Friday, July 4, 2008

Chás de March, 2006

Não é só o Orkut que não dá donuts

Tuesday, March 28th, 2006

Interessante isso:

Server Error
Gmail is temporarily unavailable. Cross your fingers and try again in a few minutes. We’re sorry for the inconvenience.

Foi a mensagem que eu acabei de receber, tentando ler meu email no Gmail.
Há uns meses atrás eu comentei com alguns amigos que eu achava que o Google estava tentando crescer mais do que tinha capacidade de servidor. Parece que eu estava certa.

A Arma Perdida

Tuesday, March 28th, 2006

Sábado assisti a um filme chinês extremamente interessante: “A Arma Perdida” (2002) de Chuan Lu.

A “Arma Perdida” é o segundo filme de Chuan Lu. É um filme chinês continental, falado em mandarim, filmado em uma vila e primeiro filme a ser projetado digitalmente na China apesar de ter sido produzido em 35mm. É um filme de baixo orçamento. É uma pequena obra-prima do cinema.

A crítica não entendeu o filme, com raras excessões. Infelizmente não encontrei informações que indiquem se o filme foi bem ou foi mal na própria China. Os ocidentais claramente não entenderam o filme por se tratar, talvez, de um filme muito, muito chinês.

A história é extremamente simples: um oficial de polícia perde sua arma na festa de casamento de sua irmã e precisa encontrá-la. Além das razões óbvias para a busca, existe um questionamento interessante a respeito da arma perdida que serve de compasso para o filme: não existem armas na aldeia, a arma tem 3 balas e as pessoas tem receio de que seja usada, pois partem do pressuposto que quem roubou a arma pretende usá-la. Esse detalhe permite uma reflexão interessante sobre a presença da violência no mundo atual. Para aquela aldeia uma única arma com apenas 3 balas é um problema de grandes dimensões. A perda da arma torna-se uma questão de honra para o oficial chinês, que começa a buscá-la de forma quase obsessiva. Os aspectos culturais e sociais envolvendo a questão - bem como a posição política da China comunista - são apresentados e discutidos de forma leve, não panfletária.

Fazendo uma busca por imagens do filme, não encontrei nenhuma das cenas do filme que gostaria de ter encontrado. Talvez o filme não tenha se tornado popular justamente por falta de fotos de still melhores. As que eu encontrei não fazem jus ao filme. O cinema chinês tem produzido filmes de impressionante beleza, talvez esse filme modesto e despretensioso - mas lindo e cheio de significados - não tenha impressionado os críticos ou a platéia por falta de divulgação apropriada. Estéticamente, é um filme lindo, cheio de significados, com um tratamento de imagem de alta qualidade e enquadramentos cuidadosos. Todos os pontos de luz são indicados, as fontes de luz participam da composição da cena. Apesar do baixo orçamento, há uma grande preocupação estética cheia de significados: a aldeia é cinzenta, triste, as ambições pessoais do oficial de polícia são sempre pontuadas pelas cores e pela luz. A modernidade que avança sobre a China é pontuada pelo uso de cores, destacando-as do cenário cinzento da antiga China não desenvolvida.

Talvez o filme não tenha se tornado popular justamente por falta de fotos de still melhores. As que eu encontrei não fazem jus ao filme. O cinema chinês tem produzido filmes de impressionante beleza, talvez esse filme modesto e despretensioso - mas lindo e cheio de significados - não tenha impressionado os críticos ou a platéia por falta de divulgação apropriada.

O final do filme lembra alguns dos melhores samurai-westerns de Kurosawa. Chuan Lu é um diretor muito interessante. Vou aguardar com interesse seus próximos filmes.

Nota: Vi o filme no canal Cinemax.

Subempregos

Thursday, March 23rd, 2006

Subemprego 24: cartunista
“Minha mãe conta que quando nasci, minha cabeça tinha formato de ovo. O médico mandou pegar uma espátula e ir modelando, de levinho, até ficar redonda. Então eu cresci e as pessoas começaram a comentar que tudo que escrevo é muito engraçado, de onde concluí que, na verdade, sou cartunista com o lado direito do cérebro atrofiado.”

Subemprego 23: Corretora de imóveis
“Eu ficava dentro de uma tenda, no meio do pasto, lendo Isabel Allende. Só interrompia quando ouvia barulho de carro.”

