Thursday, December 4, 2008

'Somos todos texto'

Lorem ipsum dolor

Friday, September 1st, 2006

“Itaque earum rerum hic tenetur a sapiente delectus, ut aut reiciendis voluptatibus maiores alias consequatur aut perferendis doloribus asperiores repellat.”

“The wise man therefore always holds in these matters to this principle of selection: he rejects pleasures to secure other greater pleasures, or else he endures pains to avoid worse pains.”
tradução de H. Rackham - 1914

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Fonte: The standard Lorem Ipsum passage, used since the 1500s

I do not want this

Wednesday, August 16th, 2006

Tive um dia horrível. Horrível, horrível. Não estou com vontade de nem falar a respeito.
Lembrei de uma música do Trent Reznor chamada “I do not want this” onde um pedaço diz assim:

“maybe I don’t have a choice
and maybe that is all I have
and maybe this is a cry for help
I do not want this
I do not want this
I do not want this
I do not want this
don’t you tell me how I feel
don’t you tell me how I feel
don’t you tell me how I feel
you don’t know just how I feel
I want to do something that matters”

É, hoje foi um dia infernal, um dia de moedor de carne.
Hoje eu não consegui falar. Eu só queria ter tido a oportunidade de explicar o que é que eu pensava. Só isso. Eu sou uma pessoa cordata, eu sou fácil de convencer. Eu só queria ter tido a oportunidade de me expressar. Só isso.

Achei essa foto interessantíssima no Google, ilustra bem o dia que eu tive:

Shut up

É de um fotógrafo chamado Brandon Luhring, de um livro que ele fez que se chama “shut up”, que significa “cale a boca”. O texto que acompanha o livro é bem interessante:

Shut up statement

Não é a primeira vez que com essa mesma pessoa eu não consigo falar o que eu penso. É a quarta vez. Hoje eu saí de onde eu estava com a clara impressão de que nada do que eu penso faz a menor diferença. Não é importante. Eu não me senti respeitada nem levada a sério.

Vão dizer que eu estou enganada. Como eu preciso de dinheiro, eu vou sorrir e responder: “então façam como vocês quiserem”. Estou na posição desfavorecida. Não tenho o poder de impor nada.

A vida não é fantástica?

Sabem, não é só a boca que fala. Não é só o texto que fala. Atitude fala, liguagem corporal fala, os olhos falam, tudo fala. O texto de alguém pode ser linguisticamente preciso, formal, impecável e dizer “olha, eu gosto muito de você”. Mas se isso é dito aos gritos, por exemplo, ou com um olhar duro e frio, ou com raiva contida, o texto perde todo o significado original, a atitude grita muito mais alto e comunica outra coisa.

Eu odeio ser tratada com violência. Para mim, intransigência é violência. Não me deixar falar é violência. Eu odeio violência. Odeio. Alguém que não permita me expressar é a maior violência a qual podem me submeter. Se isso vier acompanhado de poder econômico, se eu estiver em situação desvantajosa, eu me sinto pior ainda.

Hoje eu estava muda e amarrada. A única coisa que me sobrou para salvar um resquício da minha dignidade como ser humano foi levantar e sair dali. Antes de me permitir sair, fui obrigada a pedir desculpas por ter perdido a compostura numa situação moedor de carne. Me senti humilhada. Fui chorando pela rua.

Eu odeio isso.

Nesse exato momento, duas da manhã e insone, tem duas coisas que eu adoraria se fossem possíveis: se eu pudesse acordar amanhã de manhã em janeiro de 1999, exatamente como as coisas eram em janeiro de 1999 ou se eu pudesse simplesmente ir embora para algum lugar novo amanhã pela manhã, algum lugar onde as coisas funcionassem diferente de como são por aqui. Eu simplesmente odeio o que foi o dia de hoje e como as coisas são. Eu odeio ficar amarrada e amordaçada. Eu odeio que não me permitam ser civilizada. Eu odeio quem fala o tempo todo, joga poderes jurídicos na minha cara e não me deixa dizer o que eu estou pensando ou o que é que está me incomodando.

Já fizeram isso comigo mais de uma vez. Não é nada inédito. O fato de não ser novidade, só faz ficar pior.

Como diria Marilyn Manson:
“Everything’s been said before
There’s nothing left to say anymore
When it’s all the same
You can ask for it by name”

Vejam vocês mesmos, a música é fantástica.

Eu tenho um histórico horrível de pessoas que são prepotentes comigo e que não me permitem expressar o que eu estou pensando. Que não querem me deixar falar. Que vem pra cima de mim com conversas ameaçadoras. Que jogam poderes legais no meu nariz. Estou cansada disso. Moedor de carne.

Mas eu vou calar a minha boca, uma vez que hoje o que eu menos consegui mesmo foi falar qualquer coisa. Shut up, Dani. Você não é ninguém mesmo. Não é dona de nada nem tem poder pra p**** nenhuma.

Okay.

Hoje pela manhã, com um grande e querido amigo ao telefone, eu disse: a maior mentira do século XX e do XXI é que “dinheiro não traz felicidade”. Dinheiro compra tudo e manda buscar tudo. Se você tem dinheiro as pessoas te respeitam e te tratam bem. Se você não tem, nunca vai ter respeito nenhum. Essa regra foi criada há milênios e continua valendo. O resto é hipocrisia, é controle social, é ilusão para manter todo mundo bem enquadrado nas regras do jogo. Todo mundo é igual, mas o dinheiro faz alguns serem mais iguais que os outros.

