Thursday, January 8, 2009

'Somos todos texto'

O tempo e a idade

Tuesday, September 6th, 2005

“Comecei por me perguntar quando tomei a consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: é uma dor natural na sua idade, falou.
- Então, - disse eu - o que não é natural é a minha idade.
O médico me deu um sorriso de lástima. Vejo que o senhor é um filósofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade nos termos de velhice, mas não tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar a cada dia com uam dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil eqüino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas e mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.”
- Gabriel García Márquez, Memórias de minhas putas tristes

Eu sempre amei o Gabriel, desde que li Cem Anos de Solidão, quando tinha, sei lá, uns vinte anos.

Tenho uma magia especial e íntima com o que chamo de “meus contemporâneos”. São pessoas que tem a mesma idade - ou quase - que eu e a quem eu acompanho a vida, desde sempre. Nessa lista temos Trent Reznor, do NIN, que é de 17 de maio de 1965, sete meses mais velho que eu; Keanu Reeves, de 2 de setembro de 1964, dois anos e três meses mais velho que eu; Kurt Cobain, de 20 de fevereiro de 1967, sómente dois meses mais jovem que eu. Imaginem como fiquei horrorizada quando Kurt Cobain se suicidou.

E então temos pessoas incríveis da geração dos meus pais - ou ao menos, de idade semelhante à deles. Susan Sarandon, de 4 de outubro de 1946. Minha mãe é de 22 de julho de 1947. E Gabriel García Márquez, de 6 de março de 1928. Meu pai nasceu em 27 de maio de 1933.

Idade não é uma coisa curiosa?

Não sei se estou me tornando como meus pais. Acho que estou, sim. Eu me olho no espelho e vejo semelahnças com minha mãe, embora ela diga que eu sou “a cara deles lá”, se referindo à família do meu pai, que é do Rio de Janeiro. Ela tem um pouco de razão, eu sou mesmo muito parecida com eles, somos todos, eu e meus irmãos. A minha irmã é a imagem viva de nossa avó pernambucana, Dona Amélia, mãe de meu pai.

Mas Gabriel tem razão. O tempo passa e nos sentimos os mesmos. Os olhos alheios nos contam que estamos ficando velhos, ainda que por dentro sejamos a mesma pessoa, talvez apenas um pouco mais experiente, menos impaciente, mais triste.

Não sei. É um modo estranho de começar uma manhã, não é?

Nova coluna no WebInsider

Thursday, August 4th, 2005

O texto Faça seu projeto dar certo está publicado no WebInsider. Façam uma visitinha por lá para dar uma olhada. O Vicente, editor-chefe do WebInsider, trocou o título, ficou muito mais com “cara de revista”: De idéia a projeto real, como dar o salto quântico.
Excelente!

Faça seu projeto dar certo

Wednesday, August 3rd, 2005

Volta e meia um amigo me telefona para me contar sua mais recente idéia mirabolante para ficar rico. Não tenho nada contra idéias mirabolantes, conheço várias que deram certo, se transformaram em projetos viáveis, encontraram patrocinadores e foram realizadas. O problema não é com as idéias. Idéias são ótimas. O problema é com a atitude das pessoas.
Meu amigo - como vários outros amigos já fizeram - apenas me sugere ao telefone a beleza mística de sua idéia. Eu escuto ele até o fim - como sempre faço - e quanto ele termina de falar, começo a fazer perguntas com toda a calma:

- Já verificou tudo que é necessário para a execução da sua idéia?
- Já planejou como realizar essas idéia?
- Que expertises serão necessárias?
- Quantas pessoas serão necessárias na realização?
- Qual é o orçamento necessário para realizar essa idéia?
- Qual o cronograma necessário para concretizar o projeto?

Meu amigo, como todos os outro amigos antes dele (com raras exceções), suspira e interpreta as minhas perguntas como sendo “má-vontade” ou “incredulidade” minha e termina o telefonema dizendo “pense na minha idéia”.

Interessante como algumas coisas ainda não mudaram no Brasil. Não é suficiente ter uma idéia e contá-la para as outras pessoas. Contar idéias é coisa de bate-papo de bar, em volta de garrafas de cerveja. Realizar idéias é muito diferente: é algo a se fazer com o computador, a calculadora e o telefone à mão, fazendo pesquisas, contatos, orçamentos, planejamentos. Não adianta ter uma idéia na mão e uma câmera na cabeça. Só isso não leva a lugar nenhum e o dono-da-idéia será mais um frustrado que irá dizer, nas rodas de bate-papo com cerveja “puxa, eu tive uma idéia sensacional mas ninguém quis realizar”.