Subemprego 19: Vendedora de limonada na esquina.
“Minha inspiração vinha do Charlie Brown. Fui pra esquina, virei uma caixa de papelão de ponta-cabeça e pendurei a placa: ‘Limonada deliciosa: R$ 1,00″

Todos esses emocionantes depoimentos e muito mais em: Subempregos

Cellular

Tuesday, March 21st, 2006

Não, eu não vou analisar esse filme. É ruim de doer, mas muito, muito ruim mesmo. Eu só assisti porque era um sábado à noite que eu não tinha nada melhor para fazer. Eu diria que a filmografia do diretor explica muito sobre por que o filme é tão ruim. Como diretor, ele é um excelente doublé de ação. Mas não, eu não vou analisar esse filme. Não vale o tempo que eu vou ficar digitando aqui.
…eu vou é pedir ao Paulo que assita e analise esse filme!

Duas fotos bem sucedidas

Monday, March 20th, 2006

Eu tenho “brincado de Flickr”. Duas fotos que adicionei recentemente estão tendo uma meteórica carreira de popularidade. São essas aqui:

Vila MadalenaVila Madalena

Depois eu conto o que foi que eu andei fazendo e qual é a lógica da comunidade do Flickr.
Aliás, esse uso do Flickr só está confirmando uma teoria pessoal minha sobre a lógica do funcionamento das comunidades online. Estou pensando em escrever um artigo sobre isso.

Chá em Liliput

Thursday, March 16th, 2006

A Sheila me enviou essas coisinhas lindas por email:

xicara
sorvete

Nota: A Bibi passou aqui e deixou o link para o site que tem essas coisinhas!

Feliz Dia da Mulher, atrasado

Wednesday, March 15th, 2006

Recebi - como todos os anos - uma enxurrada de emails com poeminhas, frases “bonitinhas” e parabenizações sobre o dia da mulher.

No ano passado, pouco antes do servidor anterior engolir os arquivos do chá, eu tinha colocado por aqui uma série de artigos sobre violência contra a mulher e tinha apontado uma linda campanha a favor da valorização da beleza feminina, independente do biotipo da mulher. A reação veio imediatamente: várias mulheres me parabenizaram pela iniciativa e vários homens me atacaram com mensagens grosseiras, usando até mesmo os famosos argumentos de que eu devia ser “mal amada” e outros de mais baixo calão, porque tinha publicado aquilo.

Ainda no ano passado, reencontrei uma grande e querida amiga, fomos jantar num restaurante delicioso e bonito e passamos a noite conversando. Ele me contou que estava numa fase ótima de sua vida, após conseguir sair de um relacionamento abusivo. O pior de tudo - segundo conclusão dela mesma - é que ela não sabia que estava em um relacionamento abusivo.

Esse ano, eu tinha decidido deixar a data passar e cuidar dos meus assuntos. Só que duas coisas aconteceram. A primeira foi a capa de uma revista, a segunda foi um email.

Na segunda-feira, quando eu tomava café na maternidade, aguardando meu lindo sobrinho ser levado ao quarto para que nós pudéssemos vê-lo melhor, vi a capa da Revista Veja dessa semana no display ao lado do café da maternidade.

A capa é essa aqui:

Veja

E o link para ler a reportagem online é esse aqui: Especial - O Fim do Silêncio

Recomendo a leitura, especialmente dos trechos exclusivos de dois livros sobre o assunto:
- Mulheres em Pedaços, de Umbelina Lopes
- Assédio Moral - Entre o Amor e a Perversidade, de Leila Sodero Rezende e Vania Crespo
Esse livro é a única voz que eu vi - até hoje - com coragem de falar sobre o tipo de tortura mental extremamente abusiva ao qual muitas mulheres são submetidas e que não são considerados abuso pela sociedade, porque são casos onde a mulher não é espancada. Tortura mental, perversidade sexual, abuso psicológico e destruição de auto-estima também são abusos, embora as marcas sejam invisíveis.

