Chás de April, 2006
Tudo aquilo que eu não consegui dizer
Tuesday, April 25th, 2006A cabeça está cheia e eu preciso sair. Meu quarto sempre reflete o tamanho do caos do meu pensamento. No momento, o caos não poderia ser maior. Eu poderia fazer umas fotos – até pensei nisso – mas daí viria uma vontade irresistível de postar essas fotos e o que poderia acontecer se eu postasse? As pessoas iriam formar pensamentos de julgamento. Os tempos estão mais difíceis do que nunca, existe mais do que antes um patrulhamento ideológico da pior natureza. Eu gosto de ser eu mesma, eu sempre gostei e tenho gostado mais do que nunca. E como várias outras vezes aqui pelo chá, vocês me vêem cansada.
Eu não quero ser superficial, eu não quero ser medíocre, eu não quero ficar sorrindo para sair bonita na fotografia.
Agora é tarde, eu fotografei o meu caos.
“We couldn’t make them
we had to break them
Words that we couldn’t say“
Quadros desconcertantes numa exposição
Tuesday, April 25th, 2006Um americano mostra uma foto de sua recente viagem de férias ao Japão. A foto é de um hidrante de metal vermelho todo enferrujado com uma inscrição em japonês. O americano escreveu na foto com caneta, como um memento: “the wild side of Japan”.
Uma outra foto de férias mostra a família toda sorridente com camisas floridas coloridas e óculos escuros comendo cheeseburgers acompanhados de coquetéis com mini-guarda-chuvas. Na foto está escrita uma palavra: “yay!”.
O espanhol, em compensação, mostra uma foto dele mesmo com seus bigodes dalinianos numa mesa de karaoke tomando sake com duas japonesas seminuas no colo. A foto não tem legenda.
Now listening: Dzihan & Kamien – Airport
Estrela Solitária: o título é terrível mas o filme é um Wim Wenders
Monday, April 24th, 2006
Parece que só Cannes e eu gostamos do novo filme de Wim Wenders, pelo menos foi essa a minha impressão diante do grande volume de críticas negativas que eu li.
Eu posso entender por que no Brasil deram ao novo filme de Wim Wenders o nome de Estrela Solitária, a referência remete à expressão Lone Star, muito usada nos Estados Unidos para designar o cowboy, o ranger, o herói solitário em sua jornada contra malfeitores pelo velho oeste norte-americano. Infelizmente o nome é uma escolha ruim de doer para o filme de Wenders.
A confusão começou no Brasil quando o personagem de um famoso programa de rádio americano, chamado O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger) foi chamado de Zorro por aqui, apesar de obviamente não ser o mesmo personagem. É por isso que muita gente acredita que Zorro tem um amigo índio chamado Tonto ou um cavalo chamado Silver mas os dois pertencem ao ranger John Reid, o Cavaleiro Solitário. A distribuidora deve ter pensado que chamar o filme de Wenders de Estrela Solitária poderia evocar os velhos filmes de cowboy – mas só se for para quem já tem mais de sessenta anos, as novas gerações não conhecem a referência. Para completar a confusão, Estrela Solitária é o subtítulo do filme brasileiro sobre Garrincha.
Problemas com o título à parte, Don’t Come Knocking (literalmente, não chegue batendo, numa alusão à personalidade do protagonista e a forma como ele sai abordando as pessoas) de Wim Wenders é um filme magnífico. Faz parte daquela coleção que normalmente eu chamo de filmes que deveriam ser indicados para QI mínimo de 120: não é para a platéia normal, que vai odiar o filme, achar lento, chato, arrastado e não vai entender nada. O filme requer contemplação (as imagens são belíssimas), requer atenção (a trama é complexa), requer reflexão (a cada cena uma questão existencialista espinhosa é proposta).
Sam Shepard, que escreveu o roteiro, interpreta Howard, um ator decadente de filmes de faroeste. O filme começa no set de filmagens de mais um faroeste que Howard estava fazendo, de onde ele fugiu. Tim Roth vai sair atrás de Howard por metade do país, com seu jeitão sou um agente da Matrix discreto, para levar o ator de volta ao set e fazê-lo cumprir seu contrato. Howard decidiu abandonar a filmagem devido a uma crise pessoal, viaja até sua cidade de origem onde sua mãe irá lhe contar que ele tem um filho.
O filme propõe uma reflexão sobre a decadência: a decadência dos antigos modelos americanos de herói, a decadência do ator de filmes de velho oeste, a decadência do cinema americano, a decadência da própria cultura americana como um todo. Na cidade da mãe, Howard vai até um cassino e termina preso pela polícia: um dos policiais o chama de cowboy de forma sarcástica.
O filme também faz contraponto entre realidade e ficção: a mãe de Howard acredita em tudo que lê sobre o filho nas revistas de fofoca de cinema, Howard se confunde com seu eterno personagem de cowboy, a mística e o dinheiro de Hollywood são questionados o tempo todo. As personagens de Jessica Lange e Sarah Polley dialogam sobre o contraste entre o universo do cinema com a realidade: Jessica diz que um dia vieram fazer um filme na cidade mas depois que todos foram embora, a cidade voltou ao que era antes, nada mudou; Sarah diz que adoraria poder viver em um filme porque nos filmes tudo é sempre mais bonito.
