Hoje, um amigo meu que normalmente é metódico e cumpridor de agendas, me telefonou no meio da tarde e me “arrastou” para assistir o filme coreano “O Arco”, de Kim Ki-duk. Foram duas agradáveis surpresas, meu amigo ter tido uma ação tão espontânea e o filme, lindo. Apesar da minha paixão por filmes asiáticos, eu ainda não tinha assistido a nenhum dos filmes desse diretor. Fiquei com muita vontade de assitir mais filmes dele - “O Arco” é o 12º filme de Kim Ki-duk.
Como eu fiquei com dúvidas se tinha compreendido ou não o filme (meu amigo compreendeu mil vezes melhor que eu) eu fui atrás de alguma análise elucidativa. Encontrei no Omelete.
É curioso perceber o quanto é árido e complicado para os ocidentais compreenderem filmes orientais, o quanto a percepção, a simbologia e o raciocínio orientais são completamente diferentes do ocidental.
Fui almoçar com meu irmão Urso e estava conversando com ele sobre como as pessoas são capazes de discutir sobre o nada e são capazes de usar os argumentos mais surreais para confundir o interlocutor e “ganhar a discussão”. Daí inventei isso aqui como exemplo e lembrei daqueles chás iniciais que eu postava no Chá, Ano Um. Lembram? Os chazinhos de Alice.
- O que é isso?
- O quê?
- Isso no prato.
- Alface.
- Como você sabe que é alface?
- Bom… É verde, tem as folhas enrugadas, está servida no prato com tomates… está temperado…
- Ah, então seu argumento de que isso é alface se baseia no fato de alfaces serem verdes.
- Escuta, isso é alface. Se quiser coma, se não quiser não coma.
- Não adianta você tentar me impor seu ponto de vista, ainda mais baseado na argumentação de que porque é verde e está em um prato então, logicamente, é alface. Isso poderia ser… gerânio. Ainda seria verde e estaria em um prato, poderia até estar temperado, mas seria gerânio. A essência da planta não se modifica porque a planta está em um prato… ou em um vaso.
- Ok. (suspiro) Escuta, isso é alface. Coma. Não coma. Para mim tanto faz.
- Estou incomodando você com minhas perguntas, né? Para você é isso, a condição existencial das coisas do mundo se resume em simplificações; se eu como, é alface, se eu não como, é gerânio.
- Gerânios não seriam servidos em um prato em um restaurante.
- Em tese, nem alfaces. Servir coisas como alimento, em pratos, é uma decisão arbitrária humana.
- Não vou mais discutir. Chame um botânico.
- Você sempre foge das discussões, você sabe que eu tenho razão.
- Não importa quem tem razão.
- Claro que importa. Isso aqui pode não ser alface. Eu posso comer gerânio por engano e passar mal.
- Mas isso aí é alface. Alface é comestível, é inofensiva.
- Alface não é inofensiva. Alface possui propriedades relaxantes, deixa o metabolismo mais lento, pode ser usada para fazer chás que auxiliam a combater insônia.
- Então não coma.
- Eu nem gosto de alface. Os tomates são okay, mas alface nem tem gosto.
- Então não coma.
- Quando vem dentro do sanduíche então, é lastimável. A alface fica meio cozida, escura, estranhíssima, com um gosto ensaboado…
- Então não coma! Eu gostaria de almoçar em paz, pode ser?
Os dois ficam quietos. Finalmente, ambos cortam a alface, colocam na boca e mastigam.
- Nossa! Que gosto é esse?
- Essa alface está meio assim… gerânio.
“The idea is simple, the result is stunning. On November 1, 2001, artist Ahree Lee began taking daily digital snapshots of her own face; and she has continued this project every day since. In 2004, Lee compiled all of her daily images into a montage with a wistful musical score. In the fast-paced parade of images you’re about to see, each second of screen time represents about one week’s worth of pictures.”
