Esse texto vai ser surpreendente. Foi surpreendente para mim também.
Então é sábado, a minha semana foi mais ou menos (muito trabalho, pouco dinheiro, algumas perspectiva e expectativas). Minha mãe foi dormir na minha irmã, ficar de babá dos netos dela. Fiquei em casa e assisti a um filme, por acidente. Adoro esses filmes que eu pego na TV a cabo por acidente.
O filme já estava começado - adoro pegar filmes já começados, porque muitas vezes, um filme que você começa a assistir após 20 minutos é mais interessante que um filme visto desde o início. Você é atirado de cabeça em meio à história e tem que se encontrar dentro dela - e não é isso que a vida é? Pegar histórias pela metade e se encontrar dentro delas? - e tentar descobrir, como um quebra-cabeça espalhado, o que é que está acontecendo por ali.
“Signora, between Austria and Italy, there is a section of the Alps called the Semmering. It is an impossibly steep, very high part of the mountains. They built a train track over these Alps to connect Vienna and Venice. They built these tracks before there was a train in existence that could make the trip. They built it because they knew someday the train would come.”
Confesso que não tinha dado a menor atenção à esse filme quando vi as chamadas dele. Diane Lane é uma atriz regular, com bons filmes em sua carreira - como Chaplin, por exemplo, ou Rumble Fish ou ainda The Outsiders. Audrey Wells é uma diretora e roteirista interessante, com poucas histórias - gostei muito de The Truth About Cats & Dogs e The Kid.
Under the Tuscan Sun é uma surpresa, baseado em um livro de Frances May. As chamadas para o filme me deram a idéia de se tratar de um filme na linha açucarada daqueles filmes do tipo “vejam como eu sofri” ou “você pode mudar sua vida” e eu simplesmente decidi não assistir. Realmente é um filme dessa linha só que não é igual aos demais!
Acabei assistindo. E me surpreendendo. Primeiro, é um lindo filme e não tinha como não ser. O filme traz dois grandes diretores de arte, Gianfranco Fumagalli, que trabalhou com Fellini em Ginger & Fred e Gianni Giovagnoni que trabalhou com Bertolucci em O Pequeno Buda e o Último Imperador - e a fotografia esplendorosa do australiano Geoffrey Simpson, cinematógrafo de Shine, Green Card e Black and White.
Segundo, o filme não desaba para a emoção água com açúcar nem transforma a personagem principal em alguém frágil e banal - a cena em que Diane Lane veste um glorioso vestido de tafetá amarelo mostra como a personagem dela amadureceu ao longo da experiência de mudar-se para a Itália.
Terceiro, o filme tem personagens secundários interessantíssimos: Sandra Oh faz a amiga lésbica que está grávida, Lindsay Duncan faz uma atriz de filmes de Fellini com uma linda homenageando “La Dolce Vitta”, os três poloneses que vão restaurar a casa são personagens interessantes, anacrônicos. Para coroar, Mario Monicelli faz uma ponta como um silencioso homem que deixa flores em um altar diariamente. Bravo.
“Life offers you a thousand chances … all you have to do is take one.”
Então é um filme otimista. É um filme solar. Não temos tido muitos desses ultimamente, ainda mais aqui no Brasil, onde a maioria das pessoas não enxerga nenhuma luz no fim de um terrível túnel que parece interminável. As pessoas todas por aqui tem essa tendência pessimista que parece ser sempre particularmente agravadas pelo mau tempo de São Paulo - não, não é lenda, paulistano é capaz de um mau-humor e pessimismo que só quem vive em uma metrópole poluída onde tudo parece conspirar para que um dia seja pior que o outro pode compreender.
O livro de Frances Maye se tornou um sucesso imenso de vendas. A autora, que apenas tinha conseguido vender uns 2000 livros em suas publicações anteriores, se tornou uma escritora muito bem sucedida em vendas.
Vou comprar o livro e ler. Pela sinopse, me pareceu que não tem a mesma história do filme, ao contrário, é um diário de viagens onde ela conta como ela e o marido compraram e reformaram a casa na Toscana. Vou comprar, ler e depois conto para vocês qual é o segredo desse livro, embora eu desconfie que já sei: é a celebração da vida, assim como no filme.