O principal foco de Don’t Come Knocking, entretanto, são os relacionamentos humanos, especialmente os familiares. Wim Wenders é um eterno apaixonado pelo ser humano e sua relação com o mundo – e com outros seres humanos. Há confrontos de todos os lados, mostrando uma incapacidade generalizada dos personagens de se relacionarem entre si: Howard é tratado pela mãe como se fosse criança, Howard não se casou, seu filho recém-descoberto não o aceita. A chamada família disfuncional que era considerada uma exceção dentro do universo perfeito do american way of life transformou-se em regra; raro hoje é encontrar a típica família americana.
Eu confesso que não sou uma grande fã de Wenders, ainda prefiro o amigo dele Jim Jarmusch, mas ainda assim, vale a pena assistir Don’t Come Knocking, é um excelente filme que merece ser visto mais de uma vez.
Links:
Site Oficial do Filme
O Cavaleiro Solitário que não era o Zorro
A idéia é boa mas a realização…
Friday, April 21st, 2006Eu pensei que eu já tivesse visto de tudo na vida. Pensei que nada no mundo iria superar algumas das coisas trash que eu já assisti. Pois bem, eu estava enganada.
Primeiro algumas explicações. Como todas as pessoas do mundo, eu tenho um lado negro, o meu lado negro chama-se “cinema trash”. Vejam bem, kids, eu AMO cinema trash.
Já assistiram The Raven (1963) com Vincent Price? E que tal The Abominable Dr. Phibes (1971)? Não? Não sabem o que estão perdendo. Imagino que já ouviram falar de Ed Wood, ao menos do filme de Tim Burton. Pois precisam assistir Glen or Glenda (1953). Conhecem John Waters? O meu favorito é Serial Mom (1994). Eu adoro Wes Craven. Sou fã de Johnny Depp há décadas porque eu o vi pela primeira vez em A Nightmare On Elm Street (1984), série que eu tive o prazer de assistir completa e da qual meu filme favorito é Freddy’s Dead: The Final Nightmare (1991) por causa da seqüência de pesadelo onde a “vítima da vez” está numa casa maluca conversando com o personagem de Johnny Depp, que aparece na TV.
Eu sou fã de John Carpenter, meu favorito é Vampires (1998). Para mim, Fright Night (1985) é um clássico do horror trash anos 80 que fica ainda mais trash em Fright Night Part 2 (1988) com a dança vampiresca cafonérrima da vampira Régine (Julie Carmen).
Sentiram o drama?
Existe qualidade nesses exemplos que eu dei. São filmes que possuem beleza estética, roteiros interessantes, é cinema bem executado, tanto que vários deles foram sucessos de público. A luz noir e o expressionismo dos filmes de horror PB de Vincent Price são magníficos. A série Fright Night é um resumo do que acontecia na década de 80, com as cores, os cabelos, as roupas, as personagens da década de 80. Nada mais adequado na era em que a AIDS surgiu no mundo do que um surto de filmes vampirescos ambientados em danceterias. Wes Craven realizou o que eu considero uma série de filmes surrealistas onde o tema onírico recebe um tratamento de primeira linha, especialmente depois do sucesso da série de Freddie, recheado de efeitos especiais para compor esse universo de pesadelos com mais eficiência. John Carpenter transforma os filmes de vampiros em faroestes filmados à luz dos finais de tarde. John Waters é provavelmente um dos mais sarcásticos críticos da cultura kitsch norte-americana tendo o travesti Divine como seu principal personagem. Só que todos eles são trash, incrivelmente trash, sem orçamento, sem apoio inicial dos estúdios, sem distribuição. Wes Craven só conquistou crédito depois da bilheteria do primeiro Freddie. John Waters permaneceu independente, mesmo com o sucesso de Serial Mom. Se ficaram convencidos e quiserem mais, recomendo esse site: Cool Cinema Trash.
Hoje fez um lindo dia de feriado com cara de sábado, eu tenho alguns trabalhos para terminar mas fiz uma pausa à tarde e resolvi ver um pouco de TV a cabo. Esbarrei com uma bizarrice sem fim chamada It’s Pat. O filme já estava começado, atraiu a minha curiosidade. Assisti inteiro.
“It’s Pat” é um skit de Saturday Night Life que foi transformado em longa metragem. O filme é de 1994. Tem Dave Foley, que eu adoro, não perdia um episódio de NewsRadio por causa dele. Tem a chatíssima Kathy Griffin, a ruiva que enlouquecia a eterna boazinha Brooke Shields em Suddenly Susan. Tem Kathy Najimy, uma comediante de excelente timing. Tem uma rápida ponta de Harvey Keitel fazendo um padre, no final do filme. Tem até Camille Paglia dando uma entrevista e falando sobre androginia. E consta na trivia do filme – pasmem! – que Quentin Tarantino ajudou a escrever o roteiro!!
Meudeus, como esse filme é ruim. É um lixo atômico de tão ruim. É tão ruim que foi indicado a 5 Framboesas de Ouro (pior filme, pior atriz, pior nova celebridade, pior casal romântico e pior roteiro) e não ganhou nenhum. Teve um concorrente de peso, é verdade, Showgirls (1995) de Paul Verhoeven, que ganhou pior atriz, pior roteiro, pior filme, pior diretor e vários outras categorias. Verhoeven foi receber o prêmio pessoalmente, sendo o primeiro diretor vencedor em toda a história do prêmio a comparecer na cerimônia.