Vejam algumas passagens interessantes do livro “Assédio Moral”:

Técnicas para identificação de um Perverso

Identificando o perverso
Toda mulher sonha em ser esposa e mãe. Esses desejos são naturais, intuitivos, existem no inconsciente coletivo e passam para a mente feminina enquanto ainda está em formação no útero materno. Entretanto, a mulher não se torna esposa e mãe sozinha. Por isso, desde o início da humanidade, como assim nós a conhecemos, a mulher busca encontrar seu parceiro, seu companheiro, a pessoa com quem irá passar o resto da sua vida.
Entretanto, com freqüência maior do que se pode supor, esse provável parceiro não tem os mesmos objetivos da mulher. Na realidade, ao entrar no relacionamento, seus objetivos são apenas sua satisfação pessoal e sexual, é apenas o desejo de dominar a mulher, de mantê-la como refém, como escrava. Ao perceber a diferença de metas, a mulher sofre e acaba tornando-se vítima num relacionamento em que esperava encontrar a felicidade. Sendo assim, é importante que, antes de se deixar enredar na teia do amor, a mulher tome certos cuidados que poderão, no mínimo, evitar sofrimento pelo resto da vida.
Como reconhecer um homem perverso? Vamos dar a seguir alguns alertas da perversidade.

DURANTE O ENREDAMENTO
· Ele a deixa escolher tudo, desde o lugar aonde irão até o que vão comer. Nesse momento ele está traçando o seu perfil ao mesmo tempo em que esconde o dele.
· Apresenta-se como injustiçado, uma pessoa que sofreu por falta de amor, de apoio, e teve que construir tudo sozinho; na maioria das vezes isso é verdade, embora ele esteja estimulando seu instinto maternal.
· Apesar do conhecimento recente, ele apressa as coisas, falando prematuramente em morar juntos, e até em casar.
· Quase não fala. Limita-se a concordar com o que a outra pessoa diz, prestando atenção em tudo. Quando, eventualmente alguma pergunta lhe é dirigida, a resposta não é clara. “Não sei”, “talvez”, “às vezes”, “de vez em quando”, “pode ser”.
· Aceita ir a reuniões sociais, sair com amigos, visitá-los ou convidá-los para sua casa.
· Usa frases do tipo “não vivo sem você”, “vamos ficar juntos para sempre, não importa o que acontecer”, para envolvê-la.

NA FASE INICIAL DE PERVERSIDADE
· Diz que a vida longe de você não faz sentido; e ele está falando sério, entretanto isso não é amor, é obsessão.
· Começa a evitar reuniões sociais, sair com amigos, visitá-los ou convidá-los para sua casa.
· Fica aborrecido com freqüência e você se vê desfazendo mal-entendidos.
· Não admite recusas, sua vontade tem que ser satisfeita a qualquer custo.
· Chama por você e exige que você pare o que está fazendo para atendê-lo.
· Tem humor instável, e deixa você aflita por nunca saber o que vai detonar uma crise.
· Suas mentiras começam a aparecer. Mente tanto que se esquece do que falou e, quando você o questiona sobre a veracidade do que está falando, age como se você fosse uma criminosa.
· Tem ciúme de suas amigas, do telefone, ou de qualquer coisa ou pessoa que tome seu tempo. Quer você sempre disponível só para ele.
· Convence-a de que é um bom administrador e, caso você trabalhe, faz com que lhe entregue seu próprio dinheiro para ele administrar. Inicialmente, dá-lhe provas de que é realmente bom administrador financeiro.
· É capaz de mentir, distorcer fatos, palavras, e inventar situações que nunca existiram, ou mesmo, criar provas falsas de que está com a razão, e só vocês dois sabem que ele está mentindo.

COM A PERVERSIDADE INSTALADA
As da fase anterior e mais:
· Agride-a verbalmente, faz ameaças para magoar, embaraçar ou restringir sua liberdade; e, quando discutem, baixa o nível.
· Faz inúmeras perguntas encadeadas apenas para intimidar, sem o objetivo real de saber as respostas.
· Usa o dinheiro para controlar todos os aspectos da sua vida.
· Quebra coisas, dá socos na parede, e usa violência simbólica, como rasgar fotos ou destruir seus objetos pessoais.
· Não admite rejeição. O relacionamento vai durar, enquanto ele quiser. Você só se libertará, quando ele assim o quiser.
· Minimiza os acessos de raiva, como se cada um fosse uma exceção.
· Faz você acreditar que não é violento, e que você é a responsável pelas perdas de controle dele.
· Culpa os outros pelos próprios ataques. É você que o leva à loucura.
· É capaz de se mostrar frágil fisicamente. Apenas você conhece a verdadeira força de um louco.

