Bom dia!!!
Thursday, December 29th, 2005Meu sobrinho de 3 anos dormiu aqui em casa. Está lá na sala de pijamas pulando freneticamente ao som de “Zezinho, o coelho serelepe”. A sala está tomada de brinquedos.
Meu sobrinho de 3 anos dormiu aqui em casa. Está lá na sala de pijamas pulando freneticamente ao som de “Zezinho, o coelho serelepe”. A sala está tomada de brinquedos.
Para mim! Há 39 anos, à meia noite e vinte minutos em um dia de Natal… ou uma e vinte, horário de verão.

E Feliz Natal para todos!
Cartão de Natal digital que eu fiz para a Educine:

Qual é o ingrediente mais importante de um bom livro? Um autor que escreve bem e uma boa história. Qual é o ingrediente mais importante de um bom filme? Um roteiro bem escrito com uma boa história.
Confesso que não entendo esses tempos eternamente modernos. As pessoas gostam de boas histórias, ponto.
Então vou contar uma historinha.
Eu falo inglês razoavelmente. Desde 2001 eu participo de foruns em inglês. Foi uma idéia excelente porque desde então, tenho tido a oportunidade de aprimorar o meu inglês coloquial.
Recentemente, devido a alguns compromissos de trabalho, inspirada por colaboradores e com um empurrãozinho do meu irmão Urso, estou jogando The Sims 2.
The Sims é um jogo perfeito para quem gosta de contar histórias. Seus sims vivem essas histórias e você pode narrá-las.
É isso que tenho feito, em inglês, em um fórum americano que discute o jogo e que frequento desde 2001.
Então temos alguns ingredientes curiosos reunidos. Imaginem que meu inglês tem um forte sotaque brasileiro. Eu construo as frases com o pensamento de quem fala e escreve originariamente uma língua latina, não uma língua anglo-saxônica. Quando comecei a frequentar o mencionado forum, eu tinha muito bloqueio em escrever fluentemente. Ficava constrangida de cometer erros diante de uma audiência de mais de 4000 pessoas que falam inglês como língua original. Com o tempo, perdi essa vergonha e passei a escrever.
Eu não ia nesse fórum há uns dois anos.
Então, jogando The Sims 2 e querendo contar como vão as desventuras dos meus sims, comecei a narrar para o pessoal do fórum, em inglês, o que tem acontecido no meu jogo. A recepção foi muito animada, as pessoas estão acompanhando a minha narrativa como se fosse uma novela.
Basta termos a ferramenta da língua, gosto pelo texto e uma história para contar.
Tenho visto as pessoas desejarem inventar livros e roteiros mirabolantes. Tenho visto as pessoas buscarem receitas mágicas para fazer livros e filmes, especialmente os mais jovens.
Os tempos modernos nos fizeram complicar tudo, quando deveríamos, talvez, simplificar.
Podem me chamar de simplista, mas continuo achando que o início da meada é ter um bom uso da linguagem e uma boa história para contar.
Fui assistir o filme do Fernando na Sessão Especial ABCine, com direito a debate com o fotógrafo do filme César Charlone depois da sessão.
Confesso que não gosto de Ralph Fiennes. Não sei bem explicar a razão. Acho a interpretação dele leguminosa. Ao mesmo tempo, adoro Rachel Weisz. Ela é charmosa, bonita sem parecer uma deusa onírica como as que Hollywood normalmente produz artificialmente. Rachel é uma mulher de carne e osso e isso dá veracidade ao personagem. Soube, inclusive, que o Fernando declinou a leguminosa Nicole Kidman para o papel, mais um ponto para ele, de quem já sou muito fã.
Mas essas minhas preferências são irrelevantes. O importante é o tratamento visual escolhido para o filme, o importante é a direção.
Eu sei, o filme é inglês, com co-produção alemã. Mas o olhar é completamente brasileiro.
Alto-contraste, colorido forte, texturas nas imagens. Panorâmicas aéreas longas, cheias de poesia visual, com pássaros voando em formação contrastando com o escuro dos lagos, planos abertos de uma imensa favela africana de telhados amarelados, close-ups das pessoas, roupas coloridas de azul, tons de vermelho e os tons de terra e pontos verde da paisagem queniana.