Chris and Pat

O plot é simples: tem esse “cara” chamado Pat, que parece ser do gênero masculino mas não dá pra dizer com certeza e é interpretado pela atriz Julia Sweeney coberta de próteses de borracha para fisicamente parecer “um cara gordo”, com peruca, sobrancelhas postiças e óculos. Tem uma “garota” chamada Chris, interpretada ótimamente por Dave Foley de peruca loira e batom vestindo um figurino largo sempre cobrindo o corpo todo. Tem um vizinho, Kyle, que fica cismado com aquela bizarrice. A cisma de Kyle se transforma lentamente numa obsessão em descobrir a verdade por trás daquela criatura estranha. Pat mantém um diário trancado com senha em um laptop que parece um computador de brinquedo. Pat e Chris estão para ficar noivos. Kyle faz de tudo pra descobrir o que é que está rolando.
O problema é que “Pat” é um personagem que foi criado para um skit e não para um filme. No skit, a piada toda girava em torno do fato de que ninguém sabe dizer se Pat é um cara gordo que parece uma mulher feia ou uma mulher feia se passando por um cara gordo. “Pat” pretende fazer piada com aquela androginia que foi característica dos anos 80 mas foi produzido com uma década de atraso e não desenvolve o tema, não desenvolve a piada.
Vamos esquecer por um minuto que “Pat” é uma bobagem. Agora vamos imaginar que esse fosse um filme dirigido por outra pessoa. John Waters, por exemplo, ou David Lynch.
Era uma vez uma pessoa chamada Pat. Não sabemos o gênero dessa pessoa, mas parece uma mulher feia e gorda muito masculinizada ou um cara gordo desprovido de hormônios masculinos. Então temos Chris, que parece uma mulher muito sem sal, ou um cara vestido com as roupas da tia. Eles moram sozinhos, cada um em um apartamento cubículo. Chris assiste novelas da tarde e chora, emocionada. Pat trabalha numa loja de conveniência e faz piadas sem graça para os clientes. Os dois se conhecem no pátio do prédio, em frente à piscina rodeada de flamingos rosa. Começam um relacionamento. Ambos têm essa bizarrice em comum. As pessoas que convivem com eles ficam intrigadas e desejando saber quem é o quê. E a trama se complica.
Se fosse um filme de John Waters, depois de uma meia hora de filme, ele nos contaria que se trata de uma farsa, que Pat é uma garota travestida de cara e Chris é um cara travestido de garota. Provavelmente Waters adicionaria pais neuróticos para Pat, trabalhadores de classe baixa que moram em uma casinha de subúrbio e uma mãe possessiva para Chris que vive vestida de tailleurs rosa (podia ser a Debbie Reynolds, ficaria ótimo). Pat e Chris não querem contar um para o outro quem realmente são, com medo de perder o amor da sua cara-metade. Só que o romance vai ficando sério. Finalmente decidem contar e descobrem que são feitos um para o outro. As famílias enlouquecem com o anúncio do casamento. Ficam se tratando de forma constrangida porque não sabem se a outra família sabe do “segredo” do filho/filha nem se os próprios filhos sabem do “segredo” um do outro. Seria uma comédia de rolar de rir.
Agora imaginemos o filme na mão de David Lynch. Kyle MacLachlan (que, por sinal, ganhou um Framboesa de Ouro de pior ator por ShowGirls) seria o vizinho que decide investigar o casal bizarro. Pat seria um anão gordo com um bigode falso, Chris seria uma magricela gigante de peruca. Teríamos várias cenas de sugestão de perversões de ambas as partes. O síndico do prédio seria um sujeito que só veste terno preto e cospe tabaco pelos cantos. A mãe de Chris teria problemas com bebida (de novo, Debbie Reynolds me parece uma excelente opção para esse papel). O pai de Pat seria um ex-policial gay enrustido. Alguém morreria na piscina do condomínio lá pela metade do filme e voltaria em sonhos para conversar com Kyle MacLachlan. Faltando uns 20 minutos para acabar o filme, Kyle MacLachlan descobriria toda a verdade falando com o fantasma da piscina, Pat e Chris o matariam com uma pá, enterrariam no bosque próximo, fugiriam durante a noite, casariam em uma capela de Las Vegas e abririam uma funerária.
É uma pena. Até Adam Sandler teria feito de “It’s Pat” um filme melhor. Que desperdício.
Conversando com Nelson Pereira dos Santos
Wednesday, April 19th, 2006
A história de hoje começa com um email recebido notificando uma “Cabine”, ou seja, uma sessão fechada para a imprensa, do filme “Brasília 18%” acompanhada uma nota que chamou minha atenção: “estamos agendando entrevistas com o elenco e com o diretor do filme, Nelson Pereira dos Santos”.
Nelson Pereira dos Santos é um dos diretores mais importantes do cinema brasileiro com uma longa filmografia. Seu primeiro filme foi Rio 40 Graus (1955), que ele escreveu, produziu e dirigiu de forma independente, através de um sistema de cotas divididas entre os interessados na produção, numa era que as grandes produções cinematográficas brasileiras se limitavam às chanchadas da Atlântida e outros filmes de estúdio. Influenciado pelo neo-realismo italiando fez um filme quase documentário, focando um dia na vida de vendedores de amendoim tendo como cenário as praias do Rio de Janeiro. A polêmica com o tema foi grande, o filme foi censurado mas conquistou diversos prêmios e a simpatia do público.
