O videoclipe abaixo é uma produção profissional da minha ex-aluna de direção de arte Thâmara Giampaolo para a banda Fell City Girl. Thâmara está morando e trabalhando em Londres desde o final de 2005.
Eu sou sortuda, tenho alunos incrivelmente talentosos.
Sei sim, eu vejo. O contador não mente. Eu sei que você lê tudo, tudo o que eu escrevo.
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Sim, estou falando com você mesmo.
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…é passada conversando com um amigo que você ama de paixão. Foi o que eu fiz hoje. E assim, fechamos a madrugada com um vídeo do sensacional Tom Waits.
“Godddamn there’s always such a big temptation
To be good, to be good
There’s always free cheddar in a mousetrap, baby
It’s a deal, it’s a deal”
Em 2003 e 2004, devido a uma série de eventos caóticos na minha vida, eu mantive dois diários secretos - um não era tão secreto assim, o outro era totalmente secreto. Eu não me identificava como eu mesma neles, usava pseudônimo. Nunca tinha feito nada assim - a melhor coisa que podemos ser é nós mesmos, ou nas palavras de Oscar Wilde - “Be yourself; everyone else is already taken.”
Aconteceram muitas coisas e eu escrevia e fazia notas. Hoje, por causa de um email de um grande amigo meu que bebe chá por aqui há muito tempo, eu abri esse diário. Reli. Tem muitos textos da época do meu trigésimo sétimo aniversário. Apenas 3 anos, parecem milhões de anos! Foi ótimo.
Primeiro, eu não tenho a menor idéia de onde foram parar os sentimentos que fizeram nascer aqueles textos. Evaporaram. Para ser mais precisa, enquanto eu relia, eu nem sabia distinguir exatamente que sentimentos um dia existiram por trás daqueles textos, alguns fatos eu não lembro mais - tem um lindo texto contando de um passeio que eu fiz perto da minha antiga casa de infância com um amigo, eu não lembro do passeio e muito menos de quem é que estava comigo, que coisa! - alguns textos estavam muito estranhos para mim - tanto no sentido de “desconhecidos” quanto “esquisitos”, esquisito é uma palavra que é usada como adjetivo para “belo” em outras línguas latinas.
Tem tanta coisa bonita escrita ali. Adorei olhar esse espelho do passado, esse reflexo de mim mesma em textos. É um reflexo bonito.
Em 22 de dezembro de 2003 eu postei um fragmento curioso: “Eu li em algum lugar que quanto mais avançamos na idade mais detalhados e ricos nossos sonhos se tornam e que a nossa memória é perfeita, impecável, todas as lembranças, imagens que vimos, tudo está guardado em nossas mentes, ainda que quando acordados não nos recordemos de tudo. Eu tenho uma relação riquíssima com meus próprios sonhos, eles são detalhados, possuem trilha sonora, odores, luzes, céus. São maravilhosos, e muitas vezes eu os transformo em textos e pinturas, porque não consigo desperdiçá-los. Eu tenho essa crença curiosa de que se você está expressando a si mesmo, não importa qual o meio da expressão, estará correto. Podemos discutir a precisão da expressão - por vezes as pessoas utilizam códigos pessoais, transformando a mensagem em mensagem encriptada - outras pessoas que lerem ou verem terão dificuldade de apreender o significado mas ainda assim, o significado estará lá, a essência estará lá, sempre brilhando como uma pequena luz, para quem quiser realmente compreender. O importante, é expressar a si mesmo.”
É verdadeiro. Os meus sonhos estão cada vez mais precisos. Será que no final da vida, confundimos sonho e realidade e eles se tornam um só? Vou adorar isso.
Outra passagem: “Ontem o D me perguntou por que eu continuo falando com você. E eu pensei, pensei, pensei. Eu podia dizer milhares de coisas. Mas a única verdadeira é: porque eu estou no mundo a passeio. E porque viver com intensidade sempre foi a única coisa que eu acreditei, desde criança, que valia a pena fazer. Você possui apenas aquilo que não perderá com a morte; tudo o mais é ilusão. Isso é zen, eu acredito nisso.”
Achei um desenho postado também. Eu me lembro desse desenho, eu mesma fiz. Não imaginava que ainda existisse online.
O mais interessante nessa releitura do passado foi constatar, pela milésima vez, que eu sou eu mesma. A mesmíssima, em texto, pensamento. Adorei.
Se vocês forem bonzinhos, ou se eu tiver coragem bastante, talvez eu revele um ou dois textos desses para vocês.