Credits
Director: Ahree Lee
Music: Nathan Melsted
Festival Screenings
Audience Award: Second Place, Experimental Film Fest New Haven
Jury Award: Honorable Mention, Experimental Film Fest New Haven
Official Selection, Light Plays Tricks 6 Short Film Festival (2003)
Official Selection, Los Angeles International Short Film Festival (2004)
Official Selection, Film Fest New Haven (2004)
Official Selection, Silver Lake Film Festival (2004)
Tive um dia horrível. Horrível, horrível. Não estou com vontade de nem falar a respeito.
Lembrei de uma música do Trent Reznor chamada “I do not want this” onde um pedaço diz assim:
“maybe I don’t have a choice
and maybe that is all I have
and maybe this is a cry for help
I do not want this
I do not want this
I do not want this
I do not want this
don’t you tell me how I feel
don’t you tell me how I feel
don’t you tell me how I feel
you don’t know just how I feel
I want to do something that matters”
É, hoje foi um dia infernal, um dia de moedor de carne.
Hoje eu não consegui falar. Eu só queria ter tido a oportunidade de explicar o que é que eu pensava. Só isso. Eu sou uma pessoa cordata, eu sou fácil de convencer. Eu só queria ter tido a oportunidade de me expressar. Só isso.
Achei essa foto interessantíssima no Google, ilustra bem o dia que eu tive:
É de um fotógrafo chamado Brandon Luhring, de um livro que ele fez que se chama “shut up”, que significa “cale a boca”. O texto que acompanha o livro é bem interessante:
Não é a primeira vez que com essa mesma pessoa eu não consigo falar o que eu penso. É a quarta vez. Hoje eu saí de onde eu estava com a clara impressão de que nada do que eu penso faz a menor diferença. Não é importante. Eu não me senti respeitada nem levada a sério.
Vão dizer que eu estou enganada. Como eu preciso de dinheiro, eu vou sorrir e responder: “então façam como vocês quiserem”. Estou na posição desfavorecida. Não tenho o poder de impor nada.
A vida não é fantástica?
Sabem, não é só a boca que fala. Não é só o texto que fala. Atitude fala, liguagem corporal fala, os olhos falam, tudo fala. O texto de alguém pode ser linguisticamente preciso, formal, impecável e dizer “olha, eu gosto muito de você”. Mas se isso é dito aos gritos, por exemplo, ou com um olhar duro e frio, ou com raiva contida, o texto perde todo o significado original, a atitude grita muito mais alto e comunica outra coisa.
Eu odeio ser tratada com violência. Para mim, intransigência é violência. Não me deixar falar é violência. Eu odeio violência. Odeio. Alguém que não permita me expressar é a maior violência a qual podem me submeter. Se isso vier acompanhado de poder econômico, se eu estiver em situação desvantajosa, eu me sinto pior ainda.
Hoje eu estava muda e amarrada. A única coisa que me sobrou para salvar um resquício da minha dignidade como ser humano foi levantar e sair dali. Antes de me permitir sair, fui obrigada a pedir desculpas por ter perdido a compostura numa situação moedor de carne. Me senti humilhada. Fui chorando pela rua.
Eu odeio isso.
Nesse exato momento, duas da manhã e insone, tem duas coisas que eu adoraria se fossem possíveis: se eu pudesse acordar amanhã de manhã em janeiro de 1999, exatamente como as coisas eram em janeiro de 1999 ou se eu pudesse simplesmente ir embora para algum lugar novo amanhã pela manhã, algum lugar onde as coisas funcionassem diferente de como são por aqui. Eu simplesmente odeio o que foi o dia de hoje e como as coisas são. Eu odeio ficar amarrada e amordaçada. Eu odeio que não me permitam ser civilizada. Eu odeio quem fala o tempo todo, joga poderes jurídicos na minha cara e não me deixa dizer o que eu estou pensando ou o que é que está me incomodando.
Já fizeram isso comigo mais de uma vez. Não é nada inédito. O fato de não ser novidade, só faz ficar pior.