Eu odeio isso. Eu nunca avaliei ninguém pela conta bancária. Eu detesto estar numa posição onde eu dependo das outras pessoas. Eu odeio estar amarrada. Eu tenho saudades de 1999.

Vou encerrar com uma única frase, cujo autor eu não recordo, mas nunca esqueci:
Se você quer que uma pessoa grite “não” com todas as suas forças é só tentar obrigá-la a sussurrar um sim quando ela não quer.

Inteligência e manutenção da ignorância

Wednesday, July 12th, 2006

Ontem eu fui assistir a um espetáculo solo do Antonio Abujamra. Foi gostoso, especialmente porque fui falar com ele depois do espetáculo e tivemos uma conversa deliciosa. O Abu foi um dos grandes amigos do meu pai. É bom conversar com os antigos amigos de meu pai, sempre escuto histórias adoráveis e sempre sou recebida como se eu fosse parte da família.

As pessoas têm uma memória adorável do meu pai. Isso me faz um grande bem.

O texto do espetáculo do Abu me deixou pensativa. O Abu repetiu várias vezes: “Eu não sou um provocador, eu gosto de ser provocado”, num fino tom de ironia. Eu amo pessoas inteligentes.

No sábado eu fui dar uma palestra em Limeira. Uma das consequências da palestra foi uma série de emails de uma pessoa que assistiu e não se conformava com as minhas posições em relação ao universo do cinema brasileiro. O rapaz me chamou de chata e detestou tudo que eu falei. Eu respondi com educação - como sempre faço. Por trás de uma irritação existe algo que foi tocado - e esse toque é meu objetivo quando dou palestras. O rapaz confessou que preferia ouvir a mesma coleção de clichés e frases de efeito de sempre: que fazer cinema é muito difícil, como é bonitinho e digno de valor o sujeito analfabeto que faz cinema com resto de filme catado no lixo, como é importante usar o cinema para “fazer denúncia da miséria brasileira”, etc, etc.

Bom, nunca vai escutar isso de mim. Não é o que eu acredito. Não é o que eu incentivo, nunca vai ser. Eu não concordo e não acredito nos clichés. Os clichés são a mautenção da situação. Ninguém jamais vai me convencer que é lindo fazer a manutenção da miséria e da ignorância. Tem gente distorcendo o conceito de “diversidade cultural”. “Diversidade cultural” definitivamente não é fazer manutenção de analfabetos e miseráveis e chamar isso de “parte da diversidade”. Tem um componente maligno nesse discurso que para mim é transparente.

Se denúncia da miséria no cinema funcionasse, não teríamos mais miséria no Brasil há mais de 30 anos, porque desde a década de 60 se faz “denúncia” da miséria no cinema. A mim parece que esse tipo de “tática” não está funcionando, é pura demagogia. Um monte de gente pega dinheiro através de leis de incentivo para fazer cinema sobre miseráveis. Os miseráveis continuam miseráveis e os que pegaram a grana vão de jatinho comer caviar.

Vocês não acham que tem alguma coisa errada nessa sistemática?

Eu acredito em cada vez mais crescer a indústria real de cinema. As TVs tem milhões de problemas, sim, mas elas geram empregos e alimentam a indústria. Não é eliminando a concorrência que se vai construir alguma indústria, o Brasil já devia ter aprendido isso. O que precisamos sempre é de mais empresas, mais gente trabalhando, não de mais peneira, não de alimentar o mito de que cinema ou tv é coisa pra privilegiados. Quando mais gente filmar PROFISSIONALMENTE, melhor. Quanto mais produtoras, mais emissoras e mais salas de cinema, MELHOR. É na quantidade que se atinge a qualidade. Eu já defendi esse tipo de idéia mais de uma vez.

Pode parecer ideológicamente lindo elogiar um sujeito “esforçado” que “apesar das dificuldades” consegue fazer um filme com resto de película, leva doze anos mas consegue. Só que tem um dado errado e maligno nessa equação: o tal sujeito não melhora de condição de vida, não se profissionaliza, continua sendo um caso isolado que será citado em discursos políticos e só. A equação correta, a meu ver, seria oferecer ao tal sujeito e a todas as pessoas que queiram realmente trabalhar em cinema mais condições de aprender profissionalmente como se faz cinema e de trabalhar profissionalmente, remunerado, em uma indústria produtiva.

O argumento de que cada vez que uma Xuxa, um Didi ou uma Sandy & Junior fazem um filme comercial alguém deixa de fazer um filme de arte me parece muito estranho. Se queremos uma indústria e se realmente respeitamos a diversidade, porque essa indústria deveria excluir projetos comerciais? Porque essa diversidade exclui as Xuxas ou qualquer outro produto de massas? A meu ver, esses projetos comerciais geram empregos e renda, tem sua função dentro da indústria.

Eu sou contra a prepotência social, econômica e cultural. Excluir os projetos comerciais rotulando-os de “lixo cultural” me parece tão ruim quanto excluir filmes de arte. A indústria, para funcionar, precisa de ambos.

A mim parece que atualmente o problema do cinema está em outro lugar: na falta de núcleos de produção e na falta de salas de exibição e canais de distribuição. Dinheiro e interesse existem, um núcleo de produção de cinema está sendo montado em Paulínia e acredito que mais núcleos vão surgir.