Minha amiga estava em um relacionamento abusivo e não sabia que aquilo era abuso. Eu estive - por um longo tempo - em um relacionamento abusivo e também não sabia que era abuso. Os abusos começam com pequenas coisas e vão crescendo, crescendo, até que se tornam agressão física. Começa com ciúmes, possessividade, um dia é uma briga, no outro é um soco na porta da geladeira, no outro é um objeto seu que é quebrado, depois é uma briga aos gritos, até o ponto que aquele homem se tornou um obsessivo controlador temperamental que explode por qualquer coisa, não deixa você sair de casa ou falar com ninguém. Algumas vezes o abuso caminha para a violência física de fato - o cara bate na mulher ou salta no seu pescoço no meio de uma briga - mas às vezes essa tortura se prolonga indefinidamente: o prazer cruel do cara é o abuso psicológico, o controle, a tortura mental. Em todos os casos, é uma doença. Em nenhum deles é amor.

Poucas mulheres têm coragem de sair do relacionamento abusivo, de abandonar tudo e começar do zero. Poucas mulheres têm coragem de denunciar o abuso. A sociedade não oferece ainda recursos e proteção suficiente para essas mulheres.

Para finalizar vou ficar com a frase mais sensata que li nesses dias sobre o Dia Internacional da Mulher. A frase é do Mark:
“Me recuso a ficar dando feliz dia da mulher, desculpem, meninas… Porque assim, desde que uma pessoa me fez perceber que só existem dias específicos no ano para minorias subjugadas [que já foram ou que são até hoje], eu desisti dessa coisa.”

Digam olá…

Monday, March 13th, 2006

…ao mais novo membro de nossa família: Murilo, filho do meu irmão caçula, que nasceu hoje de madrugada.

Murilo

“Dorme, meu pai, sem cuidado…
Dorme que ao entardecer…
Teu filho sonha acordado…
Com o filho que ele quer ter.”

Nota: respondendo à pergunta: esse poema é um pedaço da letra da música “O filho que eu quero ter” de Toquinho e Vinícius de Moraes. Tinha que ser do poeta, né?

Esse Quam Videre

Sunday, March 12th, 2006

Numa das fotos que eu selecionei do PostSecret, no post anterior tem uma frase que me intrigou:
“esse quam videre”.

Ontem, quando escrevi o post sobre essas lindas imagens, eu estava em uma pausa de trabalho (sim, ainda trabalho de sábado à noite muitas vezes) e por isso não podia mergulhar em uma pesquisa sobre o significado da frase, porque eu sei que eu ia me perder na net e ficar horas e horas vagando na virtualidade. Então fiz essa pesquisa hoje.

A frase significa “ser o que se parece ser e não apenas parecer ser”. Essa é uma tradução minha, depois de cavoucar a web toda atrás de uma tradução que fizesse sentido e que só achei em inglês: “to be, rather than to seem” - “Ser, não parecer ser”.

Como vocês podem imaginar, o conceito realmente me fisgou de jeito e me fez refletir.

Para fechar o post, deixo duas fotos: uma de Jerry Uelsmann, um fotógrafo surreal e outra de Michał Karcz, um fotógrafo (fotógrafa?) extremamente expressionista. Ambos foram encontrados quando eu vagava em busca de material de estudo sobre fotografia. Os poloneses, por sinal, são fotógrafos e montadores muito interessantes.

Farei posteriormente uma análise mais detalhada. Eu ando com dataoverflow.

Jerry Uelsmann
Jerry Uelsmann

Michał Karcz
Michał Karcz

Mas o fotógrafo mais interessante que achei nesses dias vem do Flickr, que vem se revelando como uma preciosa fonte de informação visual. Sugiro vocês darem uma boa olhada nos meus favoritos do Flickr. Vale a pena.

Hopes and secrets

Saturday, March 11th, 2006

Visitor
vision
hiatus
enjoy
chance

Veja muito mais em PostSecret.

A Máquina

Thursday, March 9th, 2006

Fui assistir “A Máquina” na Cabine do Robocop, cortesia do Julio, meu editor no Digestivo Cultural.