Os diálogos acontecem, mas com pausas pensadas. Nada de linguajar de novela, a pior praga do cinema brasileiro.
Charlone diz que trabalhou pensando na finalização. Não ficou tão preocupado com a luz no ambiente de filmagem, porque sabia que teria finalização. Iniciou a concepção fotográfica do filme pelo colorista. Devo confessar que saber disso me deu uma satisfação pessoal muito grande.
Explico.
Originalmente a fotografia sempre dependeu 100% do suporte. Tudo sempre girou em torno da emulsão, a latitude, cálculo da luz, adição de iluminação artificial para compensar uma falta de luminosidade no local, etc. Isso tanto para a fotografia de still quanto para a cinematografia. Não é à toa que os melhores fotógrafos de still do mundo possuem estúdios e equipamentos sofisticados para total controle ambiental e os fotógrafos capazes de tirar um instantâneo perfeito em luz natural sempre foram os mais valorizados.
O problema do filme versus luz sempre foi tão contundente e sério para o cinema que, durante a década de 50, quando imperava a Technicolor, o cinema confinou-se em estúdio, escravo da gigantesca câmera que rodava os 4 filmes simultâneos necessários para a geração da matriz colorida usada pela tecnologia proprietária da Technicolor e da necessidade do controle ambiental. A linguagem fixou-se em uma teatralidade imposta pela tecnologia.
A técnica evoluiu, as câmeras diminuíram de tamanho, os cineastas ganharam mais liberdade de movimento com câmeras menores. Algumas décadas depois os computadores surgiram na finalização mas, durante muito tempo, a tecnologia vem sendo usada muito mais para adicionar elementos visuais que não estão ali – ou seja, complementar a direção de arte – do que para auxiliar o fotógrafo em seu trabalho. E assim temos filmes como a saga de Lucas, que não existiria sem efeitos especiais ou a Saga do Anel ou qualquer outro “filme de efeitos especiais” da imensa lista produzida nas últimas décadas, filmes que do ponto de vista fotográfico utilizam uma receita especialmente preparada em prol dos efeitos especiais. A tecnologia vem para completar um cenário, completar uma cena, não como parceira efetiva da fotografia. A fotografia então é feita para proporcionar melhores imagens para o retoque eletrônico e não para obter melhores efeitos fotográficos.
Voltando ao filme de Fernando.
Charlone nos diz que concebeu a fotografia pensando na finalização. Que a primeira pessoa que quis conhecer foi o colorista que trabalharia no filme (para referência e melhor compreensão dessa questão, sugiro que dêem uma lida nesse resumo da Kodak, Sistema de Cinema Digital Kodak).
Essa forma de trabalhar onde o retoque eletrônico se transforma em ferramenta do fotógrafo modifica a concepção da fotografia completamente. Uma coisa é trabalhar com a expectativa de ter que acertar a luz e a cor na filmagem e outra coisa é trabalhar com a expectativa de poder trabalhar a luz e a cor no processo de finalização. São duas fotografias completamente diferentes e não estamos falando de um filme de efeitos especiais nem de um filme de ficção científica.
Essa mudança de perspectiva modifica completamente a concepção fotográfica do filme. O que se vê em O Jardineiro Fiel é câmera ágil, câmera na mão, ar de documentário. Em pontos importantes do filme, fala mais alto a narrativa da imagem.
Imagino a surpresa dos hollywoodianos e dos europeus ao assistir um filme tão ágil, montado com uma narrativa cheia de indas e vindas onde a África, principal cenário do filme, é mostrada de forma colorida e luminosa e os personagens ingleses são mostrados como imperialistas crus, vestidos em seus ternos mesmo sob calor africano.
Não sei se a história de John Le Carré é boa ou não. Não sei se é verossímil ou pura ficção. A câmera de Charlone dirigida por Fernando mostra a história de forma crua e realista, como se estivesse fazendo um documentário. A impressão que se tem é que estamos assistindo uma história que está acontecendo de verdade. E esse ingrediente diferente do que se produz massivamente em Hollywood é que dá ao Jardineiro Fiel a tônica especial que possui.
Como é complicado ser você mesmo. Como as pessoas amam rótulos e tribos. Ainda que importados e alienígenas.