Voltando à noite de ontem, não sei o que o Abu pensaria das minhas digressões, mas teve dois momentos muito interessante que ele me pegou de jeito. O primeiro foi quando ele contava de uma aula que ele deu na USP onde ele começou dizendo “Devemos sempre retornar aos clássicos. Alguém aqui leu Eurípides?” - e ninguém respondeu, tanto na aula que ele deu na USP quanto ontem no teatro.

Eu confesso que morri de vontade de levantar a mão e responder: “Sim, eu já li Eurípedes. Eu li Medéia, Electra e Orestes. Eu também li Édipo Rei de Sófocles. E li Os Lusíadas, de Camões, tudo isso no colégio, antes dos dezesseis anos de idade”. Mas eu fiquei quieta. Eu já ia chamar atenção suficiente indo falar com ele no camarim. Eu odeio chamar atenção, eu só apareço porque me é estritamente necessário, devido ao meu trabalho. Para quem não me conhece como pessoa pode parecer bizarro, mas eu sou muito, muito low profile. Eu odeio me expor.

E eu sei o que as pessoas pensam de quem leu Eurípides antes do dezesseis anos: que são Nerds. CDFs. O brasileiro detesta quem tem cultura, porque esse é o país dos “achismos“, esse é o país da valorização da ignorância e da miséria. Ter cultura é um crime, o negócio é carnaval, futebol e analfabetismo.

O mais curioso é que essa mentalidade está ultrapassada. Só persiste no imaginário. Eu vi o Ronaldinho Gaúcho dando entrevistas em francês, espanhol e inglês durante a copa. O mito do jogador de futebol analfabeto e desnutrido de perninhas tortas morreu faz tempo. Mas existe a manutenção da idéia, afinal, é preciso fazer a manutenção da miséria. O miserável precisa se conformar em continuar miserável, caso contrário, como é que os corruptos e ladrões de gravata vão continuar existindo? A manutenção da miséria é também a manutenção da injustiça social… e dos que levam vantagem com isso.

Eu não assisti à copa, não porque odeie futebol, mas porque simplesmente não gosto de esportes. Nunca gostei. Meu negócio desde pequena era teatro, ballet e ópera. Que me desculpem, mas eu fui mal acostumada. Meu pai me levava a espetáculos desde que eu era bem pequenina, eu frequentei o teatro de Arena com menos de seis anos de idade. Nunca esqueço quando fui assistir a Flauta Mágica de Mozart no teatro municipal, encenada pelo Giramundo.

Eu não devia ser exceção. Eu não devia ser elite. A educação que eu recebi - grande parte dela em escola pública - deveria ser a regra.

Mas, a manutenção da ignorância. Eurípedes e Sófocles não é mais lido nas escolas. Ópera é coisa de pedante cultural. Pobre Mozart, que escrevia ópera para o povo. O povo não vê mais ópera, só assiste futebol, carnaval e novela.

O segundo momento que o Abu me pegou foi quando conversamos. Ele virou para mim e fez um comentário para o qual eu não tive resposta: “Vocês cineastas são uma espécie complicada. Levam anos e anos para fazer apenas um filme.” Pois é, Abu, tem alguma coisa muito errada nisso, eu sei. Precisamos combater isso. Estou fazendo a minha parte.

Eu compreendo as pessoas. Compreendo o email do rapaz que me achou uma chata. Pensar cansa mesmo. Debater idéias com pessoas que gostam de pensar, cansa mais ainda. Argumentar cansa. Eu tenho encontrado muitas pessoas que detestam pensar e detestam debater idéias. É muito mais fácil ser medíocre, despende menos energia. Eu entendo isso. A preguiça é maior que o sonho, já dizia uma tia minha.

Ontem, como bônus, fiz três novos amigos. Depois do espetáculo ofereceram um coquetel com vinho chileno e petiscos. Nós nos divertimos. Três pessoas adoráveis que eu espero ver novamente logo. Continuo adorando gente.

Ah, sim, e para quem está stand by de notícias, saiu finalmente o contrato de aluguel do apartamento onde eu vou morar. Aguardem novidades.

Artigo publicado na Gazeta Mercantil

Friday, June 30th, 2006

Saiu publicado na edição de hoje da Gazeta Mercantil, no caderno de final de semana, na página 04, o meu artigo sobre direção de arte em audiovisual intitulado “Direção de arte: a diferença está diante de seus olhos”. Para quem não assina a Gazeta é possível se cadastrar no site gratuitamente por 15 dias e baixar a versão em PDF:
http://www.gazetamercantil.com.br/

Nota: Recebi alguns emails dizendo que está complicado baixar o PDF, então coloquei o artigo online aqui no chá:
Direção de arte: a diferença está diante de seus olhos

Guimarães Rosa e as aulas do professor Aguinaldo

Thursday, April 13th, 2006

Eu imagino que deve ter muito mais gente por aí, talvez lendo isso aqui agora mesmo, que tenha sido aluno do professor Aguinaldo. O professor deu aula de literatura no colégio Equipe e na Universidade Mackenzie, durante a década de 80. Eu tinha uns quinze anos quando comecei a ter aulas com ele no colégio.