Primeiro, umas explicações: “cabine” é uma sessão privé de cinema, num escritório chique de uma distribuidora de cinema igualmente chique, num prédio ainda mais chique - o Robocop é um edifício ultramoderno megalomaníaco todo prateado, aqui perto, na Nações Unidas. Eu me perdi para chegar lá porque eu não sabia que era no Robocop, eu tinha o endereço mas a Nações Unidas, apesar de ser uma avenida quilométrica, não tem numeração sequencial - provavelmente para as pessoas se perderem mais. Bom, cheguei lá depois de me perder, descobri que era mais perto da minha casa do que eu pensei ao olhar no mapa da cidade, atravessei um hall de mármore e granito, peguei um elevador supersônico e fui para o 12º andar.

Há uns tempos atrás “O Auto da Compadecida” (dois milhões de espectadores) e “Lisbela e o Prisioneiro” (três milhões e meio de espectadores), ambos de Guel Arraes, foram um grande sucesso do cinema nacional. O Auto nasceu como minissérie da TV Globo e depois foi transformado em filme pela Globo Filmes justamente devido ao grande sucesso da minissérie. Guel Arraes é um competente diretor e filho do ex-governador cearense de Pernambuco Miguel Arraes. Foi o criador do sucesso de TV “Armação Ilimitada”.

“A Máquina” é de João Falcão com produção de Diler Trindade (com a primorosa fotografia do diretor pernambucano Walter Carvalho). Conta a história de uma mocinha que quer ir embora da cidade de “Nordestina” e ser atriz e um rapaz que, apaixonado por ela, resolve fazer alguma coisa para “trazer o mundo para Nordestina”. O filme é um encanto, tem um texto saboroso - embora ainda seja numa quantidade pra lá de verborrágica - e um audiovisual lindo. Como se trata de uma adaptação de uma peça teatral, optou-se por fazer todos os sets da cidade de Nordestina em estúdio, com uma linguagem visual teatral. Nordestina é teatro, o mundo exterior é mundo real. “A Máquina” é um lindo filme, com um roteiro redondo que entretém e causa sorrisos de satisfação - eu penso que podia ser um pouco menos arrastado e tem um defeito de roteiro, não conta o que aconteceu com a ambição da personagem feminina em se tornar atriz, mas dá para relevar esses dois problemas diante da qualidade do filme.

Vou colocar no mesmo balaio mais dois filmes que eu assisti, que são belíssimos, redondos e que estão fazendo sucesso de público: “Cinema, Aspirina e Urubus” e “Cidade Baixa”, o primeiro, pernambucano, e o segundo, baiano. Novamente, dois lindos filmes, com fotografia primorosa, bom roteiro, interpretações ótimas. Assim como “A Máquina”, os dois têm colecionado prêmios importantes e agradam ao público.

Muito bem, por que estou escrevendo tudo isso? Porque eu li uma crítica massacrante ao filme “A Máquina” em uma revista de cinema online daquelas que ganhariam o selo “somos uma revista cheia de especialistas doutores que sabemos do que estamos falando embora nunca tenhamos pisado em um set de cinema”. O autor da crítica comparou o filme de João Falcão com os filmes de Guel Arraes, dando mais pontos para Guel Arraes. Um dos argumentos do senhor crítico de cinema é de que esse “formato” já “cansou”.

Cansou quem? Só se for o senhor crítico, porque a platéia não me parece nada cansada.

A mim parece, sinceramente, que existe uma inveja horrível de alguns senhores intelectuais da região Sul-Sudeste com filmes de origem Norte-Nordeste. Senti na tal mencionada crítica um ranso danado de mentalidade colonial anti-cultura nordestina. E daí que “A Máquina” traz uma linguagem teatral nordestina? E daí que os filmes de Guel Arraes assim como os de produção da Diler tem apoio da Globo Filmes? E daí que a estética da luz solar e das cores contrastadas do cinema nordestino fazem sucesso? O que é que incomoda esses senhores intelectuais? Que não tenhamos filmes com cara de Woody Allen filmando em Manhatan? Que os outros filmes que fazem sucesso de público sejam, por exemplo, “Se Eu Fosse Você” do Daniel Filho e “Dois Filhos de Francisco” de Breno Silveira, para os quais os intelectuais torcem o nariz porque o primeiro é subproduto da televisão e o segundo da música sertaneja?