Nelson sempre demonstrou paixão pela literatura: filmou Guimarães Rosa (A Terceira Margem do Rio/1994), Machado de Assis (O Alienista/1970 e A Missa do Galo/1982), Graciliano Ramos (Vidas Secas/1963 e Memórias do Cárcere/1984), Jorge Amado (Tenda dos Milagres/1977) e até Gilberto Freyre (Casa-Grande e Senzala/2000). Seus filmes foram premiados em Cannes, em Gramado e vários outros festivais. É o diretor que criou o cinema autoral no Brasil e foi considerado por Glauber um dos fundadores do Cinema Novo – o que ele já negou várias vezes, atribuindo essa fama a uma das várias provocações que Glauber Rocha fazia com a mídia. Brincadeira ou não, há um reconhecimento da importância de Nelson e desde o ano passado ele é imortal: é o primeiro cineasta a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Eu queria muito entrevistar Nelson. É o que se chama de “oportunidade de uma vida”. Então começamos o processo de solicitação e agendamento da entrevista, com o Mark, editor da Paradoxo, trocando emails com a assessoria de imprensa do filme. Enquanto os emails fluiam, fui assistir “Brasília 18%” na cabine.
Na segunda-feira dia 10 de abril veio finalmente o email de confirmação: minha entrevista com Nelson estava marcada para o dia 11 às 17 horas em um hotel na Avenida Paulista.
Pela manhã fui assistir o novo filme de Win Wender. Eu adoro Win Wenders, o novo filme dele fala de cowboys e de cinema – o que me pareceu apropriado, já que à tarde eu entrevistaria o responsável por um dos melhores bangue-bangue sertanejos, Mandacaru Vermelho (1960) mas falarei sobre isso em outra oportunidade.
Enquanto eu aguardava o Nelson, tomava café e comia uns sanduíches cor-de-rosa que serviram, conversei Mônica Keiko, atriz estreante que faz o papel de uma prostituta adolescente na trama política de “Brasília 18%”. Mônica, conversando comigo, não teve medo de responder à minha pergunta provocativa: “você já tinha ouvido falar do Nelson antes de ser chamada para fazer um filme dele?” A linda menina sorriu e confessou que não, que conhecia de nome mas não sabia bem quem era. Assim que foi escalada, fez uma pesquisa e sentiu um frio no estômago ao descobrir quem era o diretor.

Finalmente meu horário chegou e entrei em uma sala com Nelson, um poster do filme, uma mesa e duas cadeiras. Nelson já tinha atendido mais de uma dúzia de jornalistas. Primeiro, ele se sentou ao meu lado esquerdo, mas trocou de lado:
- Vou sentar desse lado aqui que eu escuto melhor desse ouvido – disse ele, sentando-se na frente do poster. Nada como conhecer bem a rotina para escolher o melhor local para sentar e proporcionar uma boa foto promocional do filme!
Dani – Nelson, como é ser um ícone do cinema e um imortal?
Nelson – (risos) Pois é, agora eu vou tomar chá na Academia.
Dani – Vai discutir poesia com o Sarney? Falar de Guimarães Rosa com ele?
Nelson – Pois é, pois é… eu não tomei posse ainda, ainda vai ter a posse. Só depois disso que eu vou participar dos chazinhos. Sabe que fizeram uma festa pra mim que foi até as quatro da manhã? Até hoje não me recuperei.
Dani – Mas como é o ícone e imortal Nelson Pereira dos Santos? É muito diferente do homem? Do cineasta?
Nelson – Eu não penso nisso, sabia? Para mim não mudou nada. Não me vejo como ícone. Essa história de imortal é engraçada.
Dani – Mas como não? Você é uma referência para o cinema nacional!
Nelson – Referência? Não sei. Não quero saber, deixo isso para os estudiosos. Eu sempre fiz os filmes porque eu queria fazer. Porque eu gostava de fazer. Eu gostei muito de fazer cada um dos meus filmes.
Dani – Você abraçou a aventura do cinema independente, desde o início da sua carreira, Glauber diz que você criou o cinema novo…
Nelson – Ninguém queria produzir os meus filmes, eu tive que montar meu esquema de produção. Mas apesar disso, muitos dos meus filmes foram sucesso de público. E o Glauber… o Glauber provocava muito as pessoas.
Dani – Você passou onze anos fazendo apenas documentários. O que fez você decidir voltar à ficção?
Nelson – Fiquei com vontade. Basicamente eu filmo as coisas que tenho vontade, eu tinha esse roteiro meio escrito desde 1993, resolvi terminar de escrever e filmar.
Dani – Como estão sendo as pré-estréias e a repercussão?
Nelson – Está sendo ótimo.
Dani – Eu estava conversando ali no corredor, me contaram que na estréia em Brasília rolavam uns olhares e umas risadinhas nervosas por causa da trama do filme.
Nelson – Não vi essas coisas, mas deve ter acontecido mesmo. A trama é polêmica. Eu tive a sorte de ter um roteiro muito bom e de repente o tema do filme voltou a ser atual, com as recentes CPIs. O mais importante em um filme é o roteiro. Eu comecei o roteiro em 1993, o filme foi encaminhando, porque demora pra encaminhar, e justamente agora que saiu, estamos nesse momento político.