Sou uma grande fã da cultura de massas. E nem poderia ser diferente, se você considerar que as minhas grandes paixões profissionais sempre foram, não necessariamente nessa ordem, o design, o cinema, a fotografia e a arte conceitual.
Acompanho com interesse as maravilhas e os horrores que já foram criados pela cultura de massas, com especial atenção para a pasteurização e homogeneização dos elementos culturais.
O problema não é a diversidade mundial – viva a diversidade! – nem o acesso à informação, facilitado exponencialmente pela internet: o problema é o ponto onde a cultura globalizada nos engole de tal maneira que perdemos a identidade regional, perdemos o parâmetro.
Há algum tempo atrás eu escrevi um artigo curto, que postei aqui no chá, que se chamava “Não podemos perder o Ministro”. Eu nunca fui uma grande fã do Gil, mas em sua carreira de Ministro, tenho me transformado em sua fã. Monsieur Gil vem fazendo declarações – e continua até hoje, o corajoso – defendendo a produção cultural regionalizada e alertando para o perigo da globalização. O Ministro está certo. Precisamos prestar atenção para não perder a nossa cultura, que sempre foi variada, rica e não-homogênea. Nas grandes cidades, já somos todos os mesmos, de uma forma assustadoramente pasteurizada. Precisamos nos preocupar com isso.
Em tempos de internet, cultura de massas é isso: globalização. Vamos todos comer sushi, assistir anime, comer fast-foods, assistir filmes iranianos e bollywoodianos, ouvir música black, comprar roupas com 50% off num shopping. Consumimos tudo que se produz mundo afora sem critério, mesmo que isso nos cause uma indigestão cultural e mesmo que isso nos custe o preço de esquecer o que é originariamente nosso, a feijoada, a moqueca de peixe, a cachaça artesanal, a música caipira, a cerâmica marajoara, o axé, o futebol – ou pior, consumimos tudo que não é nosso até o ponto de achar que tudo que é nosso é muuuuito brega. Para quê cultura brasiliensis? Ser globalizado é muito mais cool e nós, com essa nossa herança cultural de povo eternamente colonizado e escravizado, temos vergonha de assumir que os maiores produtos tipo exportação brasileiros são isso aí, essas coisinhas vergonhosas de gente “sem cultura” que turista adora ver e fotografar.
O ser humano adora ser igual aos seus iguais, ninguém, no fundo, quer ser diferente. Todos queremos aceitação, identificação, pertencer a um grupo. O problema cultural se complica quando uma pessoa considera que o seu grupo, os seus iguais, são um grupo de intelectuais franceses tomando café em Paris, ouvindo Edith Piaf e lendo Jean Paul Sartre, ainda que ele mesmo seja um aborígene australiano vivendo no meio do deserto.
Tony me pergunta em um comentário:
“Franz Kafka é um cara meio dificil de interpretar, mas sempre que leio algo dele o que sinto é um pessimismo patológico. Você se identifica com ele?”
O que me levou a uma série de divagações com as quais irei presenteá-los agora e responder adequadamente a pergunta de Tony.
Não, eu não me identifico com Franz Kafka. Não há nenhuma identificação a não ser com o fato de eu gostar de surrealismos e identificar uma aura surreal na própria realidade – Kafka também identificou isso. Eu gosto dos escritos de Kafka, especialmente dos questionamentos dele, mas não me identifico com ele.
