Estive ontem no lugar mais incrível que eu já estive na vida e olha que eu já andei um bocado por aí. Além de ser um lugar lindo, havia uma vibração (real, não metafórica, acho que é causada pelas quedas d´água), uma luz, uma simetria misteriosa no modo como as quedas d´água se distribuem com a perspectiva euclidiana do prédio, quase românico em seu desenho.
A sensação foi de que ontem eu estive em um desses locais mágicos que existem em games como Myst ou River. Só que o local existe, de verdade e…
…eu vou filmar lá.
Nossa, pior que é verdade, eu vou poder filmar lá. Vai ser um filme incrível.
Enquanto isso, estou tentando sobreviver a essa fase de cão que a minha vida está atravessando. As melhores coisas estão dando certo (especialmente os papéis, recebi ontem meu certificado de empresa produtora cadastrada na Ancine) mas as que eu preciso para poder completar a “próxima fase” estão dando errado.
Não tem aluno suficiente no meu curso, nunca mais teve. E olha que todo mundo deu duro para divulgar o curso.
Estão sendo dias difíceis porque eu não paro de odiar a prisão onde me enfiaram. Eu quero sair desse círculo vicioso, a pior coisa para um bipolar é ficar preso em um círculo vicioso.
A minha produtora executiva está no meu pé para terminar os roteiros que eu tenho que terminar para a gente produzir. Agora que a dose do lítio estabilizou eu não tenho escapatória, eu preciso terminar isso. Eu adoro cinema mas eu detesto escrever (disse a autora do livro de fotografia de 200 páginas).
Eu já dei entrevista (sempre sobre cinema com especial ênfase em direção de arte) para vários programas em várias emissoras de TV, no ano passado foi a Gazeta e o programa… certo, eu não sei o nome do programa, o programa da tarde que tem aquela apresentadora ótima, eu fui falar da Mostra Internacional.
Ontem eu fui gravar uma entrevista de várias horas para a Elite Mídia em formato de videocast (eu sou mudéérna, you know) para a Elite Mídia. Tem uma nota no blog deles aqui, com uma foto.
Oh, boy, eu sabia, eu fico tão séria, é sobrenatural, quem vê até pensa que eu sou hiper-super-séria, brava, zangada, whatever.
Nota 01: na hora que eu cheguei lá caiu um dilúvio com direito a granizo.
Nota 02: O estúdio deles é ótimo.
Nota 03: Os meninos que trabalham lá são ótimos também, mostrei meus vídeos para eles, especialmente as “bobagens” que eu monto para treinar edição e direção.
A MFL 2008 selecionou, dos 691 inscritos, 220 filmes, entre curtas, médias e longas de todos os formatos, gêneros e feitos em qualquer época. A curadoria, feita por Christian Caselli, Francisco Serra, Guilherme Whitaker e Poliana Paiva, assistiu a todos os filmes em 45 dias, definindo os que têm mais a ver com o conceito de filme livre e os filmes que serão indicados aos prêmios. Em breve a lista dos indicados.
Os seguintes filmes foram selecionados para a Mostra do Filme Livre:
- Art of Noise
- Dies Irae
- Sideshow
Três filmes. Emplaquei TRÊS FILMES NA MOSTRA DO FILME LIVRE DO RIO!!!
YEAH.
Finalmente consegui alguns minutos de pausa, vou contar como está sendo (ainda não acabou) a minha semana cinematográfica.
Comecemos por Uberlândia. A cidade é linda, o calor foi uma delícia! As pessoas, gentilíssimas. A Mostra estava sendo muito bem sucedida, até onde eu participei – ainda não acabou, estava apenas começando, quando eu cheguei, minha palestra foi no dia da abertura. A organização foi ótima.
Descobri em Uberlândia uma pessoa que já conhecia, mas apenas por internet: o Cabral, do Ruminante. Ganhei dele uma caixa com o curriculum dele, num formato inusitado, lúdico, uma caixa cheia de folhas e DVDs que eu desmontei no dia que cheguei. Esse menino é talentoso. De fato, além da imensa gentileza, talento foi o que eu mais encontrei em Uberlândia. Ganhei muitos DVDs, as pessoas se prepararam, cada um que conheci e com quem conversei me deu um DVD com sua obra. Agora preciso de um dia de sossego para assistir todos.
Numa das aulas da oficina, apresentei Romanek para o pessoal que participou. É, eu sou corajosa, o vídeo é polêmico – mas faz parte do acervo permanente do MOMA. Eu nunca sei qual vai ser a reação da platéia ao assistir algo assim, mas eu sempre corro o risco. Ao final da oficina, uma menina, que estava quietinha mas com olhos brilhantes (eu não enxergo, mas presto atenção), veio me agradecer pela oficina e disse que as minhas duas aulas (foram só duas!) abriram e iluminaram a cabeça dela. É isso que faz minha vida valer a pena.
