Friday, August 8, 2008

'Somos todos texto'

Preâmbulos às Instruções Para Dar Corda no Relógio

Thursday, February 1st, 2007

“Pensa nisto: quando te presenteiam com um relógio dão-te um pequeno inferno, uma cadeia de rosas, masmorra de vaidade. Não te dão somente um relógio que esperam, te agrade com objeto e possa durar por muito tempo, porque é uma boa marca, suíço, com rubis; não te presenteiam somente com um pequeno ornamento que, atado a teu pulso, passeará contigo. Te presenteiam, mas não sabem, e o terrível é que não sabem, com algo que não é simplesmente um objeto, mas com um novo, frágil e precário apêndice, uma coisa que é tua mas não pertence, de fato, ao teu corpo e, no entanto, tu mesmo vais passar a correia, tu mesmo ajustarás a fivela do vigilante desesperado que doravante terás colado ao teu ser. Deram-te de presente a necessidade de dar corda todos os dias para que a engenhoca não perca seu caráter de relógio; te presenteiam com a obsessão de se curvar à hora exata e conferir os minutos cada vez que te deparares com a vitrine de uma joalheria, com os informativos radiofônicos ou quando, ainda, assaltado pela dúvida, discares para o serviço telefônico. Te presenteiam com o medo de perder o relógio, de que o roubem, de que venha cair e quebrar-se no chão. Presenteiam-te com a marca e a certeza de que teu relógio é o melhor e sentes a tendência perversa de compará-lo com os outros relógios. Não! Não te presenteiam! És tu, que entregam como um presente para servir ao relógio; tu és o regalo, escravo das horas ditadas silenciosamente pelo relógio.”

- Julio Cortázar
tradução: Ligia Cabús

Perda e recuperação do cabelo

Thursday, February 1st, 2007

Nota histórica: duas vezes na minha vida tentei explicar a duas pessoas diferentes a importância da perda e recuperação do cabelo, mas recebi como resposta que o “melhor era não ter todo aquele trabalho”. Infelizmente, ambas eram pessoas sem imaginação e infelizes, que não conseguiram entender que a graça toda da vida está no que se faz enquanto se procura recuperar um fio de cabelo.


Perda e recuperação do cabelo *

Julio Cortázar
Tradução de Glória Rodríguez.

“Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo o mais velho defende a prática de arrancar um bom fio da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia. Se o cabelo ficar preso no ralo que costuma haver nesses buracos, bastará abrir um pouco a torneira para que se perca de vista.

Sem perda de um instante, deve-se iniciar a tarefa de recuperação do cabelo. A primeira operação se resume em desmontar o sifão da pia para ver se o cabelo ficou agarrado em alguma das sinuosidades do cano. Se não for encontrado, deve-se abrir o pedaço de cano que vai do sifão ao encanamento do esgoto principal. É certo que nessa parte aparecerão muitos cabelos e será preciso contar com a ajuda do resto da família para examiná-los um por um à procura do que tem o nó. Se não aparecer, colocar-se á o interessante problema de quebrar o encanamento até o andar de baixo, mas isso significa um esforço maior, pois durante oito ou dez anos será necessário trabalhar em algum ministério ou numa casa de comércio para juntar o dinheiro que permita comprar os quatro apartamentos situados embaixo do de meu primo mais velho, tudo isso com a extraordinária desvantagem de que enquanto se trabalha durante esses oito ou dez anos não se poderá evitar a penosa sensação de que o cabelo não esteja mais no encanamento, e que só por um remoto acaso permaneça preso em alguma saliência enferrujada do cano.

Chegará o dia em que poderemos quebrar os canos de todos os apartamentos, e, durante meses, viveremos cercados por bacias e outros recipientes cheios de cabelos molhados, assim como de curiosos e mendigos, aos quais pagaremos generosamente para que procurem, separem, classifiquem e nos tragam os cabelos possíveis, a fim de alcançarmos a certeza desejada. Se o cabelo não aparecer, entraremos numa etapa muito mais vaga e complicada, porque o trecho seguinte nos leva aos esgotos maiores da cidade. Depois de comprar uma roupa especial, aprenderemos a nos esgueirar pela rede a altas horas da noite, armados com uma poderosa lanterna e uma máscara de oxigênio, e exploraremos as galerias menores e maiores, se possível ajudados por marginais com quem teremos travado relação e a quem precisaremos dar grande parte do dinheiro que ganhamos durante o dia em um ministério ou numa casa comercial.