Outro dia, jantando com um querido amigo, falamos sobre Kafka. A pauta proposta pelo meu amigo é se Kafka foi um vencedor ou perdedor – apenas para colocar de forma simplificada. Na minha opinião ele perdeu, porque foi devastado em sua vida pela existência de seu pai déspota – e devo dizer que a minha opinião é muito desapegada, porque apesar de eu gostar de Kafka, não é um dos meus dez favoritos, para mim Kafka foi uma leitura adolescente que abriu o caminho para que eu lesse mais escritores surreais e de realismo fantástico, eu sou fã confessa de Garcia Marques, um escritor que considero que lidou com as possibilidades surreais da vida de forma muito mais criativa e interessante que Kafka. E aí talvez pese o fato de que Kafka me parece ser um homem profundamente infeliz e miserável, solapado pela influência de um pai que dominou sua mente a vida toda, mesmo quando não estava por perto. Garcia Marques me parece ser um homem feliz. A felicidade pessoal interfere de forma significativa na visão de mundo de uma pessoa e consequentemente, em seus escritos. Kafka afogou-se em seus pensamentos obcecados pelo pai, em sua necessidade de confrontar o pai. Poderia ter escrito mais. Poderia ter procurado um caminho independente no qual pudesse viver e continuar escrevendo. Desconheço as impossibilidades alheias, conheço apenas as minhas próprias e não julgo, porque não considero possível julgar o outro. Cada pessoa é um pequeno universo. Mas Garcia Marques me parece ser um homem mais livre de pensar e escrever, já viveu mais que Kafka e produziu muito mais.
No domingo eu conversava com meu irmão Urso sobre física quântica. Para mim, existe uma poesia magnífica e imaterial na física quântica. A física quântica cientifica o impossível e o imaginado, prova matematicamente que muitos dos sonhos e devaneios humanos não são apenas sonhos e devaneios imateriais, mas possibilidades. Faço caminhos intrincados de pensamentos apenas para concluir que se o ser humano conscientizasse um pouco mais do que a física quântica descobre ano após ano, poderia caminhar mais em mais em direção à realização dos sonhos mais ousados.
A física quântica deveria ser estudada pelos próprios psicanalistas e psiquiatras, porque me parece que pode explicar as neuroses de forma interessante e até propor idéias interessantes de curas. Se o ser humano acreditar ser possível transformar a realidade, acreditará também na própria cura de seus males. Estará livre de suas obsessões, de suas neuroses e paranóias: o possível é realmente possível, não apenas devaneio. Se o ser humano se libertar de seu próprio auto-determinismo, de sua crença em um destino imutável e de uma realidade não-controlável, grandes transformações podem ser atingidas. A teoria do caos passaria a ser uma variável adicionada ao cotidiano e usada de forma produtiva.
Mas tudo isso são apenas divagações minhas. Eu adoro pensar, divagar. Esse meu hábito pode ser irritante para os outros, eu sei. Outro dia fui acusada por uma pessoa – e não é a primeira vez – de ter insights óbvios e de achar que meus insights são relevantes. Respondi apenas que para mim são relevantes, são moradores da minha cabeça. Confesso que fiquei ofendida com o comentário – será que havia inveja? Pessoas são criaturas invejosas e ciumentas – mas não extendi a conversa. Mudei de local no bar e fui conversar com outra pessoa. Se tem uma coisa que eu aprendi é que ofensas são pequenas coisas que devem ser relevadas e deixadas à míngua para morrer. Ofensas alimentadas aborrecem o ofendido e alimentam os ofendedores a cometer mais ofensas.
Voltemos ao surrealismo. E aos insights.
Postei aqui os aforismos de Kafka porque os considerei curiosos e surreais. Gosto do surrealismo. De resto, me parece que Kafka, infelizmente, não tinha a física quântica a seu serviço na época, não se libertou mentalmente de suas próprias amarras e não voou. É pena.
aforismo
do Lat. aphorismu Gr. aphorismós, delimitação
s. m., proposição; máxima; rifão;
sentença que em poucas palavras encerra um princípio moral.
kafkiano
adj., pertencente ou relativo ao escritor F. Kafka (1883-1924);
s. m., admirador ou conhecedor da obra de Kafka.
05
A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.
13
Um primeiro sinal do conhecimento nascente é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável; uma outra, inalcançável. Não há mais vergonha em se desejar morrer; pede-se apenas o deslocamento da velha cela, que se odeia, para uma nova, a qual no devido tempo se aprenderá a odiar. Um resquício de fé deverá fazer crer, durante a mudança, que o Senhor vai casualmente surgir no corredor, olhar o prisioneiro e dizer: “Este não deve ser preso novamente. Ele vem comigo”.
14
Seria algo desesperador, se caminhasses numa planície, com a agradável sensação de estar a avançar, quando na verdade retrocedias. Como porém escalavas uma encosta abrupta, bastante inclinada, conforme por ti mesmo vista de baixo, a causa do retrocesso bem poderia ser devido à disposição do terreno. Não deves desesperar.