Ontem quando eu voltava para casa passei por um out-door que alardeava sobre um curso de “como abrir sua empresa” e uma faixa de rua que anunciava cursos de “empreendedorismo”. O brasileiro PRECISA desses cursos. É interessante notar quantas pessoas abrem empresas sem nem saber quais impostos precisam ser pagos ou quais os custos mensais obrigatórios. Acham que empresas são “máquinas de emitir notas fiscais”. É interessante perceber que as pessoas não tem a mínima noção de empreendedorismo.

Não é culpa delas, veja bem. O Brasil tem uma história de centenas de anos de pensamento e ideologia anti-empreendedorismo. Os primeiros estrangeiros que desembarcaram por aqui vieram explorar, pegar o máximo que pudessem, enfiar na bagagem e voltar para a casa deles, do outro lado do oceano. Nenhum deles queria se assentar e viver aqui, embora muitos tenham assentado e vivido por aqui o resto da vida. Os primeiros estrangeiros que vieram para o Brasil com a firme intenção de ficar morando por aqui foram os imigrantes pós-libertação dos escravos. Até então ou vinham para explorar e voltar para casa ou eram trazidos contra a vontade para ser escravo! Com uma cultura tão tradicionalmente colonialista e escravagista, não me admira as pessoas ainda hoje não saberem nada de empreendedorismo. Fomos todos educados para ser funcionários, para obedecer ordens, para não ter opinião própria. Só recentemente as pessoas começaram a acordar para o problema: sem o tal “empreendedorismo” o país não vai a lugar nenhum, será sempre uma eterna monocultura de soja, laranja ou qualquer outro produto agrícola - como já foi monocultor de cana, algodão, café. Não sairemos da pré-história colonial sem empreendedorismo.

É por isso que eu sempre faço as tais perguntas que aborrecem meus amigos com suas idéias. Porque é preciso pensar em empreendimento, não apenas em idéia. Idéias todos têm. Nem 1% delas se transforma em um empreendimento viável. Para fazer o salto quântico de uma idéia abstrata e sonhadora para um projeto em pleno andamento, é necessário pensar nessas coisas chatas como orçamento, planejamento, investidores, viabilidade de execução, necessidades logísticas e materiais. Todas essas palavras e conceitos de contadores, economistas e outros profissionais chatos. O brasileiro não quer ter essas “profissões de chatos”. Quer sempre ser “artista” e “artistas” não pensam em números e menos ainda em dinheiro. Artistas apenas têm idéias mirabolantes e criativas. E é por isso que no Brasil existem tantas idéias geniais e tão poucos projetos realizados.

O brasileiro precisa começar a deixar de ser só artista e começar a ser mais matemático, financista, economista. Porque não existe projeto concreto sem essas coisas. Por mais chatas que sejam, são elas que transformam sonhos em realidade.

Um texto que andou e foi parar no Digestivo

Tuesday, August 2nd, 2005

O Julio, editor do Digestivo Cultural me avisa por email: o texto “Todos os amores acabam” que originariamente foi postado aqui no chá, acabou de ir parar no Digestivo Cultural.
Desconfio que ele ou “pegou” esse texto quando eu publiquei ou achou no cache do Google - ou ainda, o mais provável, pegou no Bloglines, que também grava tudo - porque escrevi exatamente na época que o ex-host perdeu os arquivos do chá - e eu não tinha mais esse texto! Quem quiser ler de novo, passe lá no Digestivo, porque aqui no chá tinha mas acabou.

Todos os amores acabam

Wednesday, July 20th, 2005

Acabei de ler dois blogs de dois homens completamente diferentes. Interessante notar que ambos tem mais de 30 anos, ambos são cultos e inteligentes, ambos são divorciados e ambos apresentam a mesma característica: parecem estar padecendo de um grande desencanto com as mulheres.

Curioso.

Eu estou divorciada há um ano e oito meses. Mas no meu coração, já estava divorciada há mais dois anos. No total então são 3 anos e 8 meses. O amor já tinha acabado e a convivência era penosa. Um dia eu criei coragem e falei que queria me divorciar. Mas precisou acontecer uma coisa muito importante primeiro: eu precisei colocar a minha auto-estima e meu ego nos seus devidos lugares e me sentir como me sentia antes do final do relacionamento: linda, interessante e feliz comigo mesma.