Dani – A história do filme permaneceu atual, mesmo dez anos depois.
Nelson – A política no Brasil ainda é a mesma, com os mesmos problemas.
Dani – Quais são seus próximos projetos?
Nelson – Um documentário sobre Tom Jobim, que estou devendo faz tempo. Eu adoro música. Eu vou me focar nos três grandes temas de Jobim: a mulher, o amor e a natureza.
Dani – Vai voltar aos documentários.
Nelson – Sempre. Eu adoro fazer. (pausa) Você assistiu o filme?
Dani – Assisti.
Nelson – Gostou?
Dani – Gostei, mas gostei muito mais de conhecer você em pessoa.
Nelson – Eu também gostei, essa entrevista está diferente.
Daí acabou meu tempo, eu me despedi, abracei o sorridente e imortal Nelson e saí ainda encantada com a linda figura dele. Nada como conhecer pessoalmente um imortal.
Brasília 18%
Filmar no Brasil é um problema. Aliás ser brasileiro e viver no Brasil é um problema. As pessoas não tem memória, a burocracia é absurda. Não é a toa que o filme mais surreal de Terri Gilliam, baseado no livro “1984” de George Orwel se chama “Brazil” – assim mesmo, com Z – e toca “Aquarela do Brasil” em vários trechos do filme. Brazil, meu Brazil surreal.
Brasília 18% não tem Aquarela do Brasil, mas tem todo o clima surreal do Brazil. Temos aquele clima estranho semi-árido do planalto central – a referência 18% é em relação à umidade relativa do ar na cidade-capital. Dizem que no inverno desovam-se os cadáveres no planalto, acobertados pelas chuvas. No verão, devido à seca, a polícia começa a encontrar os corpos.
É esse o mote inicial de Brasília 18% – um corpo de uma moça, uma assessora parlamentar encontrada morta. Na mão de outro diretor talvez tivéssemos um daqueles chatíssimos filmes-de-denúncia-brasileiros cheios de miséria para cá e para lá, vejam, esse é um país que não vai pra frente, a corja, a miséria, etc. Herança ainda do próprio Cinema Novo criado por Glauber e que Nelson já afirmou em diversas entrevistas que não assume a paternidade, não, muito obrigado.
A afirmativa faz sentido – Nelson sempre tem um olho mais humano e mais delicado para os problemas humanos dos brasileiros – e escapa da panfletagem que recheia os “filmes-denúncias”. Sem Nelson na direção talvez não tivéssemos a beleza de Bruna, Malu, Karine e Monika para apreciar, com seu olhar generoso com as mulheres, uma de suas paixões. Sem Nelson a paisagem talvez fosse menos árida. Sem Nelson o filme não pareceria filmado o tempo todo às 4 da tarde, aquela luz que deixa qualquer um que já tenha ido a Brasília com a impressão de vertigem que só a cidade-capital transmite. Sem Nelson não teríamos as seqüências de plano-contraplano em espelhos e reflexos de vidro de carros e nem diálogos em avião – que só quem já foi ao menos uma vez para Brasília de avião compreende a importância.
O filme que não é filme-denúncia termina denunciando algumas coisas que talvez não sejam intencionais. Uma delas é a crônica problemática do cinema nacional com seus processos burocráticos de apresentar 54 documentos acompanhados de planilhas para obter aprovação na lei do audiovisual. Como se fosse possivel alguém recusar a Nelson, produzido pela Videofilmes de Waltinho Salles a feitura desse filme. Só no Brazil, mesmo. A outra é que ainda existem algumas pessoas que acreditam que algum dia esse país vai melhorar, mesmo com CPIs, mesmo com o clima semi-árido da cidade-capital e as conversas de avião que decidem o destino de uma moça bonita ou de uma nação.
Links:
- Filmografia completa
- Prêmios conquistados pelos filmes de Nelson
Feliz Páscoa
Sunday, April 16th, 2006Que chocolate que nada. Estou atolada de trabalhos para a faculdade, para o curso de pós-graduação. E ainda preciso terminar de preparar o material para o próxima turma do curso que vou lecionar, que começa em duas semanas. Desejem-me sorte.

O Mauro pediu pra ver e aqui está.
Mostre você também o seu local de sonhos, invençoes, criações.
Guimarães Rosa e as aulas do professor Aguinaldo
Thursday, April 13th, 2006Eu imagino que deve ter muito mais gente por aí, talvez lendo isso aqui agora mesmo, que tenha sido aluno do professor Aguinaldo. O professor deu aula de literatura no colégio Equipe e na Universidade Mackenzie, durante a década de 80. Eu tinha uns quinze anos quando comecei a ter aulas com ele no colégio.
Assistir às aulas do Professor Aguinaldo era um universo à parte. Até hoje, vejo as pessoas falarem de literatura como se fosse alguma coisa árida, mítica, encriptada ou sabe se lá o que mais. Para mim, desde pequena, sempre foi encantamento. Com as aulas do Professor Aguinaldo, então, magia, pura magia.