16
Uma gaiola saiu a procura de um pássaro.
20
Leopardos invadem o templo e bebem toda a água da pia de sacrifícios, deixando-a vazia. Isto se repete sempre. Por fim, o evento pode ser previsto e torna-se uma parte do ritual.
24
Compreender a ventura de que o chão, sobre o qual estás parado, não pode ser maior do que os dois pés que o cobrem.
25
Como se pode estar satisfeito com o mundo, a não ser quando nele se exile?
36
No passado eu não compreendia porque não encontrava respostas às minhas perguntas; hoje não compreendo como podia acreditar que pudesse perguntar. Entretanto, eu não acreditava, perguntava somente.
47
Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.
Leio um comentário sobre “ser excêntrico” no blog de um amigo. Vou atrás da fonte da notícia. Leio tudo que encontro.
Basicamente, ser “excêntrico” é ser “diferente” – diferente do quê, não me pergunte, hoje em dia definir o que é “ser diferente” se tornou uma tarefa difícil, uma definição que precisa vir acompanhada de uma lista de parâmetros, um manual de instruções referenciais. Há tanta “moda”, há tanta diversidade, e ao mesmo tempo, estamos tão globalizados que hoje em dia, duro é achar um “igual”. Claro, existem as chamadas tribos, mas esse conceito é meio vazio na minha opinião. O que é tribo? Um grupo de pessoas que usa um determinado cabelo, maquiagem ou roupa? Um grupo de aborígenas no meio do deserto?
Mas voltemos ao artigo referido, que pertence a uma revista britânica: o autor desfila dados de uma pesquisa que começou por causa de um novo comediante britânico que foi rotulado de “excêntrico” e é adorado pelo público – hoje em dia, para que uma afirmação tenha credibilidade quando impressa, é preciso ter dados estatísticos, gráficos e alguns nomes famosos como acompanhamento – e segue, em tom entusiasta, dizendo como ser esquisito, bizarro e diferente, aumenta o sex appeal da pessoa, implementa o sistema imunológico, aumenta o sucesso social, a felicidade, etc, etc.
Devo me confessar profundamente cética a esse tipo de artigo, é uma reedição da “receita para ser mais feliz” que vem sendo publicada em revistas com a mesma freqüência e seriedade de um horóscopo ou de um conselho de livro de auto-ajuda: não saia de casa sem guarda-chuva, 95% dos entrevistados afirmaram que chocolate faz sentir-se bem, essa semana os pesquisadores confirmaram que café lubrifica as artérias e que ser excêntrico aumenta a longevidade e a atividade sexual. Aham. Certo.
É curioso como existe no ser humano uma necessidade de “se destacar na multidão”. As pessoas querem afirmar sua individualidade, sua diferença. Querem deixar sua marca no mundo, chamar atenção, se destacar, ainda que seja apenas pintando o cabelo de roxo. Coisas de tempo moderno, porque, como o próprio Darwin afirmaria, a natureza gosta é de iguais: criaturas diferentes têm dificuldade de se adaptar a grupos, sobreviver, multiplicar-se. Não é a toa que os muito jovens se aglutinam em grupos absolutamente padronizados em roupas, cabelos e atitudes. No fundo, todos nós queremos ser aceitos pelos outros e se formos muito diferentes, seremos rejeitados. Sabemos disso quase que instintivamente.
Volto ao artigo e releio, procurando a verdadeira mensagem nas entrelinhas: o que o artigo diz, quase como uma pregação, é que ser alegre, engraçado, ter bom humor chama a atenção dos demais – ser um deprimido está na moda, vejam os góticos, vejam o sucesso dos EMOs, mas cá entre nós, quem aguenta um deprimido profissional por muito tempo? – ser alegre aumenta a longevidade da pessoa, diminui a tendência a problemas de saúde, torna a pessoa mais atraente para as outras. Ah, tá, agora sim, fez sentido.