Na terça-feira a Su me ligou, a Mia deu um baita susto nela, se escondeu e a Su não a econtrava. A Su ficou nervosíssima, achando que a Mia tinha fugido. Ela e a faxineira revistaram a casa toda e finalmente acharam a Mia, quietinha, dentro da gaveta debaixo da pia da cozinha. Diz que a Mia saiu com uma cara de “mas o que foi, por que tanta preocupação?”
Mia querida, odiou ficar quatro dias em um lugar estranho. Ficou em estado de choque ao me ver ontem, achou que eu tinha abandonado ela. Meu estômago doeu, é tão difícil fazer eles entenderem que você vai voltar. Ela ficou aliviadíssima de voltar para a casa dela. Está grudada em mim desde ontem de manhã, me enchendo de carinho, dormiu comigo, me acordou daquele jeitinho dela, esfregando a carinha preta na minha mão, pedindo carinho. Animais são assim, você faz alguma coisa que os magoa intensamente, mesmo que nem fosse essa intenção, eles perdoam instantaneamente e continuam amando você. Devíamos todos aprender mais com eles.
Fiquei hospedada num hotel excelente. O quarto era maior que meu apartamento inteiro. A colcha da cama era belíssima, tirei fotos.
Eu e meu amor por texturas e tecidos.
O chuveiro era um show, jato de água forte, mas me deixou na mão justo na noite que eu voltei para o hotel às 4 da manhã, depois de uma noitada de conversas sobre cinema: não tinha água quente para combater as dores da minha “Doença dos Escribas” (uma vida diante de um computador escrevendo tem seu preço). Tinha HBO e Cinemax, assisti o lindo filme indiano The Warrior e o surpreendente brasileiro Jogo Subterrâneo. Café da manhã magnífico, tomei coalhada com salada de frutas com pão de queijo todos os dias. E a Iara tomou o cuidado de conseguir um restaurante patrocinador para que eu tivesse opções vegetarianas, porque, como todo mundo aqui sabe, eu não como mamíferos.
Esse assunto, aliás, gerou um debate interessante e me levou a um resumo ainda mais interessante, graças à troca de idéias com dois jovens que participaram da oficina, o Rafael e o Diogo: eu não como carne porque não consigo comer alguma coisa que olhe para mim com uma intensidade praticamente humana.
Já olharam nos olhos dos animais? A expressividade e a emoção são humanas. Como o ser humano consegue abater um animal, esquartejá-lo e comer? A humanidade já deveria ter superado esse barbarismo. Não é possível que não exista uma forma melhor de fazer isso ou, melhor ainda, abandonar essa prática completamente. A Iara me recomendou um filme sobre o assunto, mas foram dias de hiper-informação, preciso perguntar pra ela novamente que filme era.
A palestra que dei no auditório da prefeitura depois de uma pequena maratona atendendo a imprensa foi surpreendente até para mim. Passei alguns filmes da série Portmanteau e fiquei emocionada em ver Dies Irae em tela grande com o som stereo da sala de projeção. Não tinha ainda tido essa oportunidade. Eu sou uma pessoa extremamente técnica, sabia que a imagem funcionaria bem e sabia o que tinha feito no áudio, mas não estava preparada para o impacto. Aquele Mozart editado, com ecos e ressonâncias e inversões ficou sublime alto e espalhado pela sala. Fiquei emocionadíssima, quando terminou, voltei ao palco, falei “meu pai teria ficado orgulhoso” (o vídeo é dedicado ao Maestro Carlos Castilho, meu pai) e chorei. A Iara confessou que também chorou de emoção. E aí me dei conta de que eu nem preciso fazer o documentário que quero fazer sobre meu pai, se eu não conseguir produzir esse documentário (é tão difícil!) não ficarei decepcionada. Eu já fiz uma homenagem maior a meu pai, grande parte do que eu sou, é obra dele. A minha obra, indiretamente, é fruto dele também. Conscientizar e sentir isso foi realmente impactante.
E aí, ontem, depois de mais nove horas de estrada e resgatar a Mia (a Su é um amor, essa convivência envolvendo as gatas nos aproximou de forma muito especial) e depois de fazer telefonemas (quanto trabalho, quanto trabalho) fui, atrasada, para a cinemateca ver “Sideshow” na mostra.
Entrei na sala Petrobrás achando que tinha perdido o filme. Tudo escuro, tem escada, difícil pra mim. Alguém (vi o rosto no escuro apenas de relance) que obviamente me conhecia, me esticou a mão e me conduziu em segurança a uma cadeira. Ah, e era justo quem? O Rogério, ex-aluno e ex-assistente de arte. A vida tem perfeições que a gente não imagina.