Assistir às aulas do Professor Aguinaldo era um universo à parte. Até hoje, vejo as pessoas falarem de literatura como se fosse alguma coisa árida, mítica, encriptada ou sabe se lá o que mais. Para mim, desde pequena, sempre foi encantamento. Com as aulas do Professor Aguinaldo, então, magia, pura magia.

Então tinha aquele sujeito, o Guimarães Rosa, e seus livros. Eu já tinha lido sofridamente um tal de José de Alencar que me entediava à beira das lágrimas. Tinha sofrido horrores nas mãos de um português chamado Camões que tinha escrito uns Lusíadas do qual só lembro “das armas e dos barões assinalados”… era isso mesmo? Meu mundo se dividia em duas literaturas - as que meu pai me dava para ler, que incluíam Monteiro Lobato, Julio Verne, Lewis Carroll e Albert Camus, e que eu amava, amava - e aquelas coisas insuportavelmente chatas que professores de mau humor mandavam ler e que todo mundo lia porque ia cair no vestibular e tinha que lembrar que “as armas e os barões assassinados” era de um tal de Camões - ou nem era?

Guimarães Rosa, não. Guimarães Rosa era outra coisa muito diferente.

Primeiras Estórias. O Professor Aguinaldo pediu-nos que comprasse o livro e que não lêssemos. Ainda não. Primeiro, ele sacou uma edição pequena e já bem usada de sua pasta surrada de falso couro marrom que fechava com um fecho de metal - rapaz, o que tinha de coisa especial naquela pasta - folheou o livreto, arrumou os óculos redondos de aro no nariz e falou - eloquentemente, como era seu modo de ser - de como Guimarães Rosa era um sujeito que tinha nascido no meio do sertão das Minas Gerais - que, claro, nenhum de nós conhecia, crianças de cidade. Fui ver uma vaca pela primeira vez aos vinte e dois anos de idade, já formada em Artes Plásticas e dando aulas de artes numa escola tombada pelo Patrimônio Histórico no interior do estado de São Paulo, as vacas pastando no horizonte de aquarela, capim verde, céu azul, meus alunos de seis anos me explicando que vaca usa brinco, dona, que é pra identificar. Mas então, o Guimarães, o sertão.

O professor Aguinaldo abriu o livro amassado, folheou, secou o suor da testa, começou a contar como tinha conhecido Guimarães e como era o sertão do Guimarães, ficou folheando, folheando - disse algo como “ah, vamos ver isso” - e leu:

“Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça?”

E parou. “Não, não é isso que eu quero ler” - disse, continuando a folhear o livrinho pardacento e amassado. “Ah, é isso”.

Novamente, arruma o óculos, comenta que está calor e ameaça começar a ler. Fecha o livro. A classe ri. O professor olha para nós com seriedade.

“Não, eu não vou ler… eu vou contar” - e começa a contar a estória de como uma moça filha de mãe leviana foi abandonada pela família e é entonce acolhida em uma fazenda de polvilho. O povilho, como sabemos, é farinha de mandioca crua, curada, branco, branco. O trabalho da moça, muito agradecida pela acolhida em sua má fortuna, é quebrar mandioca para fazer a farinha do polvilho. O calor grassa. O trabalho é duro. O professor transpira. A classe escuta em silêncio. A mandioca branca, moída e sovada pelas mãos nuas da moça se torna um caldo branco de grude, mandioca brava, as pessoas todas reunidas em suas roupas de algodão branco, sovando aquela mandioca que um dia vai virar farinha, mas que por enquanto é caldo grude branco que cola na mão, na roupa, no cabelo, cobrindo tudo de um branco de cal. A moça é triste, socando a mandioca. A moça sonha com coisas que não sabe se vai ter, se vai esperançar, porque é pobre e é triste, apesar de moça. A goma da mandioca, o polvilho branco porque a polpa da mandioca é branca, reverbera no sol. As pessoas cobertas de polvilho reverberam no sol. Transpiram como o professor Aguinaldo. E então, uma tarde quente e branca de polvilho, aparece o moço dono da fazenda no seu cavalo, no meio daquela brancura toda, reluzindo sol, um moço bonito de sorriso branco e dá de cara com aquela moça pobre coberta de branco e se paixona. Um moço príncipe de cavalo para amar aquela moça pobre que tem tantos sonhos. A classe toda silenciosa escutando. O professor Aguinaldo ri, seca o suor da testa com o lenço branco, ajeita o óculos, olha para seus sapatos, pára e fala:

“Nossa! Eu vim com uma meia de cada cor!”

A classe ri. O professor ri, pega o livro outra vez. Seca o suor da testa com o lenço branco.

“Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais.”

O sinal do final da aula toca, o professor fecha o livro, coloca na pasta amarrotada, pede pra gente ler para dali a duas semanas. Imagine, lemos para o dia seguinte, na urgência desesperada da curiosidade de quinze anos de saber mais do polvilho, do famigerado polvilho, a moça, o moço, o cavalo, o sertão.

Eu amo Guimarães Rosa, sempre vou amar, por causa do professor Aguinaldo e aquele seu jeito de mostrar o que as literaturas têm de especial. Bons tempos, professor, bons tempos.

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Texto publicado no Digestivo Cultural para o Especial Guimarães Rosa

Leia Guimarães Rosa online no Releituras e saboreie 3 contos do livro Primeiras Estórias: “Famigerado”, “O Cavalo que Bebia Cerveja” e “A Terceira Margem do Rio”. O conto que menciona o polvilho e que foi o foco da aula do Professor Aguinaldo chama-se “Substância”.