Freqüentemente teremos a sensação de haver chegado ao fim da tarefa, porque encontraremos (ou nos trarão) cabelos semelhantes ao que procuramos; mas como não se conhece nenhum caso em que um cabelo tenha um nó no meio sem a intervenção da mão humana, acabaremos quase sempre por comprovar que o nó em causa é um simples engrossamento do diametro do cabelo (embora tampouco conheçamos algum caso parecido) ou um depósito de algum silicato ou óxido qualquer, provocado por uma longa permanência numa superfície humida. É provável que avancemos assim por diversos trechos de esgotos menores e maiores, até chegarmos a esse lugar onde ninguém se atreveria a penetrar o esgoto principal que desemboca no rio, na junção torrencial dos detritos na qual nenhum dinheiro, nenhum barco, nenhum suborno nos permitirão continuar a busca.

Mas antes disso, e talvez muito antes, a poucos centímetros do buraco da pia, por exemplo, na altura do apartamento do segundo andar, ou no primeiro encanamento subterrâneo, pode acontecer que encontremos o cabelo. Basta pensar na alegria que isso nos provocaria, no cálculo espantado de esforços economizados por pura sorte, para justificar, para exigir praticamente uma tarefa semelhante, que todo professor consciente deveria aconselhar a seus alunos desde a mais tenra infância, em vez de secar-lhes a alma com a regra de três composta ou com as tristezas de Cancha Rayada (1).”

(1) Episódio histórico, também chamado na Argentina El desastre de Cancha Rayada, batalha perdida pelas forças do General San Martín no Chile, para os espanhóis, em abril de 1817, pouco antes da vitória de Maipú. (Nota da Tradutora).

[*] Julio Cortázar. Histórias de Cronópios e de Famas. Tradução de Glória Rodríguez (São Paulo: Círculo do Livro, [1964] 1982).

Flor e Cronópio

Thursday, February 1st, 2007

Para Brandizzi, que tão bem lembrou o conto mais poético de Julio Cortázar.

Um cronópio encontra uma flor solitária em meio ao campo. Primeiro pensa em arrancá-la, mas pensa que é uma crueldade inútil, se ajoelha perto dela e põe-se a brincar com a flor: acaricia as pétalas, assopra para que a flor dance, zumbe como uma abelha, aspira seu perfume e finalmente se aquieta, deita-se sob a flor e adormece, envolto em uma grande paz.
A flor pensa: “É como uma flor”.

- Julio Cortázar

O ser humano deveria pensar diariamente em ser mais Cronopio.

Histórias de Cronópios e Famas

Thursday, February 1st, 2007

“Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.”

- Julio Cortázar- Histórias de Cronópios e Famas

A Colherada Severa

Thursday, February 1st, 2007

“Um fama descobriu que a virtude era micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu a beber a sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: esta senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção dos alpinistas perdidos e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude a sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.

O fama refletiu demoradamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.”

- Histórias de Cronópios e Famas - Julio Cortázar - 1962

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7

Thursday, February 1st, 2007

“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

- Júlio Cortázar - Tradução de Fernando de Castro Ferro.

Casa tomada

Thursday, February 1st, 2007

“— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.
Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.
Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.
— Não está aqui.
E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.”

- Julio Cortázar

Clarice

Wednesday, December 27th, 2006

“O trabalho está desorganizado, muito ruim, muito confuso. Material eu tenho e em abundâcia. O que me falta é o tino da composição, o verdadeiro trabalho. Minha tendência seria a de pensar apenas e não trabalhar nada. Mas isso não é possível. O trabalho de compor é o pior. Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo. Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda… Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.”

“Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte.”