O filme perdeu o R de Red. Era só B e G, de blue e green. O mais interessante é que ficou interessante. Só o projetor digital e o DVD sabem que diabos aconteceu pro R ser engolido daquela maneira, mas ficou interessante. Agora vou suar a camisa pra conseguir repetir aquilo por aqui e fazer uma nova versão. Ficou com uma cara fauvista, me lembrou a paleta do Franz Marc. Foi um daqueles lindos acidentes, do tipo que David Lynch menciona que gosta que aconteçam em seus filmes. Ainda não sei como transformar o vídeo naquela paleta, mas vou tentar.
O meu filme estava muito bem acompanhado. Vocês precisam assistir “Zero Grau”, de Ricardo Seco e Nele Azevedo e “Zumbis”, de Gustavo Chiappetta e Lívia Rojas. Excelentes.
Por agora é só, eu tenho muito que correr esses dias. Tem uma pilha de emails não respondidos me esperando e amanhã termina a turma de dezembro de direção de arte. A turma de férias de janeiro já está quase cheia e eu ainda tenho o curso de fotografia que estou escrevendo, e para terminar, a minha “doença dos escribas” está atacadíssima essa semana. Meu reino por um quiropata.
Deixo vocês com uma pérola do DVD And All That Could Have Been, do NIN, com vídeo do Bill Viola.
O site de Remix é de babar. Eles acabaram de criar uma coisa que eu posso passar o dia inteiro escutando. YAY!
Edit: como membro do Spiral, meu login é automático e eu tenho uma página pessoal no site. TR está mimando os fãs.
Edit2: Acabei de terminar isso aqui. Fala pra mim, ficou bonito?
Argh! Como eu vou viajar até quinta-feira, vou deixar Mia-bebê com uma amiga minha, a Su, que é dona da Minimoe, que ficou hospedada aqui um mês. Nunca fiquei tanto tempo longe da Mia (que no momento, está na varanda olhando os passarinhos com cara de encantada).
1-If I Was Your Vampire
2-Disposable Teens
3-Mobscene
4-Irresponsible Hate Anthem
5-Just a Car Crash Away
6-Sweet Dreams
7-Lunchbox
8-The Fight Song
9-Putting Holes in Happiness
10-Heart Shaped Glasses
11-The Dope Show
12-Rock Is Dead
13-The Reflecting God
14-The Beautiful People
O que eu mais vi de Florianópolis foi o aeroporto. A programação da TV nos aeroportos é péssima. Especialmente quando o show principal está atrasado.
“Oh dear! Oh dear! I shall be too late!”
Como alguém pode NÃO ter medo de voar? É totalmente antinatural, faz a gente se sentir um micróbio.
É lindo, de tirar o fôlego. Ver aquilo daquela altura. Mas nem por isso, menos apavorante. É uma experiência quase religiosa. Eu sempre me pego desejando que Deus exista e que faça alguma coisa pra garantir que eu vou conseguir chegar ao chão ilesa.
“Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?”
Não estava frio, estava sol. Foi um bonito passeio, embora totalmente exaustivo e estressante. Da próxima vez, vou de ônibus. Do chão, a gente não passa. Não consigo convercer meu lado irracional, nem mesmo mantendo diálogos interiores comigo mesma, de que aquilo foi feito pra voar e de que vai dar tudo certo. Meu lado irracional está completamente convencido de que o ser humano não foi feito para voar.
Meu tio Bebeto me mandou essa foto por email. É meu pai, quando tinha uns trinta anos de idade.
“Achei essa cópia no meu pc.Talvez vc já tenha. Assim mesmo, vale a pena te mandar.
Beijos, Tio Bebeto”
Tive um dia difícil, foi um lindo presente.
Certas coisas na vida a gente nunca esquece…
Vi as mãos dele na foto, é curioso, eu me lembro das mãos dele como se tivesse visto ontem. Mãos pequenas, delicadas e com a pele grossa que nem lixa, calejada pelo contato constante com as cordas do violão. As minhas mãos se parecem com as dele.
Outro dia estava conversando sobre ele com uma amiga. Ela comentou que meu pai devia ser bonito e charmoso, e sendo músico (ele começou tocando na noite, no Rio) devia ser irresistível. Eu sempre achei ele lindo, mas eu sou suspeita. Dá pra ver na foto como os olhos são transparentes, eram verdes, verdes. Meus olhos são verdes, mas não como os dele, os olhos de minha irmã são mais parecidos com os dele, um verde meio dourado, cor de oceano.
… e certas perdas, a gente nunca supera.
Dia 27 de maio meu pai teria completado 74 anos. Ele morreu em 1984.
Sinto saudades todos os dias.
"If you want to be a storyteller, be an author, be a novelist, be a writer, don't be a film director. Cinema is not the greatest medium for telling stories. It is too specific, leaves so little room for the imagination to take wing other than in the strict directions indicated by the director. Read 'he entered the room' and imagine a thousand scenarios. See 'he entered the room' in cinema-as-we-know-it, and you are going to be limited to one scenario only."