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Notas e curiosidades: Eu falo e escrevo JULIO Verne mesmo. Quando eu era criança e lia os livros de JULIO Verne, não vinha escrito “Jules” Verne na capa. Ainda não vem, não adotam o nome dele no original francês. Não sei a razão de traduzirem o primeiro nome do escritor para o português mas ainda traduzem.
Existem 10.500.000 resultados para JULIO Verne no Google e 6.400.000 para JULES Verne. A Wikipedia assinala JULIO Verne. O IMDB assinala “Jules Verne birth name “Jules Gabriel Verne” aka “JULIO Verne“.
O IMDB assinala 111 filmes realizados a partir das obra de Julio Verne, sendo o primeiro deles o revolucionário “Da Terra à Lua” de Georges Mélies, realizado em 1902 e que tem a famosa imagem do foguete no olho da lua (veja imagem abaixo). O filme já caiu em domínio público.
O Submarino tem 76 produtos do autor JULIO Verne mas apenas 8 produtos para JULES Verne - todos importados. A Livraria Cultura tem 291 produtos do autor JULIO Verne e somente 30 para JULES Verne - nenhum deles em português. Podemos concluir que ainda se usa muito o nome de Monsieur Verne traduzido para o português.

A linda coleção de livros do Julio Verne que tínhamos em casa era encapada em couro vermelho com lombadas douradas e tinha ilustrações maravilhosas que me faziam sonhar. Jamais esqueço os desenhos do submarino do capitão Nemo ou os lugares de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Os dois ilustradores principais de Julio Verne eram George Roux e León Benett, mas vários outros ilustradores desenharam para seus livros.

Viagem a Lua de Georges Mélies

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Comentário que eu recebi por email, vindo do Digestivo:

“Olá, Daniela, fui aluna do Agnaldo no Equipe, lá no meio dos anos setenta; era meu professor predileto e entendi que além de jornalismo eu teria que fazer literatura; ele gostava do que eu escrevia e eu gostava, adorava suas aulas. Ele não gostava da cor amarela; ele chamava as pessoas pelo nome que ele achava que elas tinham a cara de tal nome. Ele disse letra do parabéns a você para o Fernando Pessoa no dia de seu aniversário… veja só, não é o máximo? Essa do Guima eu não sabia, e adorei! Só ele mesmo, né? Que bom que foi aluna dele e viveu parte do que vivi, belas experiências. O Agnaldo é um verdadeiro educador, não acha? Abraço!”
Isa Fonseca

O Olho da História

Monday, February 6th, 2006

Saiu publicado um texto meu intitulado “Novas tecnologias de ensino e aprendizagem: a internet, a tecnologia e os ambientes virtuais” na Revista O Olho da História, da Universidade Federal da Bahia. É oficialmente meu primeiro texto escrito (e publicado) especialmente para uma revista acadêmica e me confesso muito orgulhosa de ter essa estréia numa revista de tão grande seriedade, renome e competência. E ainda pra completar, baiana, o que me dá uma especial alegria (os amigos sabem muito bem por quê).

Sobre o Orkut

Sunday, February 5th, 2006

Texto novo meu no Digestivo Cultural:
Orkut, um sonho impossível?

Comentários aqui ou lá no Digestivo são mais que bem vindos!

Aforismos kafkianos

Monday, December 12th, 2005

aforismo
do Lat. aphorismu Gr. aphorismós, delimitação
s. m., proposição; máxima; rifão;
sentença que em poucas palavras encerra um princípio moral.

kafkiano
adj., pertencente ou relativo ao escritor F. Kafka (1883-1924);
s. m., admirador ou conhecedor da obra de Kafka.

05
A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.

13
Um primeiro sinal do conhecimento nascente é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável; uma outra, inalcançável. Não há mais vergonha em se desejar morrer; pede-se apenas o deslocamento da velha cela, que se odeia, para uma nova, a qual no devido tempo se aprenderá a odiar. Um resquício de fé deverá fazer crer, durante a mudança, que o Senhor vai casualmente surgir no corredor, olhar o prisioneiro e dizer: “Este não deve ser preso novamente. Ele vem comigo”.

14
Seria algo desesperador, se caminhasses numa planície, com a agradável sensação de estar a avançar, quando na verdade retrocedias. Como porém escalavas uma encosta abrupta, bastante inclinada, conforme por ti mesmo vista de baixo, a causa do retrocesso bem poderia ser devido à disposição do terreno. Não deves desesperar.

16
Uma gaiola saiu a procura de um pássaro.

20
Leopardos invadem o templo e bebem toda a água da pia de sacrifícios, deixando-a vazia. Isto se repete sempre. Por fim, o evento pode ser previsto e torna-se uma parte do ritual.

24
Compreender a ventura de que o chão, sobre o qual estás parado, não pode ser maior do que os dois pés que o cobrem.

25
Como se pode estar satisfeito com o mundo, a não ser quando nele se exile?

36
No passado eu não compreendia porque não encontrava respostas às minhas perguntas; hoje não compreendo como podia acreditar que pudesse perguntar. Entretanto, eu não acreditava, perguntava somente.

47
Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.