Então tinha aquele sujeito, o Guimarães Rosa, e seus livros. Eu já tinha lido sofridamente um tal de José de Alencar que me entediava à beira das lágrimas. Tinha sofrido horrores nas mãos de um português chamado Camões que tinha escrito uns Lusíadas do qual só lembro “das armas e dos barões assinalados”… era isso mesmo? Meu mundo se dividia em duas literaturas – as que meu pai me dava para ler, que incluíam Monteiro Lobato, Julio Verne, Lewis Carroll e Albert Camus, e que eu amava, amava – e aquelas coisas insuportavelmente chatas que professores de mau humor mandavam ler e que todo mundo lia porque ia cair no vestibular e tinha que lembrar que “as armas e os barões assassinados” era de um tal de Camões – ou nem era?
Guimarães Rosa, não. Guimarães Rosa era outra coisa muito diferente.
Primeiras Estórias. O Professor Aguinaldo pediu-nos que comprasse o livro e que não lêssemos. Ainda não. Primeiro, ele sacou uma edição pequena e já bem usada de sua pasta surrada de falso couro marrom que fechava com um fecho de metal – rapaz, o que tinha de coisa especial naquela pasta – folheou o livreto, arrumou os óculos redondos de aro no nariz e falou – eloquentemente, como era seu modo de ser – de como Guimarães Rosa era um sujeito que tinha nascido no meio do sertão das Minas Gerais – que, claro, nenhum de nós conhecia, crianças de cidade. Fui ver uma vaca pela primeira vez aos vinte e dois anos de idade, já formada em Artes Plásticas e dando aulas de artes numa escola tombada pelo Patrimônio Histórico no interior do estado de São Paulo, as vacas pastando no horizonte de aquarela, capim verde, céu azul, meus alunos de seis anos me explicando que vaca usa brinco, dona, que é pra identificar. Mas então, o Guimarães, o sertão.
O professor Aguinaldo abriu o livro amassado, folheou, secou o suor da testa, começou a contar como tinha conhecido Guimarães e como era o sertão do Guimarães, ficou folheando, folheando – disse algo como “ah, vamos ver isso” – e leu:
“Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça?”
E parou. “Não, não é isso que eu quero ler” – disse, continuando a folhear o livrinho pardacento e amassado. “Ah, é isso”.
Novamente, arruma o óculos, comenta que está calor e ameaça começar a ler. Fecha o livro. A classe ri. O professor olha para nós com seriedade.
“Não, eu não vou ler… eu vou contar” - e começa a contar a estória de como uma moça filha de mãe leviana foi abandonada pela família e é entonce acolhida em uma fazenda de polvilho. O povilho, como sabemos, é farinha de mandioca crua, curada, branco, branco. O trabalho da moça, muito agradecida pela acolhida em sua má fortuna, é quebrar mandioca para fazer a farinha do polvilho. O calor grassa. O trabalho é duro. O professor transpira. A classe escuta em silêncio. A mandioca branca, moída e sovada pelas mãos nuas da moça se torna um caldo branco de grude, mandioca brava, as pessoas todas reunidas em suas roupas de algodão branco, sovando aquela mandioca que um dia vai virar farinha, mas que por enquanto é caldo grude branco que cola na mão, na roupa, no cabelo, cobrindo tudo de um branco de cal. A moça é triste, socando a mandioca. A moça sonha com coisas que não sabe se vai ter, se vai esperançar, porque é pobre e é triste, apesar de moça. A goma da mandioca, o polvilho branco porque a polpa da mandioca é branca, reverbera no sol. As pessoas cobertas de polvilho reverberam no sol. Transpiram como o professor Aguinaldo. E então, uma tarde quente e branca de polvilho, aparece o moço dono da fazenda no seu cavalo, no meio daquela brancura toda, reluzindo sol, um moço bonito de sorriso branco e dá de cara com aquela moça pobre coberta de branco e se paixona. Um moço príncipe de cavalo para amar aquela moça pobre que tem tantos sonhos. A classe toda silenciosa escutando. O professor Aguinaldo ri, seca o suor da testa com o lenço branco, ajeita o óculos, olha para seus sapatos, pára e fala:
“Nossa! Eu vim com uma meia de cada cor!”
A classe ri. O professor ri, pega o livro outra vez. Seca o suor da testa com o lenço branco.
“Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais.”
O sinal do final da aula toca, o professor fecha o livro, coloca na pasta amarrotada, pede pra gente ler para dali a duas semanas. Imagine, lemos para o dia seguinte, na urgência desesperada da curiosidade de quinze anos de saber mais do polvilho, do famigerado polvilho, a moça, o moço, o cavalo, o sertão.
Eu amo Guimarães Rosa, sempre vou amar, por causa do professor Aguinaldo e aquele seu jeito de mostrar o que as literaturas têm de especial. Bons tempos, professor, bons tempos.
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Texto publicado no Digestivo Cultural para o Especial Guimarães Rosa
Leia Guimarães Rosa online no Releituras e saboreie 3 contos do livro Primeiras Estórias: “Famigerado”, “O Cavalo que Bebia Cerveja” e “A Terceira Margem do Rio”. O conto que menciona o polvilho e que foi o foco da aula do Professor Aguinaldo chama-se “Substância”.
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Notas e curiosidades: Eu falo e escrevo JULIO Verne mesmo. Quando eu era criança e lia os livros de JULIO Verne, não vinha escrito “Jules” Verne na capa. Ainda não vem, não adotam o nome dele no original francês. Não sei a razão de traduzirem o primeiro nome do escritor para o português mas ainda traduzem.
Existem 10.500.000 resultados para JULIO Verne no Google e 6.400.000 para JULES Verne. A Wikipedia assinala JULIO Verne. O IMDB assinala “Jules Verne birth name “Jules Gabriel Verne” aka “JULIO Verne“.