É isso mesmo, senhores intelectuais do Sul-Sudeste, os filmes nordestinos continuam dominando a atenção do público brasileiro. Faz todo sentido cultural e é merecido. Infelizmente para os intelectuais “sulistas” o cinema brasileiro autoral nasceu lá na Bahia e não no eixo Rio-São Paulo. Infelizmente para os intelectuais sulistas, a maioria da população brasileira é de alma nordestina, ainda que more no eixo sul-sudeste e gosta dessas coisas populares que irritam os intelectuais sulistas: cordel, maracatu, axé, farinha d’água, tapioca, açaí, música sertaneja, TV Globo, O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro, A Máquina, Cidade Baixa, Cinema, Aspirinas e Urubus, Se Eu Fosse Você e Dois Filhos de Francisco.

Preconceito cultural me irrita. Paternalismo cultural me irrita.

“A Máquina” é um filme delicioso. Tem lá seus defeitos, mas ainda assim, valeu a pena assistir, é lindo, eu me diverti e curti um filme muito bem feito e saboroso. Recomendo.

Há algo de novo nos prêmios da Academia

Monday, March 6th, 2006

O Oscar vem deixando de ser apenas mais uma premiação de cinema e se tornando cada vez mais um prêmio político - e previsível. As nomeações e premiações tem acompanhado o Golden Globe sempre de perto: muitos dos indicados são os mesmos, muitos dos premiados são os mesmos. A cada ano, os prêmios parecem ser mais e mais “politicamente” distribuídos para agradar à platéia e aos próprios membros da Academia. Não é a toa que George Clooney, primeiro premiado da noite de ontem como ator coadjuvante em Syryana, subiu ao palco, pegou sua estatueta e soltou “isso significa que eu não ganhei como diretor”. Todo mundo já conhece as regras do jogo. Não há surpresas.

Na categoria de melhor filme ganhou “Crash” e não os cowboys gays de “Brokeback Mountain”. Brokeback Mountain levou o Golden Globe e o Independent Spirit Awards (ISA). Talvez Crash tenha vencido não apenas por ser um belíssimo filme, mas pela temática complexa envolvendo intolerância e preconceito. Crash, basicamente, mostra uma panela de pressão social prestes a explodir da pior maneira possível - e a Academia reconheceu o problema, preferindo esse tema mais amplo aos dramas amorosos e existenciais dos cowboys gays. O tema homossexual tem levado prêmios nos últimos anos - na cerimônia do Golden Globe o elenco de “Will and Grace” até fez uma piada sobre isso, dando como fórmula certa de sucesso a presença de gays na história - e talvez esse fator também tenha influenciado na decisão. Ang Lee estava surpreso de seu filme levar prêmio de direção e não levar melhor filme, mas a Academia procurou equilibrar os prêmios entre os dois filmes: cada um levou um prêmio de roteiro, Crash ganhou de montagem e Brokeback Mountain de trilha sonora. Tecnicamente, a Academia empatou os dois filmes.

Ainda na linha do politicamente correto, o prêmio de melhor canção original foi para “It’s Hard Out Here For a Pimp”, literalmente, “o mundo aí fora é duro para um cafetão”, a canção tema do filme “Hustle & Flow” que conta a história de um negro que é cafetão mas quer ser cantor de rap. Será que só eu vi que esse prêmio, ao contrário de ser uma espécie de “correção política” com negros - normalmente ignorados ou paternalizados pela Academia - tem uma ligeira provocação? Corrijam-me se eu estiver errada, mas por que os negros ganharam um prêmio secundário - melhor canção faz parte do pacote de prêmios técnicos que a Academia usa como “prêmio de consolação” para premiar os filmes que não recebem os prêmios principais - com um filme com essa temática? Falta de filmes “negros” melhores? Onde anda Spike Lee? Em Hollywood, até hoje, os negros - e também os latinos - continuam aparecendo na tela como empregados, bandidos, viciados, traficantes, objeto sexual (vejam Catwoman com Halle Berry) e não em “papéis regulares” - todos sempre dados a atores brancos. O apartheid cinematográfico hollywoodiano mudou muito pouco em quase 100 anos de cinema. O prêmio para “Hustle & Flow” colide de frente com o prêmio de melhor filme que Crash recebeu. Se por um lado, a Academia reconhece os muitos problemas urbanos de conflitos raciais e intolerância, por outro lado, premia um filme onde o negro continua ocupando o papel social que os brancos lhe permitem ocupar: cafetão e cantor de rap. Dá-lhe pão e circo.