Aphorismen, Franz Kafka

Excentricidades

Tuesday, December 6th, 2005

Leio um comentário sobre “ser excêntrico” no blog de um amigo. Vou atrás da fonte da notícia. Leio tudo que encontro.

Basicamente, ser “excêntrico” é ser “diferente” – diferente do quê, não me pergunte, hoje em dia definir o que é “ser diferente” se tornou uma tarefa difícil, uma definição que precisa vir acompanhada de uma lista de parâmetros, um manual de instruções referenciais. Há tanta “moda”, há tanta diversidade, e ao mesmo tempo, estamos tão globalizados que hoje em dia, duro é achar um “igual”. Claro, existem as chamadas tribos, mas esse conceito é meio vazio na minha opinião. O que é tribo? Um grupo de pessoas que usa um determinado cabelo, maquiagem ou roupa? Um grupo de aborígenas no meio do deserto?

Mas voltemos ao artigo referido, que pertence a uma revista britânica: o autor desfila dados de uma pesquisa que começou por causa de um novo comediante britânico que foi rotulado de “excêntrico” e é adorado pelo público – hoje em dia, para que uma afirmação tenha credibilidade quando impressa, é preciso ter dados estatísticos, gráficos e alguns nomes famosos como acompanhamento – e segue, em tom entusiasta, dizendo como ser esquisito, bizarro e diferente, aumenta o sex appeal da pessoa, implementa o sistema imunológico, aumenta o sucesso social, a felicidade, etc, etc.

Devo me confessar profundamente cética a esse tipo de artigo, é uma reedição da “receita para ser mais feliz” que vem sendo publicada em revistas com a mesma freqüência e seriedade de um horóscopo ou de um conselho de livro de auto-ajuda: não saia de casa sem guarda-chuva, 95% dos entrevistados afirmaram que chocolate faz sentir-se bem, essa semana os pesquisadores confirmaram que café lubrifica as artérias e que ser excêntrico aumenta a longevidade e a atividade sexual. Aham. Certo.

É curioso como existe no ser humano uma necessidade de “se destacar na multidão”. As pessoas querem afirmar sua individualidade, sua diferença. Querem deixar sua marca no mundo, chamar atenção, se destacar, ainda que seja apenas pintando o cabelo de roxo. Coisas de tempo moderno, porque, como o próprio Darwin afirmaria, a natureza gosta é de iguais: criaturas diferentes têm dificuldade de se adaptar a grupos, sobreviver, multiplicar-se. Não é a toa que os muito jovens se aglutinam em grupos absolutamente padronizados em roupas, cabelos e atitudes. No fundo, todos nós queremos ser aceitos pelos outros e se formos muito diferentes, seremos rejeitados. Sabemos disso quase que instintivamente.

Volto ao artigo e releio, procurando a verdadeira mensagem nas entrelinhas: o que o artigo diz, quase como uma pregação, é que ser alegre, engraçado, ter bom humor chama a atenção dos demais – ser um deprimido está na moda, vejam os góticos, vejam o sucesso dos EMOs, mas cá entre nós, quem aguenta um deprimido profissional por muito tempo? – ser alegre aumenta a longevidade da pessoa, diminui a tendência a problemas de saúde, torna a pessoa mais atraente para as outras. Ah, tá, agora sim, fez sentido.

Por que não disseram isso desde o começo? Talvez porque hoje em dia é preciso enfeitar um texto, algo escrito de forma direta e óbvia demais seria chamado de clichê ou rejeitado pelo leitor, pela obviedade e clareza. Outra característica curiosa do ser humano é que somos criaturas que detestam que nos digam como devemos ser ou o que devemos fazer, mesmo quando procuramos “receitas de felicidade”: no fundo, queremos ler ou ouvir alguma coisa que confirme o que pensamos, que nos faça sentir que estamos corretos. Ninguém gosta que lhe aponte os erros, ou que lhes diga: você está na contra-mão, my friend. Disfarçando o texto com um formato de “vejam essa novidade recém-descoberta” o leitor tem a impressão de que teve acesso a uma incrível revelação de sabedoria e se coloca em uma posição mais aberta a aceitar o que está lendo.

E no fundo, a motivação continua a mesma: o que as pessoas querem é ser aceitas pelas outras, querem ser bem sucedidas socialmente, sejam elas iguais ou diferentes. Nossos pobres egos precisam disso.


E enquanto isso, continua-se discutindo visão e cultura. Estive em duas reuniões ontem que me remeteram novamente a essa questão, ainda mais embalada após o show que assisti no sábado, do Claro que é Rock. Explico.

Existe hoje, graças à política cultural que foi adotada pelo nosso Ministro Gil, uma preocupação em valorizar, registrar e estimular o regionalismo cultural. É uma preocupação oportuna, com toda a globalização que vem acontecendo no mundo todo, com a perda de origens culturais causada por uma invasão de cultura estrangeira de diversas origens que chega cada vez mais rapidamente, via TV e internet, principalmente.

Foi muito curioso assistir em um mesmo show a Nação Zumbi, com o seu rock-maracatu-mangue-beat – pela qual sou apaixonada desde que escutei “A Cidade”, anos e anos atrás, com o saudoso Chico Science, que, em um daqueles golpes de ironia do destino, morreu precocemente em um acidente de carro em 1997 – misturada com o punk de Iggy Pop e o industrial rascante do Nine Inch Nails. Acredito que somos hoje isso, uma mistura do que veio ao Brasil de outros mundos nas ondas da colonização e o que veio ao Brasil nas ondas tecnológicas da globalização cultural, misturado às origens, como o maracatu.