O IMDB assinala 111 filmes realizados a partir das obra de Julio Verne, sendo o primeiro deles o revolucionário “Da Terra à Lua” de Georges Mélies, realizado em 1902 e que tem a famosa imagem do foguete no olho da lua (veja imagem abaixo). O filme já caiu em domínio público.
O Submarino tem 76 produtos do autor JULIO Verne mas apenas 8 produtos para JULES Verne – todos importados. A Livraria Cultura tem 291 produtos do autor JULIO Verne e somente 30 para JULES Verne – nenhum deles em português. Podemos concluir que ainda se usa muito o nome de Monsieur Verne traduzido para o português.
A linda coleção de livros do Julio Verne que tínhamos em casa era encapada em couro vermelho com lombadas douradas e tinha ilustrações maravilhosas que me faziam sonhar. Jamais esqueço os desenhos do submarino do capitão Nemo ou os lugares de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Os dois ilustradores principais de Julio Verne eram George Roux e León Benett, mas vários outros ilustradores desenharam para seus livros.

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Comentário que eu recebi por email, vindo do Digestivo:
“Olá, Daniela, fui aluna do Agnaldo no Equipe, lá no meio dos anos setenta; era meu professor predileto e entendi que além de jornalismo eu teria que fazer literatura; ele gostava do que eu escrevia e eu gostava, adorava suas aulas. Ele não gostava da cor amarela; ele chamava as pessoas pelo nome que ele achava que elas tinham a cara de tal nome. Ele disse letra do parabéns a você para o Fernando Pessoa no dia de seu aniversário… veja só, não é o máximo? Essa do Guima eu não sabia, e adorei! Só ele mesmo, né? Que bom que foi aluna dele e viveu parte do que vivi, belas experiências. O Agnaldo é um verdadeiro educador, não acha? Abraço!”
Isa Fonseca
American Idol
Thursday, April 13th, 2006Façam suas apostas. O que eu mais adoro são os testes de cidade em cidade, é imperdível pelas figuras que aparecem. Vou dar o meu palpite para o “top3″: Chris Daughtry, Katharine Macphee e Kellie Picker. O trio não tem o mesmo peso de Bo Bice, Constantine e Carrie Underwood mas são os mais competentes dessa temporada. Talvez ganhe a loira country, como no ano passado.
Visita à Casa da Xiclet
Wednesday, April 12th, 2006
Um dos lugares mais interessantes de São Paulo que podem nos dizer por onde anda a arte é, atualmente, a Casa da Xiclet. Adriana Matos Alves Duarte, mais conhecida como Xiclet, é uma artista plástica do Espírito Santo que mudou-se para São Paulo em 1997 e desde 2001 criou uma galeria em sua própria casa.
Xiclet é formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo [Ufes], chegou a cursar um mestrado, mas teve de interromper por problemas financeiros. Por várias vezes ela foi monitora no MAM e em bienais e também aluna especial do curso de Tadeu Charelli na USP. Sabe muito bem do que está falando.
A primeira intervenção artística da Casa da Xiclet foi a colocação de uma faixa na frente da casa que dizia “Ouve-se problemas por 1,99 a hora”. As pessoas paravam, tocavam a campainha e Xiclet escutava e anotava o problema relatado. Muitas pessoas acreditavam que Xiclet daria a “solução” para o problema reportado. “A faixa diz que eu ouço o problema, não que eu vá dar a solução”, retrucava. Alguns visitantes ficavam zangados, a maioria entendia a idéia que estava por trás.
Esta intervenção gerou uma base de dados chamada Menu de Problemas em que todos os problemas “ouvidos” pela Xiclet foram listados e podem ser consultados. É engraçado perceber que qualquer que seja o seu problema, provavelmente está listado no Menu.
Mal nasceu, a Casa da Xiclet definiu sua personalidade: é mais que um endereço, é mais que um local onde a arte se expõe. É um estado de espírito, um manifesto artístico. A Casa acompanha a dona onde ela for, tem uma característica itinerante e mutante, é impossível de ser dissociada da própria Xiclet, manifesta-se.
Em seguida, a artista resolveu começar a fazer suas “bienais”. A pergunta provocativa da Xiclet era “se a Bienal pode, por que eu não? O que a Bienal tem que eu não tenho?”. Este questionamento gerou, em 2002 a primeira Bienal Paralela da Casa da Xiclet, intitulada “Quero ser Nelson Leirner”. Foi um sucesso tão grande que o próprio Nelson Leirner fez uma visita à casa. A lembrança pode ser vista na Casa até hoje: o gato (de verdade) batizado de Nelson Leirner durante o evento, agora sempre presente nas vernissages.
As “bienais” e exposições que se seguiram continuaram com o caráter provocativo: “Ela não é Milliet” (referindo-se à curadora da Bienal SP, Alice Milliet), “Quero Ser Amigo(a) da Lisette” (inspirado na notícia de que Lisette Lagnado seria a próxima responsável pela Bienal SP) e “Prima Rica – Fica Quietinha preu Gostar de Você” – uma “homenagem” à galeria Fortes Vilaça, vizinha de endereço.
Visite!