“Vivo tão atribulada que não aperfeiçoei mais o que inventei em matéria de pintura. Ou pelo menos nunca ouvi falar desse modo de pintar: consiste em pegar uma tela de madeira - pinho de riga é a melhor - e prestar atenção às suas nervuras. (…) a gente se joga nas nervuras acompanhando-as um pouco - mas mantendo a liberdade. Fiz um quadro que saiu assim: um vigoroso cavalo com longa e vasta cabeleira loura no meio de estalactites de uma gruta.”

“Pintei um quadro que uma amiga me aconselhou a não olhar porque me fazia mal. Concordei. Porque neste quadro que se chama medo eu conseguira por pra fora de mim, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo. É uma tela pintada de preto tendo mais ou menos ao centro uma mancha terrivelmente amarelo-escura e no meio uma nervura vermelha, preta e de amarelo-ouro. Parece uma boca sem dentes tentando gritar e não conseguindo. Perto dessa massa amarela, em cima do preto, duas manchas totalmente brancas que são talvez a promessa de um alívio. Faz mal olhar este quadro.”

Fonte: Pinturas de Clarice Lispector. Nesse mesmo site, encontrei o lindo retrato que De Chirico pintou.

***

O que eu achei mais interessante foi ela contar do modo dela pintar. Clarice não sabia, mas instintivamente usava um método descoberto pelos surrealistas chamado “automatismo” e repetia, coincidentemente, a pesquisa de Max Ernst sobre nervuras de madeira.

Que poético, Clarice era surrealista - e talvez nem soubesse.

Links:
- Alguns quadros de Clarice Lispector em fotos grandes
- Clarice Lispector, um enigma

A beleza nos olhos de quem vê

Wednesday, December 27th, 2006

Leio o artigo da minha amiga Ana Elisa Ribeiro, a quem leio sempre e admiro muito e uma nota dissonante fica ressoando na minha mente inquieta, discordando. Passo alguns dias, releio. A nota discordante continua lá. Eu preciso escrever porque eu tenho uma visão diferente da dela sobre a falta de visão física.

Eu me recordo de que durante algum tempo sonhei em fazer a famosa cirurgia de miopia. As pessoas me perguntavam se eu não queria enxergar direito, enxergar corretamente, como uma pessoa normal. E eu ficava com esses finais de frase ecoando, enxergar direito, corretamente, normal.

A minha miopia se manifestou a primeira vez quando eu tinha uns cinco anos de idade e estava aprendendo a ler. A professora descobriu porque a minha escrita nos cadernos de caligrafia ocupavam o dobro das linhas necessárias e eu precisava sentar-me bem na frente para poder ler o que estava na lousa. Fomos ao oftalmologista da família, Dr. José Carlos Gouvêia Pacheco, eu e minha mãe. Dr. Pacheco atendia minha avó, minha mãe e minha tia há anos. Um senhor adorável, com um óculos de fundo de garrafa e uma risada contagiante. Saí de lá com uma receita para um óculos de três graus.

No ano seguinte, seis graus. No outro ano, nove. E no seguinte, dez. Aos onze anos de idade eu tinha onze graus. Eu tenho um tipo de miopia chamada miopia degenerativa. A miopia aumenta sem parar, até… até.

Aqui entra meu pai na história. Meu pai era um lutador incansável. Se o prognóstico era pessimista, meu pai enfrentava. Quanto pior, melhor pra ele. Enfrentava dobrado. Passei a infância tomando vitamina A, comendo cenoura, fazendo exercícios para a musculatura ocular (os músculos que movimentam os olhos e o importante músculo que controla a abertura da pupila), dispensada da educação física para evitar acidentes, que poderiam causar um descolamento de retina e a temível cegueira. Para compensar, meu pai me colocou para fazer balé. Dr. Pacheco sorria para mim a cada exame e dizia - eu tenho certeza de que não vai adiantar eu te pedir para não ler, então assista pouca televisão, ok?

O prognóstico começou a melhorar. Dr. Pacheco me disse que eu precisava manter a atitude até os vinte e cinco anos, quando o risco da miopia continuar a aumentar deixaria de existir, porque paramos de crescer totalmente nessa idade.