Por que não disseram isso desde o começo? Talvez porque hoje em dia é preciso enfeitar um texto, algo escrito de forma direta e óbvia demais seria chamado de clichê ou rejeitado pelo leitor, pela obviedade e clareza. Outra característica curiosa do ser humano é que somos criaturas que detestam que nos digam como devemos ser ou o que devemos fazer, mesmo quando procuramos “receitas de felicidade”: no fundo, queremos ler ou ouvir alguma coisa que confirme o que pensamos, que nos faça sentir que estamos corretos. Ninguém gosta que lhe aponte os erros, ou que lhes diga: você está na contra-mão, my friend. Disfarçando o texto com um formato de “vejam essa novidade recém-descoberta” o leitor tem a impressão de que teve acesso a uma incrível revelação de sabedoria e se coloca em uma posição mais aberta a aceitar o que está lendo.
E no fundo, a motivação continua a mesma: o que as pessoas querem é ser aceitas pelas outras, querem ser bem sucedidas socialmente, sejam elas iguais ou diferentes. Nossos pobres egos precisam disso.
E enquanto isso, continua-se discutindo visão e cultura. Estive em duas reuniões ontem que me remeteram novamente a essa questão, ainda mais embalada após o show que assisti no sábado, do Claro que é Rock. Explico.
Existe hoje, graças à política cultural que foi adotada pelo nosso Ministro Gil, uma preocupação em valorizar, registrar e estimular o regionalismo cultural. É uma preocupação oportuna, com toda a globalização que vem acontecendo no mundo todo, com a perda de origens culturais causada por uma invasão de cultura estrangeira de diversas origens que chega cada vez mais rapidamente, via TV e internet, principalmente.
Foi muito curioso assistir em um mesmo show a Nação Zumbi, com o seu rock-maracatu-mangue-beat – pela qual sou apaixonada desde que escutei “A Cidade”, anos e anos atrás, com o saudoso Chico Science, que, em um daqueles golpes de ironia do destino, morreu precocemente em um acidente de carro em 1997 – misturada com o punk de Iggy Pop e o industrial rascante do Nine Inch Nails. Acredito que somos hoje isso, uma mistura do que veio ao Brasil de outros mundos nas ondas da colonização e o que veio ao Brasil nas ondas tecnológicas da globalização cultural, misturado às origens, como o maracatu.
Então não cesso de me assombrar com a quantidade imensa de jovens metropolitanos que nasceram e foram criados na metrópole abarrotada de shoppings, cinemas que exibem filmes em sua maioria americanos, rádios e TVs recheadas de enlatados & jabás, que não têm conhecimento nenhum sobre o que podemos chamar de “raízes culturais” brasileiras. Não sabem, nunca ouviram nem viram, por exemplo, o maracatu tradicional.
Sem saber o que é a cultura original que existia aqui na terra brasiliensis, o que veio importado com as imigrações durante todo o período colonial e pré-industrial, a mescla que nasceu disso, soterrados com o que vem importado com a globalização, sem conceituação, sem digestão, como podem esses jovens saberem quem são eles mesmos? Há uma perda de identidade constante, há um desvínculo com a origem, há uma renovação industrial de modismos. A forma esvaziada do conteúdo.
Só resta, então, o punk de butique, o excêntrico, o esquisito, simbolizado em cores de cabelos, roupas, maquiagem, trejeitos. A tribo dos sem-identidade, as vítimas-das-modas.
De vez em quando, escrevo para o Digestivo Cultural. Em tese eu sou uma colunista, mas não escrevo com regularidade, a maior parte do tempo eu não sei o que escrever. Eu até gostaria de escrever mais, tenho muita coisa na cabeça, muitas idéias, muitos conceitos, uma infovia inteira de informações exteriores e interiores… mas eu não consigo deixar fluir.
A mim intimida quando “preciso” escrever alguma coisa. Já comentei no chá que eu geralmente escrevo textos quando eles urgem, quando eles simplesmente aparecem do nada na minha cabeça e pedem para ser escritos. Mas eu não sou uma escritora e não ser escritora, ou seja, não desejar escrever o tempo todo, não conseguir escrever todo o tempo, tem se revelado problemático para mim.