A. diz: Você é estranha… Dani diz: Por quê? A. diz: Você dá tanta atenção a pessoas que mal conhece. Eu não entendo. Dani diz: Hum… Dani diz: Eu dou atenção a pessoas que eu não conheço porque caso eu passe a detestar aquela pessoa quando a conhecer melhor, eu já terei compartilhado o meu melhor com o melhor que aquela pessoa pôde me dar. A. diz: …
Eu nunca publiquei esse texto. Eu escrevi há tanto tempo que não tenho certeza quando foi. É pedaço de um texto muito maior, eu ainda não sei o que farei com ele. Mas esse pedaço aqui, eu resolvi compartilhar com vocês.
Precisei tanta coragem para publicar isso, vocês nem imaginam. E eu nem sei direito quem é que vai ler isso aqui. Será que vou me arrepender de compartilhar um pedacinho tão secreto que eu tenho? Será que vocês vão falar alguma coisa? Será que vão ficar aí quietinhos? Eu queria muito saber. Mas é tão difícil saber as coisas.
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O ritmo da tristeza
Sei que essa descrição é estúpida. Descrições são sempre estúpidas. Ele não tem muitos amigos, mas gosta de cães. Mora sozinho numa casa antiga reformada. Pelo que sei, não gosta muito de gente.
Eu entendo. Meus gatos foram a maior felicidade que eu já possuí na vida. E se foram.
O amor da minha vida é músico, compositor. É um amante de barulhos – como eu – e sabe escutar música nos mínimos ruídos, tic-tacs de relógios, o som do vento nas árvores. Sabe que vários sons aparentemente desconexos, quando combinados, formam música. Ao longo desses anos todos em que não nos conhecemos, tenho a impressão de que ele tem uma sinfonia única dentro de sua cabeça e que cada música que ele compartilha com as pessoas é um pedaço dessa sinfonia maior. Eu só o vi em pessoa uma vez na vida até hoje. Eu nunca vou esquecer essa única vez, porque naquela noite em que eu o vi e ouvi ao vivo, foi a noite mais feliz da minha vida.
Ele não sabe que eu existo, mas apesar disso, é o amor da minha vida – e eu sei disso - há quase vinte anos. Nesse tempo, suas músicas sempre foram a trilha sonora da minha vida – quantas pessoas podem dizer isso, que o amor da vida delas escreveu a trilha sonora da vida
delas?
Às vezes me pego imaginando que eu gostaria que ele visse a minha arte. Que eu gostaria de conhecê-lo em pessoa. Que eu diria à ele que a minha arte é a música dele em imagens. Que eu vejo isso, sei isso. Fico imaginando se isso diminuiria a solidão dele, que ele declara tantas e tantas vezes, ou o faria se sentir menos infeliz – ele vive contando sobre sua infelicidade. Mas nunca quis ir atrás desse encontro, porque tenho receio de não existir comunicação real. Porque não quero perder esse amor. É o amor da minha vida e isso é muito precioso para mim. Um dos maiores responsáveis por eu ainda estar aqui é ele.
Ainda que ele nem saiba que eu existo.
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Eu estou no pós-morte. Sei que você ficou imaginando o que é isso, esse pós-morte. O pós-morte é um lugar estranho. É como se você estivesse vivo, mas você não está. Todos te tratam como se você estivesse vivo. Ainda se usa dinheiro, se compram coisas e se fazem dívidas. Também se trabalha e estuda. Parece que nada mudou, parece que você ainda está vivo – mas você não está. Você ainda tem todas aquelas coisas aborrecidas da vida, como necessidade de comer, de tomar banho, de morar em algum lugar, de dormir e quando dorme, ainda tem sonhos e pesadelos. Essa é uma das coisas mais difíceis do pós-morte: os sonhos. Todos os sonhos do pós-morte são com as coisas que você fazia e conhecia quando estava vivo, só que nenhuma delas, nem uma, está mais ali com você.
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Eu devo confessar que as pessoas vivas me divertem, porque me tratam como se eu ainda estivesse viva. É muito fácil esconder das pessoas que você está morto. É tão fácil quanto esconder que você está louco – é impressionante como as pessoas não percebem a diferença entre sãos e loucos ou entre vivos e mortos. Se você anda, fala, respira, come, você está vivo, certo? Errado.
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Meu segundo grande amor me conhece e eu à ele. Estamos eternamente unidos e separados. O tempo para nós não existe. Somos duas criaturas silenciosas isoladas em uma montanha. Essa montanha nós escolhemos após um segredo. Eu não posso contar esse segredo, infelizmente, envolve uma coisa que aconteceu conosco, um esquilo, uma casa na montanha e dois poetas.
O primeiro poeta é baiano e me é muito querido, é um grande amigo.