Durante toda a minha infância usei os famosos óculos de tartaruga com lentes de acrílico, inquebráveis. Eram pavorosos. As crianças da escola me aborreciam, faziam piada. Eu respondia, durona. Defendia meu direito de enxergar.

Aos treze anos comecei a usar lentes de contato gelatinosas. Por exigência do meu olho, precisei usar exatamente o grau do óculos, porque não enxergava nada se usasse o grau indicado na tabela de equivalência, que tira uns dois graus da correção. Não tinha dificuldade nenhuma com as lentes, nenhum problema. Eu sou uma criatura de hábitos, sou muito disciplinada. Cuidava da lente como manda o manual, nunca tive um fungo, uma conjuntivite, nada. E usar lentes de contato naquela época significava ter que fervê-la num artefato especial elétrico, usar uns cinco produtos químicos diferentes. Eu não me importava. Finalmente podia ler os outdoors da rua e exibir meus olhos verdes.

Quando completei vinte e cinco anos de idade, dei uma grande festa. Estava com doze graus de miopia. Eu era designer, produzia revistas, fotografava. Fui co-autora de um curso de fotografia patrocinado pela Kodak através do IUBRA, com um fotógrafo chamado José Carlos Schmid, que se tornou meu amigo e me ensinou vários truques técnicos para eu superar a minha natural dificuldade de obter foco nas fotos.

Aos vinte e nove anos, mandei fazer um óculos pequeno e lindo, moderno, com lentes escuras acopladas por ímã para compensar todos os óculos feios da infância. As lentes dos meus óculos são um pequeno fenômeno de tecnologia. São de cristal, possuem tratamento anti-reflexivo, servem de proteção contra os raios catódicos do computador. Eu não tenho mais fotofobia exatamente por causa desses óculos especiais.

Na última consulta que fiz com Dr. Pacheco, antes dele partir desse mundo, ele me lembrou todas as suas recomendações. A essa altura dos acontecimentos, ele se sentia muito orgulhoso e feliz de me ver, de saber que eu sou designer, diretora de arte, que eu escrevo muito, leio muito, assisto muitos filmes. Ele citava todos os escritores, pintores e cineastas que usam óculos de alto grau, cheio de orgulho com o nosso sucesso sobre a miopia degenerativa. Ele me recordou de que era possível que a miopia necessitasse de menor correção quando eu começasse a ter vista cansada, depois dos quarenta anos de idade.

Algum tempo depois uma grande amiga fez a cirurgia e se livrou dos oito graus de miopia. Outra grande amiga fez a cirurgia mas cinco anos depois estava com seis graus de miopia novamente. Ela ficou inconsolável. Depois de operar não se pode mais usar lente de contato. Ela andava pelas ruas sem óculos, com vergonha de usar o artefato, e sem enxergar.

Aos trinta e dois anos, fui a um novo especialista, uma vez que o Dr. Pacheco já não estava mais nesse mundo. Ele examinou tudo, fez teste de glaucoma - outro risco para quem tem miopia degenerativa - ficou admirado ao saber que a minha miopia é estável há décadas, constatou os dois graus de astigmatismo que não pediam correção, elogiou a alta qualidade da minha retina, explicando que era ela a responsável por eu ser capaz de encontrar um erro de meio milímetro em uma página diagramada ou perceber um mínimo desvio de cor em uma imagem.

Eu não enxergo, mas eu enxergo mais que muita gente - foi mais ou menos isso que ele disse.

Finalmente ele me perguntou se eu queria operar. Eu disse não, disse que ia esperar. Eu sei que nem todos os casos de cirurgia são bem sucedidos, eu sei que existe o risco de eu precisar operar por outra razão médica, eu sei que a cirurgia não corrige o astigmatismo, eu sei que no caso da miopia degenerativa a tendência é retornar - e aí eu não poderia mais usar lentes de contato e seria obrigada a usar apenas óculos! Não, obrigada, prefiro continuar vendo como eu vejo, prefiro poder exibir meus olhos verdes quando quiser.

Há uns dois anos, novo problema. A vista cansada atacou antes do previsto. Não conseguia mais usar lentes de contato, não funcionava. Eu não lia de perto com elas, eu não conseguia trabalhar no computador. Os óculos não precisaram de correção. Não precisei dos horríveis bifocais. Menos mal, fiquei de óculos, eu nunca tive vergonha deles mesmo.