Esse ano prestei um concurso. Nunca tinha prestado um concurso na vida. Foi de derreter neurônios, foi uma experiência curiosa. Tive que escrever à mão e eu, que já fui expert em escrever à mão em outras alturas da vida, não sei mais fazer isso. Talvez seja porque agora temos esses teclados, essa possibilidade de simplesmente fazer o texto fluir pela ponta dos dedos para um mecanismo que praticamente responde à velocidade dos pensamentos. Escrever à mão é tarefa muito laboriosa, complexa. Precisa pensar mais devagar. Ruminar mais o texto. Ou talvez, eu apenas esteja mesmo ficando velha.
Oh, Jee. Já comecei a digressar. Julio, meu editor – é curioso afirmar isso, “meu editor”, mas… – me pede para escrever sobre o ano de 2005. Difícil tarefa, então já comecei a digressar.
Eu já comentei que tenho cinco anos de idade? Eu tenho. Quando estou aqui em casa, desde que moro com minha mãe, sou afetuosamente tratada por ela como se eu tivesse cinco anos de idade. Adoro, confesso. Ela compra pudins de leite, flans de creme e muffins de chocolate para mim. Me enche de esperança e alegria ser tratada como se eu ainda fosse uma criança pequena que precisa de bolinhos de chocolate e colo. No fundo, eu acho que preciso.
Mas ter cinco anos de idade tem seus problemas. Um deles é essa barreira imensa de conseguir escrever. Quando Julio, o meu editor, me pede para escrever, eu simplesmente obedeço, sem pensar. Os textos ficam menos apavorados, menos censurados, saltam dos dedos para a tela. Eu os libero por email, eles vão e se espalham pela internet. Se eu me der tempo de pensar no assunto, nada escrevo. Textos longamente ruminados acabam cuspidos em algum canto do meu cérebro e não fluem. Evaporam.
Sabem, eu odeio me expor. Sou exímia na arte do disfarce de mim mesma. E eu não tenho conseguido escrever, nem mesmo no chá, porque para isso eu precisaria me expor demais novamente. Eu odeio me expor. Tudo para mim é muito pessoal.
E dessa vez, Julio me pede para escrever uma espécie de “balancete de 2005″. Certo. Não consigo. Eu congelo. É uma tarefa impossível de se fazer sem me expor. Eu tenho cinco anos de idade. Eu não quero me expor. Então não vou escrever sobre 2005. Vou escrever uma outra coisa. Vou digressar aos poucos, conta-gotas-de-palavras. Finjo que não é comigo. Ou que não estou me expondo.
O que vou escrever? Não tenho a menor idéia. Na verdade, confundo 2004 e 2005 em um ano só, o ano não virou para mim desde 2004. Os divisores de águas na vida para mim são diferentes, o calendário gregoriano tem pouco significado. Não estou com vontade de escrever um texto tipo “lista de compras”: eu lecionei muito em 2005, eu tomei bastante chá e café, comi coisas deliciosas com pessoas magníficas, coisas que nunca antes havia comido, como ostras ou chá de hibiscus, fumei dos mais variados e saborosos tabacos, viajei, revi pessoas do passado e conheci novas pessoas, aprendi a lidar com essa nova “eu” que vejo agora diariamente no espelho, tirei muitas fotos, tive inúmeras crises emocionais, fui mal interpretada várias vezes, fato cíclico e repetitivo ao longo da minha vida, fiz amigos, alguns amigos mudaram de país, filmei menos do que gostaria, mas filmei, dei uma entrevista para a TV (o que é surreal), trabalhei bastante, ganhei pouco dinheiro, fiz vários planos, tenho vários projetos para 2006, escrevi muito menos do que em 2004… mas vivi muito mais, de uma forma lenta, às vezes complexa e dolorosa, às vezes leve e contente. E eu fui ao show do NIN, vi Trent Reznor ao vivo. É, ele estava ali, cantando visceralmente todas aquelas letras raivosas com sua música feita de pequenos noises, os ruídos que enchem o ar com melodia de guitarras e que têm sido a trilha sonora da minha vida desde 1987 e que faz eco à minha própria arte. É, existiu um 1987. E hoje ainda é 2005. Amanhã será 2006. E eu ainda lembro de 1999, o ano que o mundo ia acabar. Que diferença realmente faz?