Ir a um vernissage na Casa da Xiclet é uma experiência incomum – e vale a pena. Chegando no atual endereço, na Vila Madalena, é preciso descer uma escada, atravessar um pátio semi-escuro de onde se vê o bar colocado sob a garagem e então escolher sua entrada: se vai visitar o galpão de exposição ou se vai entrar na casa, onde Xiclet coloca arte em cada canto.
A parte mais interessante da Casa talvez seja a própria casa. Com a sala coberta de quadros e cheia de objetos de arte que podem ser estátuas, quadros, móveis de design, instalações temporárias, ou o banheiro, também repleto de variadas obras.
Até a cozinha entra na dança. Por lá, durante os eventos, sempre se pode encontrar algum prato preparado para os visitantes. Sanduíche de carne-louca, é um exemplo curioso. Este ambiente é mesmo um episódio à parte, empapelada do chão ao teto com adesivos de “bacalhau da noruega”.
A principal vocação da Casa da Xiclet parece ser questionar o tempo todo no que foi que a arte se transformou nos dias de hoje, especialmente no Brasil onde, sem o apoio da “lei do mecenato”, pouco ou nenhum artista vai a lugar algum – exceto, talvez, à Casa da Xiclet, que está sempre aberta para todos os artistas e realiza as exposições dividindo as despesas com todos os participantes. Como diz a própria Xiclet: “não tem patrocínio, mas tem apoio moral”.
Marketing de guerrilha
A estratégia de marketing de guerrilha adotada para lotar de visitantes as exposições é original e simples: Xiclet produz uma série de filipetas com xerox em papel sulfite colorido e distribui em vernissages de galerias conhecidas, atraindo o público dessas galerias para a sua própria.
A estratégia funciona e desde a primeira manifestação artística Xiclet não parou mais. Realizando quase que mensalmente uma nova exposição em sua casa, ela sempre adota um título provocativo, pois como ela mesma diz “é sem curadoria, sem seleção, sem jabá, sem entrada e sem juros”.
Atualmente, a galeria consta no Mapa das Artes, tem página na Internet e continua a todo vapor, sempre com o intuito de provocar e mostrar arte alternativa, artistas iniciantes, pessoas que expõe apenas no circuito underground paulistano – ou que não expõe em nenhum outro local a não ser na Casa da Xiclet.
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CASA DA XICLET GALERIA
Rua Fradique Coutinho, 1855 – Pinheiros- CEP.: 05416-012 – SP
ABERTA TODOS OS DIAS: das 14:00/21:00 H
Fone: 55 11 7314.4550 – 55 11 8420.8550
e-mail
Atualizações sempre no multiply e site:
Casa da Xiclet
Esse artigo foi publicado na Revista Paradoxo em 12/04/2006

A nova poesia concreta por email
Sunday, April 9th, 2006
V de Vingança
Saturday, April 8th, 2006Ainda bem que não fui só eu que odiou. Os Wachovski brothers parecem só saber fazer The Matrix, mesmo. Decepcionante.
Agora meus dois centavos sobre a obra de Alan Moore. Em geral, eu gosto de Alan Moore. Gosto da esquisitice dele, invejo o fato dele ser amigo do Neil Gaiman – embora eu prefira mil vezes ler Neil Gaiman e seu parceiro de insanidades, Terry Pratchet, do que as obras de Moore.
As obras do estilo “here I come to save the day”, não me cativam, não importa o autor ou a seriedade da obra. São obras que ficariam muito melhores SEM o super-herói mascarado. Não consigo pensar em adjetivo mais superlativo que simplesmente “legal” quando se trata de qualquer obra que tenha sujeitos vestidos de uniformes colantes com as cuecas por fora da roupa e capas – ou qualquer outro modelo de uniforme. Só existem duas obras-prima nesse estilo: Os Incríveis, justamente por ser saborosamente irônico e colocar o mundo dos super-heróis onde ele pertence, no público infantil, e Batman de Tim Burton, justamente por ridicularizar o pretensioso “herói” milionário mimado prepotente Bruce Wayne.
Toda a adoração por Batman e seus amigos justiceiros não faz o menor sentido para mim. Parece coisa de pessoas que se recusam a crescer e encarar o mundo adulto – e o mundo real – e que ainda acreditam que precisam de um salvador, alguém para resolver os problemas do mundo – que não seja nenhum de nós, porque salvar o mundo cansa muito e dá muito trabalho.
Se a admiração pelas histórias de heróis mascarados se der pela apreciação do mundo da fantasia, posso citar pelo menos vinte outras coisas mais interessantes em termos de fantasia do que super-heróis sem nem precisar pensar duas vezes – com ou sem superpoderes, de origem humana, subhumana ou superhumana, tanto faz.
Na minha opinião a onda de super-heróis é algo tipicamente fruto da cultura estadunidense por uma necessidade egomaníaca e fetichista que alguns estadunidenses parecem ter por pessoas vestidas com as cores de sua bandeira empenhados em defender o “american way of life” do resto do mundo.
A obra-prima de Alan Moore ainda é o gótico e soturno Monstro do Pântano, que infelizmente nunca foi filmado, e Watchmen, que está em produção – espero que não perca a pesada crítica que faz aos estadunidenses, seu “american way of life” e seus “heróis”, a melhor coisa da história – e eu espero que funcione melhor na tela do que “From Hell” – tudo bem, o original de From Hell não ajudava muito mesmo – ou “V de Vingança” – cujo original é “legal”, mas já envelheceu.