Felicity Huffman levou o Golden Globe e o ISA e Reese Witherspoon levou o Golden Globe (o prêmio tem categorias separadas para “drama” e “comédia” e assim, premiou as duas) e o Oscar. Novamente, apesar do brilhante trabalho de intrepretação de Felicity, no papel de um homem transexual, eu me pergunto até onde ela foi ou não foi premiada por uma questão política, justamente por causa do personagem. Reese interpretando a esposa de Johnny Cash é muito mais palatável para a Academia - e para a audiência. Laura Jean Reese Witherspoon - seu nome completo - é a americana “girl next door”, a vizinha da casa ao lado no subúrbio de casinhas com gramado e cercas brancas, caucasiana, loira, bonita, saudável, sorridente. Um “role model” para todas as garotas americanas. Os pais da América devem ter babado de orgulho com o prêmio. É uma pena, porque “Walk the Line” tem uma linda história real atrás do filme. Johnny Cash e June Carter Cash viveram um romance pela vida toda, foram dois talentos imensos, escolheram quem seriam os atores protagonistas do filme e acompanharam as filmagens até falecerem, pouco depois de iniciada a produção do filme. June faleceu em 15 de maio de 2003, após uma cirurgia de coração e Johnny em 12 de setembro de 2003, de complicações de diabetes. Meses antes de June falecer, Johnny havia gravado uma versão da música “Hurt” de Trent Reznor (NIN) e feito um videoclipe com Mark Romanek (responsável por vários clipes do NIN e os mais belos clipes de Madonna). O videoclip é maravilhoso, mostra Johnny e June em sua casa, cercados por objetos e fotografias de suas vidas e o refrão da letra canta “What have I become? /My sweetest friend /Everyone I know /Goes away in the end”. O video recebeu um Grammy. O impacto da música e do vídeo foram tão grandes que Reznor passou a se referir à canção como “a música que não é mais minha”.

O argentino Gustavo Santaolalla levou o Oscar de melhor música original escrita para um filme, o que me pareceu mais uma espécie de “ajuste de contas” da Academia, uma vez que, com “Diários de Motocicleta” ele levou o prêmio (junto com Jorge Drexler) mas não lhe permitiram cantar a música na festa. É mais um “statement” dizendo “olha, nós reconhecemos que você é bom, desculpe qualquer coisa”.

Philip Seymour Hoffman levou o Golden Globe, o ISA e o Oscar por “Capote”. É um grande ator, merece reconhecimento, pena que não tenha sido indicado ou vencido anteriormente por filmes magníficos como “Magnólia”, “Punch Drunk Love”, “Almost Famous”, “Boogie Nights” e “Love Liza”. Em todos esses filmes suas performances foram muito mais brilhantes e memoráveis do que o caricato Capote. Mas eu ando com a impressão de que um ator, para ganhar um prêmio da Academia, desde 2000, precisa estar mesmo caricato, usando toneladas de maquiagem, travestido, ou ainda, interpretando outra pessoa famosa ou a vítima de uma desgraça. Em 2001 foi o ano do “acerto de contas com os negros”: Denzel Washington e Halle Berry levaram o prêmio. Depois disso, Charlize Theron e Nicole Kidman foram premiadas quando disfarçadas de mulheres feias, Jamie Foxx ganhou intrepretando Ray Charles, Hilary Swank ganhou duas vezes, uma travestida de homem e a segunda, como uma boxeadora que se torna tetraplégica, Adrien Brody como um pianista judeu e Sean Penn como o mafioso cuja filha morre. Sem tirar o mérito de nenhum deles - menos de Nicole Kidman, que, como todos sabem, eu penso que possui a dramaticidade de um legume - eu fico desconfiada com os critérios da Academia. Nos mesmos anos, os demais concorrentes ao prêmio eram igualmente brilhantes e vários deles deveriam ter levado: eu preferia que Ed Harris tivesse levado por Pollock, Julianne Moore tivesse levado por “End of Affair”, Renée Zellweger por Chicago, Tom Cruise levasse por Magnolia, só para citar alguns exemplos.