Então não cesso de me assombrar com a quantidade imensa de jovens metropolitanos que nasceram e foram criados na metrópole abarrotada de shoppings, cinemas que exibem filmes em sua maioria americanos, rádios e TVs recheadas de enlatados & jabás, que não têm conhecimento nenhum sobre o que podemos chamar de “raízes culturais” brasileiras. Não sabem, nunca ouviram nem viram, por exemplo, o maracatu tradicional.

Sem saber o que é a cultura original que existia aqui na terra brasiliensis, o que veio importado com as imigrações durante todo o período colonial e pré-industrial, a mescla que nasceu disso, soterrados com o que vem importado com a globalização, sem conceituação, sem digestão, como podem esses jovens saberem quem são eles mesmos? Há uma perda de identidade constante, há um desvínculo com a origem, há uma renovação industrial de modismos. A forma esvaziada do conteúdo.

Só resta, então, o punk de butique, o excêntrico, o esquisito, simbolizado em cores de cabelos, roupas, maquiagem, trejeitos. A tribo dos sem-identidade, as vítimas-das-modas.

Pensamentos & pedidos

Tuesday, December 6th, 2005

De vez em quando, escrevo para o Digestivo Cultural. Em tese eu sou uma colunista, mas não escrevo com regularidade, a maior parte do tempo eu não sei o que escrever. Eu até gostaria de escrever mais, tenho muita coisa na cabeça, muitas idéias, muitos conceitos, uma infovia inteira de informações exteriores e interiores… mas eu não consigo deixar fluir.

A mim intimida quando “preciso” escrever alguma coisa. Já comentei no chá que eu geralmente escrevo textos quando eles urgem, quando eles simplesmente aparecem do nada na minha cabeça e pedem para ser escritos. Mas eu não sou uma escritora e não ser escritora, ou seja, não desejar escrever o tempo todo, não conseguir escrever todo o tempo, tem se revelado problemático para mim.

Esse ano prestei um concurso. Nunca tinha prestado um concurso na vida. Foi de derreter neurônios, foi uma experiência curiosa. Tive que escrever à mão e eu, que já fui expert em escrever à mão em outras alturas da vida, não sei mais fazer isso. Talvez seja porque agora temos esses teclados, essa possibilidade de simplesmente fazer o texto fluir pela ponta dos dedos para um mecanismo que praticamente responde à velocidade dos pensamentos. Escrever à mão é tarefa muito laboriosa, complexa. Precisa pensar mais devagar. Ruminar mais o texto. Ou talvez, eu apenas esteja mesmo ficando velha.

Oh, Jee. Já comecei a digressar. Julio, meu editor - é curioso afirmar isso, “meu editor”, mas… - me pede para escrever sobre o ano de 2005. Difícil tarefa, então já comecei a digressar.

Eu já comentei que tenho cinco anos de idade? Eu tenho. Quando estou aqui em casa, desde que moro com minha mãe, sou afetuosamente tratada por ela como se eu tivesse cinco anos de idade. Adoro, confesso. Ela compra pudins de leite, flans de creme e muffins de chocolate para mim. Me enche de esperança e alegria ser tratada como se eu ainda fosse uma criança pequena que precisa de bolinhos de chocolate e colo. No fundo, eu acho que preciso.

Mas ter cinco anos de idade tem seus problemas. Um deles é essa barreira imensa de conseguir escrever. Quando Julio, o meu editor, me pede para escrever, eu simplesmente obedeço, sem pensar. Os textos ficam menos apavorados, menos censurados, saltam dos dedos para a tela. Eu os libero por email, eles vão e se espalham pela internet. Se eu me der tempo de pensar no assunto, nada escrevo. Textos longamente ruminados acabam cuspidos em algum canto do meu cérebro e não fluem. Evaporam.

Sabem, eu odeio me expor. Sou exímia na arte do disfarce de mim mesma. E eu não tenho conseguido escrever, nem mesmo no chá, porque para isso eu precisaria me expor demais novamente. Eu odeio me expor. Tudo para mim é muito pessoal.

E dessa vez, Julio me pede para escrever uma espécie de “balancete de 2005″. Certo. Não consigo. Eu congelo. É uma tarefa impossível de se fazer sem me expor. Eu tenho cinco anos de idade. Eu não quero me expor. Então não vou escrever sobre 2005. Vou escrever uma outra coisa. Vou digressar aos poucos, conta-gotas-de-palavras. Finjo que não é comigo. Ou que não estou me expondo.

