Criei um “journal” no Rotten Tomatoes. O endereço é esse aqui, podem dar uma olhada. Não tem nada lá e eu acredito que nem vou colocar nada lá - habemus tea - mas não deu para resistir a abrir uma continha gratuita, veja bem, é o Rotten Tomatoes!!!!
Apenas abrir a conta e dar uma mexida por lá já me obrigou a fazer uma coisa que eu venho protelando por mais de um ano: uma lista dos dez mais. Para fazer essa lista, abri meu perfil do IMDB e fui analisar a lista de mais de 400 títulos que tenho em “My Movies”. Depois de um longo tempo, consegui separar dez filmes. Como todas as listas, não é justa, ainda mais vindo de alguém que ensina sobre cinema, do ponto de vista artístico! Então, resolvi escrever um pouco mais sobre o assunto, aqui no chá.
Eis a lista dos meu Top 10
1. Blade Runner (1982) de Ridley Scott
2. Elephant (2003) de Gus Van Sant
3. Requiem for a Dream (2000) de Darren Aronofsky
4. A Clockwork Orange (1971) de Stanley Kubrick
5. The Matrix (1999) dos Irmãos Wachovsky
6. Big Fish (2003) de Tim Burton
7. Natural Born Killers (1994) de Oliver Stone
8. The Pillow Book (1997) de Peter Greenaway
9. Punch-Drunk Love (2002) de Paul Thomas Anderson
10. Mulholland Dr. (2001) de David Lynch
Vamos às explicações:
1. Blade Runner (1982) - Ridley Scott é um grande cineasta. Infelizmente para ele, mesmo tendo feito outros filmes de grande qualidade, sua obra-prima continua sendo Blade Runner. É um filme tão poderoso que o próprio Ridley Scott já tentou destrui-lo, fazendo um horrível director’s cut, recolhendo de todos os lugares do mundo a versão lançada pelo estúdio em 1982, que tinha uma seqüência final retirada do Iluminado de Kubrick, realizado pelo mesmo estúdio. Ridley Scott não está sozinho em sua iconoclastia raivosa: George Lucas fez muito pior com seu primeiro filme importante, THX 1138 (1971). Lucas remasterizou e retocou o filme inteiro digitalmente, lançou em DVD e mandou destruir todas as cópias do original. Nunca mais ninguém poderá apreciar o filme original feito pelo então estudante de cinema que já exibia um incrível talento e que depois lançaria Star Wars, criaria a Industrial Light and Magic e modificaria a história do cinema. É o ego se auto-destruindo.
Blade Runner é o filme mais importante no gênero ficção científica cyberpunk assim como Star Wars se tornou uma referência obrigatória para o gênero space opera. Star Wars foi uma revolução tecnológica, Blade Runner criou o universo referencial imagético para o cyberpunk. Elementos visuais como os blimps de propaganda japonesa, os neóns, os ambientes dark que misturam elementos antigos de diversos estilos - oriental, clássico, neoclássico - com elementos de tecnologia, o estilo da música melancólica e instruimental e dúzias de outros elementos áudio-visuais e conceituais se transformaram em referências definitivas no cinema, podendo ser vistos citados em muitos filmes posteriores, incluindo Brazil e Twelve Monkeys de Terri Gilliam, o japonês Ghost in The Shell, The Matrix e o mais recente Minority Report, de Steven Spielberg, também baseado em uma história de Philip K. Dick, autor do livro que deu origem a Blade Runner. A proposta existencial de reflexão e análise do homem versus máquina nunca mais abandonou o universo de discussão do cinema e ganhou uma face visual definitiva.
2. Elephant (2003) - Gus Van Sant é um cineasta ímpar e peculiar. Possui estilo próprio, idéias próprias e uma imensa crítica da sociedade em que vive. Elephant é uma obra-prima, mostrando em um lindo filme um fato terrível da história americana recente, o massacre da escola secundarista de Columbine. O contraponto entre a beleza estética do filme e o massacre sem sentido aumentam a aura de horror que o fato causou no mundo todo.
3. Requiem for a Dream (2000) - Beleza e horror, linguagem contemporânea, imagens precisas, grande fotografia e música belíssima. O tema é indigesto - o uso de drogas no mundo contemporâneo, dos vícios mais evidentes como a heroína até os que passam mais desapercebidos como a comida, as anfetaminhas e a tv - empacotado em um filme de grande beleza com trilha musical que incluem o Kronos Quartet, usando o clássico versus o contemporâneo.
4. A Clockwork Orange (1971) - O cinema nada seria sem Kubrick. Fiquei na dúvida de qual dos filmes dele colocar, porque cada filme de Kubrick possui uma importância única na história do cinema, particularmente do ponto de vista da estética, fotografia e técnica. Kubrick inventou câmeras, inventou a steadicam, filmou a luz de velas. Laranja Mecânica tem uma história polêmica que não envelheceu, com um visual que se tornou sinônimo da década de 70. Dr. Strangelove (1968) pode ser considerado ainda mais importante do ponto de vista temático porque até hoje o tema está atual mas eu preferi escolher Laranja Mecânica pelo conjunto do resultado final.
5. The Matrix (1999) - O questionamento existencial do ser humano numa era tecnológica retorna, agregado a filosofia, existencialismo e a questão da realidade versus a virtualidade. É o filme símbolo da era pós-internet. Para completar, um show de tecnologia que mistura técnica fotográfica reinventada - o bullet time é uma ténica fotográfica depois retocada por computador. Sete anos depois, The Matrix não envelheceu e já influenciou dúzias de outros filmes.
