morrer no melhor da festa, quando ainda tinha tanta coisa que podia falar e fazer? Em quem é que nós vamos bater agora, no Mainardi?”

Até nesse momento crucial da vida, quando saímos pela saída lateral da cena, ele soube fazer uma piada irônica, abandonando o palco com a casa lotada e deixando todo mundo pensando a respeito.

Pra completar o post, vou colocar uns comentários legais que achei em links alheios (com os respectivos links para vocês lerem tudo que os moços escreveram) e que considero extremamente apropriados:

“Notar também que, mesmo no ano mítico de 1968, ‘moças de família’ ainda não saíam normalmente em capas de revistas, muito menos sobraçando garrafas de uísque.”
- Na redação da lendária Diners, por Ruy Castro

“Realmente, não detesto a “bicha amarga”, como Caetano Veloso o chamou. Sinto sua falta. Comparados com ele, os Mainardi da vida são um saco, pois nunca arriscam-se de verdade. Ator medíocre transformado em temido crítico teatral, malsucedido romancista transfigurado em leonino crítico literário, Francis era notável provocador e hábil parodista.”
- A Ignorância de Paulo Francis, por Milton Ribeiro

“Compare Francis com Mencken, por exemplo: considerando tudo, Mencken era bem melhor do que Francis, e por um motivo ou outro escreveu vários textos sem aquelas referências datadas todas que aparecem aos pares e aos trios em cada linha de Francis. Mas hoje em dia ninguém, nem um pastor batista que seja, escreve um texto pra falar mal de Mencken. Já de Paulo Francis falam mal todos os dias. Todos os dias: consulte o technorati. Dez anos depois de morto e ele ainda irrita as bestas.”
- Paulo Francis, tirai-nos da jequice, por Alexandre Soares Silva

“Lendo as citações sobre ele na internet percebe-se que o jornalista e escritor dá lugar à caricatura, a um personagem histriônico sem alma. Desumanizaram Francis para atender a análises de seu caráter que, para tantos, define sua obra. A redução é uma forma tosca de má leitura ou desonestidade. O trabalho de Francis na TV Globo, como comentarista de assuntos internacionais, ajudou a formar essa imagem. Mas, sabemos, um barril de carvalho armazena, dá gosto e aroma ao melhor single malt. Cavalheiros não consideram, nunca, beber o barril.”
- Bruno Garschagen

“Francis tinha opinião sobre tudo. Sempre radical. E nunca tão cimentada que não merecesse ser revista.Improvisar? Para ele era tão natural quanto piscar.”
- Edney Silvestre

Update:

Rafael Galvão escreve um texto interessante sobre Paulo Francis:
“É curioso que Francis, que se antecipou aos blogs em 20 anos, pelo menos, tenha sido vítima de um fenômeno tipicamente blogueiro: o stalker, o desocupado que se dedica a um parasitismo deletério e obcecado, que alguns consideram uma espécie de homenagem e que outros, como eu, acham apenas um retrato pé-no-saco de uma mediocridade profunda. O stalker é um fã no espelho, aqueles espelhos de parques de diversões onde tudo é invertido e distorcido.”

E confira, no Youtube, um especial do Manhattan Connection na ocasião da morte de Paulo Francis.

miscommunication

Monday, February 5th, 2007

“I know that you believe you understand what you think I said,
but I’m not sure you realize that what you heard is not what I meant.”

- Robert McCloskey, escritor americano

Preâmbulos às Instruções Para Dar Corda no Relógio

Thursday, February 1st, 2007

“Pensa nisto: quando te presenteiam com um relógio dão-te um pequeno inferno, uma cadeia de rosas, masmorra de vaidade. Não te dão somente um relógio que esperam, te agrade com objeto e possa durar por muito tempo, porque é uma boa marca, suíço, com rubis; não te presenteiam somente com um pequeno ornamento que, atado a teu pulso, passeará contigo. Te presenteiam, mas não sabem, e o terrível é que não sabem, com algo que não é simplesmente um objeto, mas com um novo, frágil e precário apêndice, uma coisa que é tua mas não pertence, de fato, ao teu corpo e, no entanto, tu mesmo vais passar a correia, tu mesmo ajustarás a fivela do vigilante desesperado que doravante terás colado ao teu ser. Deram-te de presente a necessidade de dar corda todos os dias para que a engenhoca não perca seu caráter de relógio; te presenteiam com a obsessão de se curvar à hora exata e conferir os minutos cada vez que te deparares com a vitrine de uma joalheria, com os informativos radiofônicos ou quando, ainda, assaltado pela dúvida, discares para o serviço telefônico. Te presenteiam com o medo de perder o relógio, de que o roubem, de que venha cair e quebrar-se no chão. Presenteiam-te com a marca e a certeza de que teu relógio é o melhor e sentes a tendência perversa de compará-lo com os outros relógios. Não! Não te presenteiam! És tu, que entregam como um presente para servir ao relógio; tu és o regalo, escravo das horas ditadas silenciosamente pelo relógio.”

- Julio Cortázar
tradução: Ligia Cabús