Assisti Janelas da Alma emocionada. Tive o prazer e privilégio de poder dizer pessoalmente ao Walter Carvalho, com seus óculos grossos, o quanto eu apreciei o filme. Ele sorriu maravilhosamente.

Há algumas semanas atrás, quando fui fazer algumas coisas rotineiras, passei diante de uma ótica. Entrei. Falei com a moça. Estudamos as possibilidades de lentes de contato. Lembrei de tudo que o Dr. Pacheco me falou durante os mais de vinte anos que cuidou de mim. Pegamos a tabela de equivalência. Saí de lá com um pacotinho de lentes descartáveis de dez graus e meio, um produto químico e pronto. A tecnologia avança.

Dez graus e meio. Eu tenho doze de miopia, dois de astigmatismo, sei lá quantos de vista cansada. Não sabia se funcionaria. Cheguei em casa, coloquei um par. Li tudo de perto. Enxerguei tudo de longe. Atravessei a rua olhando. Trabalhei no computador. Eu posso ver.

Eu não preciso de correção para o astigmatismo nem para a vista cansada. Bastou diminuir o grau de correção da miopia, simples assim. Dr. Pacheco estava certo, outra vez.

E para completar, existem coisas maravilhosas que eu possuo na minha vida porque eu não enxergo direito, corretamente, normal.

Eu sei atravessar a rua de ouvido. Sei o som do tempo do motor dos carros, sei de que lado o carro vem. Eu sou capaz de escutar uma orquestra tocando e separar os instrumentos, isolando-os, ouvindo apenas aquele que eu quero ouvir. Sei distinguir sons e acordes, identifico facilmente a afinação usada. Não tenho conhecimento teórico de música, veja bem, eu ouço. Eu sei reconhecer uma pessoa pelo modo dela andar, mesmo de costas. Eu tenho um olfato e uma memória olfativa impressionantes. Se uma salada está minimamente passada, eu sei pelo aroma e sabor. Nunca comi uma comida estragada na vida. Sei distinguir o perfume que qualquer pessoa está usando, não a marca, mas sei sentir o aroma dos componentes do perfume, se é cítrico, se é de flores, se o fixador é de qualidade ou não. Odores estranhos jamais me escapam. Eu sou a primeira a perceber se está vazando gás.

Eu sempre sei pelo tom de voz de uma pessoa se ela está mentindo ou não. Sei também se está fingindo que está bem quando não está. Várias vezes surpreendi os amigos, parando a conversa de repente e falando - mas me diga o que você tem hoje, você está triste…

Fui bailarina até meus vinte e nove anos, danço muito bem até hoje. Tenho uma noção espacial incrível. Todas as vezes que mudamos de casa, quando eu era solteira, minha mãe me pedia para avaliar o espaço do futuro apartamento e calcular se a mobília caberia. Eu nunca errei. Eu tenho grande habilidade com o mouse, tenho coordenação fina e tato bem desenvolvidos. Eu sei descer escadas seguindo o corrimão e o ângulo da parede, contando os degraus. Existe um padrão na quantidade degraus das escadas, de passos necessários para descer as escadas, geralmente é dez, cinco, cinco ou dez, cinco, dez. Faço isso sem problemas, mesmo no escuro.

Ela não enxerga, mas presta uma atenção…

Sei que tudo isso está relacionado ao fato de eu ser a feliz possuidora de uma grande deficiência visual. Não ver direito, corretamente, normal, permitiu que eu aprendesse a ver coisas que os olhos não vêem. Permitiu que eu mostrasse através da minha arte, uma beleza que muitas pessoas não vêem, porque elas enxergam direito, corretamente, normal.

A beleza nos olhos de quem vê.

Eu acho que a cirurgia vai continuar esperando, indefinidamente…

olhos

Desumano

Saturday, December 23rd, 2006

Desumano

“A polícia acha que eu matei minha mãe. Eles têm certeza. Mas não é verdade. Porque eu mataria a minha própria mãe? Que coisa idiota, matar a própria mãe.”