Tim Burton concorreu em categorias técnicas com a “Fábrica de Chocolate” e com a “Noiva Cadáver” e não levou nada. Quem levou foi “Wallace & Gromit”, com o comentário de que eles mereciam mais porque tinham perdido o estúdio inteiro em um incêndio - é possível mesmo que tenham levado o prêmio por essa razão, a Academia faz essas coisas. Tecnicamente, os dois desenhos possuem a mesma competência e Hayao Miyazaki já tinha levado um Oscar com “Chihiro”.

George Lucas está em franca decadência com a Academia. Não apenas não foi indicado como perdeu na única indicação: Episódio 3 só recebeu nomeação para melhor maquiagem mas “Crônicas de Narnia” levou o prêmio. A turma de Peter Jackson em King Kong foi indicada para 4 prêmios e levou 3 - é a mesma turma do oscarizado “Senhor dos Anéis”. A Industrial Light and Magic já foi indicada dúzias de vezes desde sua criação, no total, mais de 100 pessoas que trabalham ou trabalharam para a ILM já levaram a estatueta em diversas categorias associadas à área técnica. Lucas foi indicado duas vezes ao Oscar de melhor diretor, não levou mas já recebeu um “Irving G. Thalberg Memorial Award” por ter sido um talento precoce - talvez não receba mais prêmios, até o ponto que a Academia considere que está velho o suficiente para ganhar um prêmio de mérito, como o que Robert Altman recebeu ontem. Altman fez um delicioso discurso de agradecimento, onde contou que recebeu o transplante de coração de uma jovem de 30 anos de idade e que, por isso, ninguém espere que ele vá morrer logo, não.

Ang Lee levou os três prêmios de melhor diretor: O Golden Globe, o ISA e o Oscar. Teve gente que reclamou que Ang Lee agora é “establishment”, então, a premiação não vale. Vamos a um “reality check”: Ang Lee é chinês de Taiwan e aparece nomeado ou premiado com os filmes que fez em terras hollywoodianas ou em co-produção com Hollywood - nenhum dos filmes dele que já foram nomeados ou ganharam Oscars são 100% produção chinesa. Lee é o primeiro asiático a receber um Oscar de melhor diretor, é fato, mas o Oscar é um prêmio estadunidense para filmes estadunidenses. “Memórias de uma Gueixa”, por exemplo, não é um filme chinês ou japonês, só o tema é que é, é um filme 100% estadunidense com direito a trilha de John Williams (que, por sinal, foi indicado ao Oscar mas não levou). Aliás, mais um reality check para quem “vibrou” com o fato de Rachel Weisz ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante por “The Constant Gardener”: o diretor e o cinematógrafo são brasileiros, mas o filme é uma co-produção inglesa/alemã. O prêmio não é “nosso”, como já vi algumas pessoas comentarem. É deles, bem deles. O “Jardineiro” faturou alguns prêmios bem mais interessantes que o Oscar.

Ao menos, não estamos sozinhos nesses surtos patrióticos movidos pelo prêmio estadunidense: o presidente de Taiwan soltou um comunicado oficial hoje de manhã dizendo que “Ang Lee é a glória de Taiwan e estamos muito orgulhosos dele”. O reality check de Taiwan aparece na continuação da nota: “Nossas maiores felicitações para Ang Lee por ter injetado vitalidade aos diretores taiuaneses e contribuir grandemente para a indústria cinematográfica mundial”. Sim, esse é o feito: abrir caminho para que o talento de diretores de outras nacionalidades que não a estadunidense sejam premiada com o prêmio estadunidense, abrir espaço no mercado de cinema estadunidense para os não-estadunidenses. A importância mundial dada ao Oscar reflete uma realidade sócio-econômica que ultrapassa a indústria cinematográfica e que fez com que o Oscar não seja mais um prêmio puramente cinematográfico. Todos queremos que a maior potência mundial - perigosa, que joga bombas nos países dos quais não gosta - reconheçam o talento dos cineastas de outras nacionalidades e abram mercado para os outros países em sua eficiente indústria cinematográfica.

leia mais:
- Oscar 2006
- ISA 2006
- Golden Globe 2006

Sobre a canção e o video “Hurt”:
- “Hurt”- Song
- Site de Mark Romanek
- Veja o video no site da gravadora de Johnny Cash