O que vou escrever? Não tenho a menor idéia. Na verdade, confundo 2004 e 2005 em um ano só, o ano não virou para mim desde 2004. Os divisores de águas na vida para mim são diferentes, o calendário gregoriano tem pouco significado. Não estou com vontade de escrever um texto tipo “lista de compras”: eu lecionei muito em 2005, eu tomei bastante chá e café, comi coisas deliciosas com pessoas magníficas, coisas que nunca antes havia comido, como ostras ou chá de hibiscus, fumei dos mais variados e saborosos tabacos, viajei, revi pessoas do passado e conheci novas pessoas, aprendi a lidar com essa nova “eu” que vejo agora diariamente no espelho, tirei muitas fotos, tive inúmeras crises emocionais, fui mal interpretada várias vezes, fato cíclico e repetitivo ao longo da minha vida, fiz amigos, alguns amigos mudaram de país, filmei menos do que gostaria, mas filmei, dei uma entrevista para a TV (o que é surreal), trabalhei bastante, ganhei pouco dinheiro, fiz vários planos, tenho vários projetos para 2006, escrevi muito menos do que em 2004… mas vivi muito mais, de uma forma lenta, às vezes complexa e dolorosa, às vezes leve e contente. E eu fui ao show do NIN, vi Trent Reznor ao vivo. É, ele estava ali, cantando visceralmente todas aquelas letras raivosas com sua música feita de pequenos noises, os ruídos que enchem o ar com melodia de guitarras e que têm sido a trilha sonora da minha vida desde 1987 e que faz eco à minha própria arte. É, existiu um 1987. E hoje ainda é 2005. Amanhã será 2006. E eu ainda lembro de 1999, o ano que o mundo ia acabar. Que diferença realmente faz?

Não faz diferença em que ano estamos. Faz? Ou que ano iremos iniciar. Faz? Nem podemos afirmar que seja mesmo 2006. Podemos? Não, não podemos. Pode ser qualquer número, depende do calendário. O que cada um de nós sabe dizer, apenas, é quanto tempo tem levado sua própria vida e em que momento dessa vida se está, ainda que esse momento seja complexo de definir ou ainda, talvez quase impossível de definir com apenas uma palavra. O tempo é apenas um número.

No momento, eu sei que eu continuo a ser eu. Muitas mudanças e tempestades têm se abatido sobre mim, mas eu ainda sou eu. E cada vez mais ciente de mim mesma. Cada vez mais eu. Percebo, às vezes, essa auto-ciência transbordando na minha arte, nas minhas imagens ou mesmo nas minhas palavras. Mas nada falo. Não quero falar, assim como não quero escrever. Escrever sobre qualquer coisa de mim mesma é assunto árido, desnudado, complicado. Cheira a egolatria, cheira a blasfêmia, cheira a invasão.

“There is no you, there is only me, there is no you, there is only me… “

Prefiro ficar quieta. Prefiro ter cinco anos de idade e comer muffins de chocolate. Prefiro ir ali fora, observar esse lindo pôr-do-sol que está fazendo pós-chuva e pensar nos gatos que eu tinha, que tive de dar e de quem tenho saudades. Para os gatos eu não precisava falar nada, escrever nada, fazer nada. Bastava que existíssemos ali juntos, em silêncio. Por vezes, acompanhados por Trent Reznor e sua música feita de noises.

“…and when the day arrives
I’ll become the sky
and I’ll become the sea
and the sea will come to kiss me
for I am going home
nothing can stop me now…”

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Now Listening: Only, NIN

Samba do Crioulo Doido

Monday, October 17th, 2005

Rogério, my dear, fui procurar para você informações sobre o tal “Samba do Crioulo Doido”. Daí descobri cousas interessantes: o Quarteto em Cy gravou (em algum canto esquecido da minha memória eu já deveria saber disso, mas esqueci). Os Demônios da Garoa gravaram também (tenho uma vaga lembrança de ter escutado a gravação deles em algum dia perdido no passado da minha infância). Meu pai, volta e meia, cantarolava o samba pela casa, eis o motivo principal de porque o mencionado samba consta da minha memória. Definitivamente, desconfio que tem dedo dele nessa história toda, meu pai tinha gostos curiosos e um humor peculiar. Não me espantaria se alguém me dissesse que foi ele que sugeriu às Meninas em Cy que gravassem o samba.

O Stanislaw fez o samba para tirar um sarro dos samba-enredo das escolas do Rio, que já naquela época, andavam abusando de complicações e rococós nas letras. O link atrelado conta essa historinha. Divirta-se. Disco é cultura.

“Samba do crioulo doido” de Sérgio Porto (aka Stanislaw Ponte Preta)

Foi em Diamantina / Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se casá
Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa / A se casar com Tiradentes

Lá iá lá iá lá ia / O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá / O bode que deu vou te contar

Joaquim José / Que também é
Da Silva Xavier / Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas / Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta / O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro / E acabou com a falseta

Da união deles dois / Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão/ E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história/ Que é dos dois a maior glória
Da.Leopoldina virou trem / E D.Pedro é uma estação também

O, ô , ô, ô, ô, ô / O trem tá atrasado ou já passou
O, ô , ô, ô, ô, ô / O trem tá atrasado ou já passou

Frases de cinema

Tuesday, September 6th, 2005

Diretamente do blog do Erick.

“Respeitar o real não é acumular as aparências, senão o contrário, tirar tudo o que não é essencial, é chegar a totalidade na simplicidade.” - Roberto Rossellini.

“A beleza será convulsiva, ou não será.” - Breton

“Aquele que conserva a faculdade de ver, não envelhece.” - Kafka

“Eu amo aquele que deseja o impossível.” - Goethe

“O cinema nos proporciona a possibilidade de relacionar e confrontar o presente com o passado, a realidade com o sonho.” - Delluc

“É necessário que uma imagem se transforme no contato com outras imagens, como uma cor se transforma com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um vermelho ou de um amarelo. Não há arte sem transformação.” - Luis Aller