A primeira coisa que eu preciso dizer é que eu gosto muito do livro da Olivia. O livro de Olivia é uma mistura de Hitchcok com Dostoievski e André Gide, só que muito melhor. É uma novela policial sem tiros, com um policial, para justificar o gênero, e duas mulheres, uma está morta, a outra está viva e se chama Luisa, que é um nome lindo.

A história não tem aqueles moralismos chatos de Dostoievski - ninguém devia ler russos, eles são terríveis, nos fazem chorar, perder a fé na humanidade e sentir culpa -, não tem gags óbvias de cinema de suspense - apesar de ter uma faca na trama - e tem o que eu considero a maior qualidade do livro, total falta de consideração com o leitor. O livro é desumano.

“Parece que foi há tanto tempo.”

Para completar o passeio, a menina sabe escrever. Tem estilo, percebe-se que ela saboreia as frases, pensa no que vai escrever, pensa na construção do texto, pensa na construção da trama, enfim, PENSA - algo raro nos tempos atuais onde a maioria dos chamados “novos escritores” só escrevem coisas chatas, parodiando antigos sucessos nacionais em livros que cheiram a um Nelson Rodrigues requentado com adição de escatologia.

“…deixando um gosto de parede na boca.”

Não tem nada rodriguiano no livro da Olivia, graças-a-deus. Também não encontraremos fedores putrefatos de ralos e outros modismos da linha “estorvo”. Olivia tem um estilo próprio de contar a história. Olivia faz o leitor brincar de gato e rato.

“Senti vontade de rir, mas me controlei.”

Um quebra-cabeças é proposto logo no início do livro. Temos uma mulher morta e alguém a matou. A polícia desconfia imediatamente do protagonista, mas ele não lembra o que aconteceu. Há sangue. Alguém deu uma pancada na cabeça dele.

“Só queria ficar em silêncio com minha dor de cabeça.”

A partir daí, começamos a tentar desvendar o mistério com o protagonista do livro. Quem matou a mãe dele? Ele conseguirá tempo suficiente para conseguir descobrir? Nós descobriremos?

“Colocaram uma foto minha na capa do jornal. Com o meu nome. Não me chama pelo nome.”

Leiam o livro. Vale a pena.

Poesia

Tuesday, December 19th, 2006

Passagem das Horas

Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

- Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

todo conhecimento
da intimidade das coisas
é imediatamente um poema

- Gaston Bachelard

+ Postais +

O livro da Olivia (sem acento)

Wednesday, December 6th, 2006

Lembram que eu disse que ia no lançamento do livro da Olivia? Pois eu fui. Peguei duas filas enormes, uma pra comprar o livro, outra para pegar o autógrafo. Tem umas duas mil e setecentas fotos do lançamento aqui, porque a Olivia é megalomaníaca, inclusive uma foto de mim que está engraçada. O lugar onde fomos tomar cerveja era caro, mas o sanduíche era ótimo. O Biajoni está mentindo descaradamente de novo (suspiro), eu não gritei nada porque eu sou uma dama, mas sim, eu dei uns rodopios e perdôo a mentira dele porque eu gostei dele me chamar de bailarina. Até onde soube, o Roger não foi armado e ele é um gentleman. Ele e a Olivia formam um par tão bonitinho! Adorei. O Diogo descobriu o segredo da minha câmera fotográfica só de olhar, esse menino tem futuro. Descobri que o Ricardo não é tão formal quanto eu pensava nem tão escrachado quanto parece ser em texto, na verdade achei-o um tanto tímido e encantador. Os amigos-de-colégio da Olivia são umas graças, cheios de vida e inteligentes. Adoro vida inteligente, you know.

A Olivia fez uma dedicatória linda pra mim no livro:
“Para minha amiga imaginária Dani, um beijão!”

Puxa, amei. Já faz uns dois anos (eu acho) que eu sou amiga imaginária dela e ela é a minha ficcionista. É uma honra.

E eu fiz um filminho bonitinho, já que eu fui até lá.

Tem mais histórias da noite de autógrafos no blog da Olivia.