Casamento é uma armadilha com a qual é preciso tomar cuidado. A gente se casa porque está apaixonado, porque quer “assentar” na vida, porque quer ter filhos ou por todas essas coisas. Só que conviver 24/7 com uma pessoa é uma tarefa muito complicada, ainda mais quando envolve amor, sexo e divisão de dinheiro (não necessariamente nessa ordem).

Se romance fosse uma coisa realmente boa e bela, os grandes romances da literatura não teriam finais trágicos. Observem como terminam mal os “grandes romances”: Romeu & Julieta, Tristão & Isolda, Lancelote & Guinevere, etc. Só em contos de fadas os romances acabam bem, porque terminam logo depois da cerimônia de casamento com um “e eles viveram felizes para sempre…”, sem explicar o que aconteceu quando o príncipe pediu pra Cinderela fazer feijão do jeito que sua mãe fazia ou como é que Branca de Neve agiu depois de ter filhos.

Não existe amor para sempre. Muitos casamentos que duram a vida toda também terminaram depois de uns cinco ou seis anos, só que os compromissos financeiros (ou a religião ou ainda a moral) obrigaram aquele casal a continuar casado.

Então eu reavalio a minha própria vida. Eu tenho muita, mas muita sorte.

Na fase da adolescência, quando temos a menor auto-estima do mundo eu usava óculos, aparelho nos dentes e era gorda. Sorte a minha, muita sorte. Como era considerada “feia” pelos garotos, escapei de engravidar prematuramente (como muitas das minhas amigas), escapei de namorar um cara só até me casar depois da faculdade (como muitas outras amigas minhas) e pude ir construindo minha própria carreira profissional e curtir a minha família (sou muito amiga da minha mãe e dos meus irmãos).

Sorte, muita sorte.

Claro, ser gorda-de-óculos-e-aparelhos foi um estado temporário (apesar de eu usar óculos até hoje) e aos dezenove anos eu namorei sério pela primeira vez. Já tinha tido experiências sexuais (afinal, quem disse que não existem garotos que gostem de gordinhas-de-óculos?) e namorei por seis anos um rapaz que eu adorava. Ele era três anos mais velho que eu.

Venceu minha auto-estima, que fazia eu me sentir bonita, independente dos modelos que as pessoas acreditam ser “beleza”. Eu nunca fui um modelo, mas nunca me senti miserável por causa disso.

Depois desse primeiro namorado (o relacionamento acabou porque ele ainda ia demorar muito para se formar, estava indeciso com o que fazer com sua vida, eu já trabalhava, tinha novas oportunidades de flertar e sair com outros caras – fora que enjoamos totalmente um da cara do outro. Uns dois anos depois, ele casou com outra moça e, até onde soube, era muito feliz). Considero meu segundo grande amor um outro namorado meu, com quem morei junto por seis meses. Esse grande amor durou pouco mais de um ano, deixou lembranças incríveis de viagens e foi, também, a primeira época que morei fora da casa da minha mãe, em repúblicas de estudantes e em outras cidades.

Quando acabou esse amor, achei na época que ia me desmanchar de tanto chorar. Mas tudo passa, essa é que é a verdade. E, just for the record, esse meu segundo grande amor foi o primeiro namorado mais novo que eu tive, era cinco anos mais novo que eu. Tive que vencer preconceitos pessoais meus com relação a namorar alguém mais jovem, mas valeu muito a pena.

Depois continuei saindo e namorando, até conhecer meu ex-marido – que tem 8 anos a menos que eu. Casei com ele aos 30 anos, quando muita gente diz que a mulher já “encalhou”. Meninos e meninas, se tem uma coisa que eu nunca fui e acho que nunca serei é “encalhada”. Ser “encalhada” é um estado mental, não uma realidade, ainda mais hoje em dia, com todos os avanços científicos que permitem uma mulher ser mãe pela primeira vez aos 40 anos e que prolongam a juventude física das pessoas por muitos anos.

Depois do meu divórcio, eu já namorei novamente. Ele tem 12 anos a menos que eu, é considerado por muitos um nerd e não um “modelo de beleza”, mas para mim é um dos homens mais bonitos com quem já me relacionei. Nosso namoro durou cinco meses e foi magnífico em todos os sentidos. Ele me achava a mulher mais linda do mundo. Eu o achava o homem mais lindo e mais maravilhoso do mundo. Fomos muito felizes juntos.