Não faz diferença em que ano estamos. Faz? Ou que ano iremos iniciar. Faz? Nem podemos afirmar que seja mesmo 2006. Podemos? Não, não podemos. Pode ser qualquer número, depende do calendário. O que cada um de nós sabe dizer, apenas, é quanto tempo tem levado sua própria vida e em que momento dessa vida se está, ainda que esse momento seja complexo de definir ou ainda, talvez quase impossível de definir com apenas uma palavra. O tempo é apenas um número.
No momento, eu sei que eu continuo a ser eu. Muitas mudanças e tempestades têm se abatido sobre mim, mas eu ainda sou eu. E cada vez mais ciente de mim mesma. Cada vez mais eu. Percebo, às vezes, essa auto-ciência transbordando na minha arte, nas minhas imagens ou mesmo nas minhas palavras. Mas nada falo. Não quero falar, assim como não quero escrever. Escrever sobre qualquer coisa de mim mesma é assunto árido, desnudado, complicado. Cheira a egolatria, cheira a blasfêmia, cheira a invasão.
“There is no you, there is only me, there is no you, there is only me… “
Prefiro ficar quieta. Prefiro ter cinco anos de idade e comer muffins de chocolate. Prefiro ir ali fora, observar esse lindo pôr-do-sol que está fazendo pós-chuva e pensar nos gatos que eu tinha, que tive de dar e de quem tenho saudades. Para os gatos eu não precisava falar nada, escrever nada, fazer nada. Bastava que existíssemos ali juntos, em silêncio. Por vezes, acompanhados por Trent Reznor e sua música feita de noises.
“…and when the day arrives
I’ll become the sky
and I’ll become the sea
and the sea will come to kiss me
for I am going home
nothing can stop me now…”

Now Listening: Only, NIN
O longa “O Jardineiro Fiel”, produção inglesa dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, recebeu os prêmios de melhor filme, melhor ator (Ralph Fiennes) e melhor atriz (Rachel Weisz) no British Independent Film Awards. Baseado no romance homônimo de John Le Carré, o filme de Meirelles está em cartaz no Brasil há sete semanas, onde acumula 429 mil espectadores. Rodado na África e falado em inglês, o título é apontado como provável indicado em categorias do Oscar 2006.
- via lista de socios ABCine, enviado por Monsieur Ebert
Naquela mencionada entrevista que dei à TV, a mocinha jornalista entrevistadora me perguntou o que penso do Oscar. A pergunta me provocou, porque sempre considerei que o Oscar é um prêmio superestimado. Que nos importa o Oscar? É um prêmio criado pelos estadunidenses para premiar estadunidenses e promover filmes estadunidenses em terras estadunidenses. Não faz a menor diferença para nós. Melhores são os prêmios de crítica e de cinema independente.
E então, Fernando ganhou o British Independent Film Awards. Sensacional. Somos bons de cinema, eu sempre disse isso, mesmo àqueles que torcem seus narizes elitistas achando que cinema bom é o europeu. Cinema bom é o nosso.
Confesso que acompanho as aventuras de Fernando e Waltinho em terras estrangeiras com um certo sentimento de torcedora. É bonito ver dois cineastas que, na minha opinião, representam muito bem o nosso cinema, se aventurando em águas internacionais e se dando muito, muito bem.
Não importa que o filme que Fernando dirigiu seja inglês. A mão que dirige o filme é brasileira. O pensamento, o modo de ver o mundo, a cultura que formou aquela cabeça de diretor, são brasileiros. Já li em algum lugar que é justamente por ter sido dirigido por um diretor brasileiro que o Jardineiro Fiel tem o tom e a sensibilidade que se vê no filme. Acredito nisso. Cultura é alguma coisa imensa e intrínseca como o ar que respiramos, é invisível e estamos imersos nela (essa frase não é minha, não sei quem a cunhou).
Quando o filme de Fernando conquista algum prêmio, reforça a idéia de que temos competência cinematográfica, sim, cinema bom é o nosso. “Cidade de Deus” concorreu a 4 oscars. Perdeu todos para o também fantástico Senhor dos Anéis. Se Fernando concorrer novamente, e mais ainda, se ganhar, terá sido mais um prêmio merecido. Se não concorrer ou se concorrer e não ganhar, não fará a menor diferença: o público e a crítica já reconheceram seu talento. É o que basta.