Como diria Marilyn Manson: “Everything’s been said before
There’s nothing left to say anymore
When it’s all the same
You can ask for it by name”
Vejam vocês mesmos, a música é fantástica.
Eu tenho um histórico horrível de pessoas que são prepotentes comigo e que não me permitem expressar o que eu estou pensando. Que não querem me deixar falar. Que vem pra cima de mim com conversas ameaçadoras. Que jogam poderes legais no meu nariz. Estou cansada disso. Moedor de carne.
Mas eu vou calar a minha boca, uma vez que hoje o que eu menos consegui mesmo foi falar qualquer coisa. Shut up, Dani. Você não é ninguém mesmo. Não é dona de nada nem tem poder pra p**** nenhuma.
Okay.
Hoje pela manhã, com um grande e querido amigo ao telefone, eu disse: a maior mentira do século XX e do XXI é que “dinheiro não traz felicidade”. Dinheiro compra tudo e manda buscar tudo. Se você tem dinheiro as pessoas te respeitam e te tratam bem. Se você não tem, nunca vai ter respeito nenhum. Essa regra foi criada há milênios e continua valendo. O resto é hipocrisia, é controle social, é ilusão para manter todo mundo bem enquadrado nas regras do jogo. Todo mundo é igual, mas o dinheiro faz alguns serem mais iguais que os outros.
Eu odeio isso. Eu nunca avaliei ninguém pela conta bancária. Eu detesto estar numa posição onde eu dependo das outras pessoas. Eu odeio estar amarrada. Eu tenho saudades de 1999.
Vou encerrar com uma única frase, cujo autor eu não recordo, mas nunca esqueci: Se você quer que uma pessoa grite “não” com todas as suas forças é só tentar obrigá-la a sussurrar um sim quando ela não quer.
O lindo trabalho fotográfico de Abelardo Morell, fotografando figuras recortadas das ilustrações de John Tenniel para o livro de Lewis Carroll.
“Oh dear! Oh dear! I shall be too late!”
“Curiouser and curiouser!’ cried Alice (she was so much surprised, that for the moment she quite forgot how to speak good English); `now I’m opening out like the largest telescope that ever was! Good-bye, feet!”
Via Monsieur.
Fanfilm sobre Batman exibido na Comicon em 2003. Leia a história completa sobre a produção desse filme e uma entrevista com o diretor, Sandy Collora, aqui, via Omelete.
Esse aqui eu não encontrei no Youtube, mas está disponível para download. Basicamente é uma excelente paródia de Star Wars feita no estilo de um “reality show” americano chamado “Cops”. Divertidíssimo e inteligente:
É muito difícil tentar escrever alguma coisa sobre esse assunto sem terminar com um texto cheio de clichés. Não vou falar nada, vou dar a notícia e links.
Finalmente fizeram uma lei para aumentar as penas e proteção à mulher que sofre violência em sua própria casa, cometida pelo homem que diz que a ama: Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006.
As pessoas são muito mal informadas. Querem saber onde a violência doméstica pode chegar? Eu conto:
- 2.350.000 links para “violência doméstica”
- 93.700 links para “violência doméstica assassinatos de crianças”
- 92.600 links para “violência doméstica assassinatos de mulheres”
- 23.400 links para “crianças abusadas pela família”.
Nota importante: Tomei as imagens desse post emprestadas do site PostSecret - “A gallery of postcard-sized images posted anonymously to unveil a secret. Shared confessions in art form“.
Visite o site e conheça melhor esse projeto artístico e humano.
Ver os túmulos de pessoas como Chopin, Seurat, Ingres, Oscar Wilde, Collete, Isadora Duncan me deu uma sensação de temor reverencial misturado com admiração profunda que só me recordo de ter sentido quando visitei a exposição das esculturas de Degas e fiquei diante da linda e famosa escultura da bailarina adolescente. As bailarinas, por sinal, voltaram ao MASP.