Ego e auto-estima nos lugares corretos. Então você fica feliz em ser você. E amando a si mesmo, pode amar o outro com facilidade e ser feliz em estar com o outro.

Lendo esses dois blogs desses dois homens, dois blogs que me pareceram muito amargos, fiquei pensando nisso tudo. As pessoas se deixam escravizar por sentimentos e conceitos tão idiotas, impostos pela sociedade de consumo, pelos parâmetros da mídia. Fiquei com pena tanto do cara que diz que acha que não vai mais amar e que ficou cético depois do divórcio como do outro, que falou sobre a miséria do gênero feminino em relação à idade. E tive muita pena não apenas deles, mas de todo mundo, homens e mulheres que acreditam nas mesmas coisas.

Eu me olho no espelho e ainda não vejo grandes rugas. Eu sei que não aparento a minha idade. Eu tenho alguns cabelos brancos, a linha do meu queixo denuncia que não tenho mais 20 anos de idade, sei que estou envelhecendo, mas não me sinto “velha”.

E quando me olho no espelho penso que sorte eu tive quando eu era adolescente e de como continuo a ter sorte. Quase aos 40 anos, eu não ligo a mínima – como não ligava aos 16, aos 18, aos 25, aos 30 – para os conceitos pré-estabelecidos e para os chavões sobre idade ou sobre o que é que homens e mulheres devem pensar sobre beleza física.

Eu pretendo amar muitas vezes ainda. E ter sexo da melhor qualidade, como sempre procurei ter. E talvez casar de novo. Como nunca me relacionei com um homem acima de 35 anos, estou querendo agora experimentar um namorado que tenha mais de 35. Talvez uns 40? Ou mesmo 50. Vai ser uma experiência nova. E tenho certeza de que se o amor for intenso e gostoso, pode acontecer de eu ser pedida em casamento novamente – já fui pedida seis vezes e aceitei uma! – e talvez eu aceite.

A idade não tem nada com isso. É um estado de espírito.

E ao mesmo tempo em que eu digo tudo isso, sei que meus velhos bons critérios vão continuar os mesmos: assim como eu nunca me importei se o cara era pobre ou rico, mais novo ou mais velho, magro ou gordo, com ou sem óculos, vou continuar não me importando. Eu quero que o homem que me acompanhe (por pouco ou muito tempo) seja um homem interessante, com idéias que me atraiam, que goste de cinema, literatura, que goste de trabalhar, de estudar, de crescer como pessoa, que goste de seu trabalho, seja uma pessoa independente e que, como eu, não se importe tanto com a passagem do tempo e ainda acredite em amor.

Mesmo sabendo que todos os amores acabam.

Leituras

Wednesday, July 20th, 2005

Minhas leituras através do Bloglines estavam muito atrasadas devido à quantidade de aulas que eu estava ministrando em julho. O curso de fotografia digital terminou na terça-feira; o de direção de arte em cinema termina na próxima segunda feira. Vou poder colocar as leituras em dia - e já comecei. Eis aqui algumas leituras recomendadas:

“Esse é um filme que incomoda. Assassinatos violentos, corrupção, torturas e estupro. Espelha os monstros que nos habitam. É um filme sobre o que há de pior na sociedade. O submundo do submundo. O fim do mundo. Mas, Sin City é, também, um filme de humor. É muito cínico. De uma sutileza canibal. Miller, Rodriguez e Tarantino tratam o mal de forma tão normal que as cenas mórbidas são absorvidos pelos nossos sentidos como parte do cotidiano deste ‘coletivo biológico’ que chamamos de civilização.”
- A Multiplicidade dos Pecados - Hernani Dimantas para a Revista Novaes, falando sobre o filme Sin City.

“O que são os blogs? Blog não são, blogs estão. Blog está na cultura de rede. Imprensa é cultura de massa. É necessario engajamento para entender o que é um blog. É mais uma conversação do que um jornal.”
- Blog e Imprensa - Hernani Dimantas em Marketing Hacker

“Resolvi tomar a iniciativa de fazer um post sobre Jabber, que para os desavisados é tão bom e tão seguro quanto qualquer outro protocolo IM, com a vantagem de se tratar de tecnologia genuinamente OpenSource.”
- Jabber :: A solução para a hipocrisia - Celso Goya em Blog.Moinho.net