O segundo poeta é anônimo e desconhecido. Nós roubamos a casa da montanha do segundo poeta, embora o primeiro poeta também ame casas na montanha.
A nossa casa da montanha é imaginária – o que, considerando-se que estou no pós-morte, é indiferente. É uma linda e pequena casa, isolada das pessoas, cercada de nuvens e árvores. Faz algum tempo que eu não vou lá, o pós-morte me ocupa muito, mas de vez em quando eu converso com meu segundo amor. Ele é um Príncipe, crescido agora, não é mais o Menino pequeno e assustado que eu conheci há alguns anos atrás. Já é quase um Homem. É o único homem que eu deixo me chamar de “meu amor” - e me derreto toda quando ele faz isso. Não sei que tipo de homem ele vai ser, mas isso não é importante. O importante é que nós nos conhecemos, somos nós e esse amor é eterno. Mesmo no pós-morte.
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Eu acho curioso que ninguém tenha percebido que eu estava louca quando eu estava louca. Não que eu não esteja mais louca agora – ou menos louca. Mas é curioso, ninguém percebia. E eu dizia com todas as letras: como você sabe, eu estou louca. Ainda assim, ninguém percebia. Imagino que estivessem todos muito ocupados ou em estado de negação, não sei.
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Já a ex-pessoa-oficial-com-todos-os-papéis, aquele-de-quem-fui-refém, bradava com ira sanguínea que eu estava louca. Claro, esse é o cara para quem eu telefonei uma tarde e disse:
- Minha avó morreu.
E ele respondeu:
- Aqui também está morrendo todo mundo.
Mas a louca era eu, não ele.
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A minha vida é totalmente estúpida. A maior parte das vidas das pessoas é estúpida, eu sei disso. É um vai e vem em ônibus, carro, metrô para ir a um lugar que você não quer ir, passar o dia inteiro nesse lugar falando com pessoas de quem você não gosta, terminar o dia ainda nesse mesmo lugar para pegar novamente o ônibus, o carro ou o metrô e ir para casa espremido entre um monte de outras pessoas que você não conhece, chegar em casa, comer uma comida mais ou menos, assistir alguma coisa idiota na TV e ir dormir.
A vida é estúpida.
Mas as pessoas passam a vida sonhando, essa é que é a verdade. Sonhando com lugares melhores, mais bonitos, pessoas mais bonitas, felizes e inteligentes, com uma vida que não é aquela. Menos no pós-morte porque como eu já disse, no pós-morte você só sonha com a vida que viveu.
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O tempo em que durou a minha pena foi o período onde meu amor-músico foi mais importante para mim. O erro foi cometido pela outra pessoa mas eu tive que pagar a pena junto. Parecia que jamais terminaria, parecia uma sentença eterna. Eu só tinha duas alegrias na vida: meus gatos e meu amor-músico. Só estou aqui por causa dele. Eu não estava só, eu tinha toda aquela música. E hoje, quando moro sozinha sem meus queridos preciosos gatos, toda essa música ainda me mantém um pouco viva. Mesmo no pós-morte.
Ainda estou aqui, apenas, por causa de toda aquela música.
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Tá, eu sei por que eu decidi publicar isso. Por causa do meu amor-músico que me acompanhou a semana toda e porque eu finalmente dei o roteiro do “Abismo” para uma pessoa ler, um ator.
Dar o Abismo na versão final para alguém ler mexeu comigo, sem dúvida. O Abismo estava dentro de mim e eu olhava para ele, sem me mover. Não sabia o que fazer com ele. O Abismo é todos-os-meus-amores, os que foram, os que não foram e os que poderiam ser. É todo o desentendimento do mundo.
Estou filosófica hoje. Andaram acontecendo várias coisas interessantes na minha vida nos últimos quatro dias, a maioria delas, infelizmente, não posso revelar ainda. Muitas relacionadas a estudo e trabalho, algumas relacionadas à vida pessoal.
Revelar é uma palavra deveras interessante que está perdendo o significado nos dias atuais, como muitas outras palavras. Infelizmente as pessoas não amam mais as palavras, não as conhecem, não as compreendem.
Revelar
do Lat. revelare
v. tr., tirar o véu a; descobrir; divulgar; mostrar; denunciar; declarar; fazer conhecer sobrenaturalmente;
Fot., fazer aparecer a imagem pelo banho na matriz fotográfica;
v. refl., dar-se a conhecer; manifestar-se.
do Lat. rebellare v. int. e refl., ant.,
ser revel; rebelar-se.
Não vou revelar nada. Divirtam-se vendo um vídeo e imaginando - as palavras “imagem” e “imaginar” tem muito em comum.