6. Big Fish (2003) - Talvez o filme mais lindo, mais autoral e mais intimista de Tim Burton, um dos diretores mais autorais de Hollywood, especialmente do ponto de vista estilístico e visual. O filme onde Tim Burton conseguiu transcender a si mesmo, achando uma medida de como contar um conto de fadas para adultos com um visual gótico como seus filmes anteriores, mas não tão dark. Acredito que Big Fish vá ser considerado sua obra-prima, vai ser difícil ele se superar.
7. Natural Born Killers (1994) - Oliver Stone tem vários grandes filmes mas para mim, NBK ainda permanece sendo seu maior filme. Sarcástico, irônico, cru e cruel, cheio de experimentalismos - muito do que Oliver Stone criou como solução visual para NBK influenciou videoclipes e filmes posteriores - mostrando a violência da sociedade moderna versus o circo da mídia de forma realista.
8. The Pillow Book (1997) - Greenaway é o mestre dos filmes belos. Prospero’s Book é uma sinfonia que mistura pintura com Shakespeare. The Pillow Book, entretanto, além de ser um filme lindo, discute o amor, a vida, a morte e o que é ou não é arte de uma forma especialmente perturbadora.
9. Punch-Drunk Love (2002) - Magnolia foi mais polêmico e ficou mais famoso - tratava de assuntos mais espinhosos. Sem desmerecer Magnolia, ainda penso que Punch-Drunk Love é meu favorito. Paul Thomas Anderson é um grande cineasta, de estilo próprio, com questionamentos diferentes sobre as pessoas e as relações humanas. Punch-Drunk Love é o melhor filme em que Adam Sandler atua, numa performance que mostrou o grande ator que ele pode ser - quando fazendo um filme com uma boa temática e com um diretor competente. É um filme bonito, doce, delicado e visualmente esplendoroso.
10. Mulholland Dr. (2001) - Eu adoro David Lynch, todos os seus filmes, qualquer de seus filmes. Mulholland Drive tem a incrível característica de que as pessoas entram em estado de negação, não captam a mensagem do filme, saem do cinema afirmando que não entenderam o filme - e eu acredito que isso aconteça porque o filme tem uma mensagem complexa e difícil de digerir, a dicotomia do amor e da morte, formatada em um lindo filme surreal.
Para completar essa “resenha” vou postar um comentário que deixei no blog do artista Tom Moody, falando sobre a suposta “arte hiperrealista tridimensional” de Ron Muek:
“Art supposed to show what the artist see and nobody else see. Art suppose to show a vision, a discovery, a view. Art suppose to be something that changes the person who is interacting with the art in any way (seeing, listening, touching, etc) and make this person to experience something that transform this person to a different person, perhaps a better person. If we use these concepts - in a very cold and non-emotional analisys - then I have to admit that Ron Mueck pieces makes me feel puzzled, astonished and even shocked. Perhaps is art? Those horrid (yes, this is a statement, an opinion and not so cold and not so non-emotional) manufactured human bodies by Gunther von Hagens already did this job, in a much more shocking way, since there are REAL people bodies preserved thanks to technology. Ok, so Gunther von Hagens was the reality preserved and Ron Mueck are fake imitating in a very realistic way the reality, three dimensional. Honestly I don’t see a point. A show of technology? “I made it cause I can”? “Look how they look real”? Just doesn’t seems to be enough for me to classify something as “art”. Causes me nausea, makes me feel shocked and even sad, but is this art?
ou em bom português:
Arte supostamente deveria mostrar o que o artista viu e mais ninguém está vendo. A arte deveria mostrar uma visão, uma descoberta, um ponto de vista. A arte deveria modificar a pessoa que está interagindo com aquela obra de arte de algum modo (vendo-a, tocando-a, ouvindo-a, etc), transformando essa pessoa em uma nova pessoa, talvez até, uma pessoa melhor. Se utilizarmos esses conceitos - e fizermos uma análise fria e não-emocional - eu tenho que admitir que as peças de Ron Mueck me deixam intrigada, surpresa, talvez até, chocada. Talvez sejam arte? Aquelas horríveis (agora coloco uma opinião bem clara e não mais um comentário frio de análise) peças feitas por Gunther von Hagens a partir de corpos humanos reais plastificados já cumpriram a tarefa de chocar as pessoas. Gunther von Hagens é o mundo real plastificado e Ron Mueck é uma imitação realista em 3D da realidade, mas sinceramente, não vejo um propósito no trabalho. Show de tecnologia? Foi realizado para mostrar que ele possui técnica suficiente para realizar? Não me parece argumento suficiente para chamar seu trabalho de “arte”. É um trabalho que faz com que eu me sinta triste, chocada e até mesmo enjoada… mas é arte?
Se você não tem a menor idéia do que esse comentário trata:
- o post no blog de Tom Moody que gerou o debate
- Ron Mueck - o realismo é tão grande que não dá para saber o que é foto de gente e o que é escultura.
- O site oficial do trabalho de Gunther von Hagens - o trabalho de Gunther von Hagens tem tido ampla aplicação na medicina e para estudantes de ciências e de medicina, mas a partir do momento em que ele coloca seus trabalhos em museus e galerias - coisa que ele fez - com a pretensão de colar um selo de “isso é arte”, eu me sinto com total liberdade de questionar o que ele está fazendo.