Friday, August 8, 2008

Chás de November, 2006

Todo o cansaço do mundo

Thursday, November 30th, 2006

A prima de minha mãe uma vez disse uma frase que meu irmão, minha mãe e eu jamais esquecemos:

“A preguiça é maior que o sonho”.

Estou descobrindo que o trabalho que um sonho dá é diretamente proporcional ao tamanho do sonho, dobre o trabalho se você não tiver dinheiro, triplique se você tiver caráter. Eu confesso que eu já imaginava que seria assim, ainda mais porque eu tenho, digamos, uma espécie de manual japonês de normas de conduta, com mil páginas imaginárias recheadas de regras que seguem um código de honra de um rigor que faria inveja a muito Senhor da Guerra - e uma conta bancária vazia, atualmente, aliás, negativa.

Não é a toa que a maioria das pessoas se contenta em apenas sonhar. Não é a toa que tanta gente acaba tendo que fazer terapia para compensar as frustrações. Sonhos dão trabalho, custam caro, cansam.

Se (e quando) eu conseguir terminar de transformar os sonhos atuais em realidade, eu prometo contar pra vocês que sabor, cor, aroma que tem um sonho grande concretizado.

E por favor, não se espantem se ao ver o sonho inteiro, real, materializado, eu estiver tão exausta que a única coisa que eu vou querer é dormir, dormir.

Sonhos materializados precisam ser soltos no mundo. Não vou segurar o meu sonho quando ele estiver vivo.

Enquanto isso, adivinhem o que estou ouvindo? Sim, ele mesmo, cantando:
What if everything around you, Isn’t quite as it seems?
What if all the world you think you know, Is an elaborate dream?
What if all the world’s inside of your head? Just creations of your own

Eu falo um inglês razoável, mas eu descobri que eu retraduzo. Retraduzir é um hábito meu constante, eu retraduzo letras de música, imagens que estou vendo, sub-texto de pessoas.

Adoro a sincronicidade que a minha vida caótica possui com a mecânica quântica.

Adoro Trent Reznor me questionando se realidade é apenas um sonho.

… e chove.

Récorde de bebedores de chá

Thursday, November 30th, 2006

Mês/Ano…………Visitantes únicos ……….. Total de visitantes
Jan 2006………………3104………………………7423
Feb 2006………………3054……………………..7381
Mar 2006………………4373……………………..9379
Apr 2006………………4839……………………..9675
May 2006……………..6088……………………..10923
Jun 2006………………5710……………………..10094
Jul 2006……………….6627……………………..11491
Aug 2006……………..9081……………………..14433
Sep 2006……………..9667……………………..15126
Oct 2006………………8948…………………….14652
Nov 2006…………….12467…………………….20092

Isso de acordo com o Awstats. De acordo com o Webalizer, que não conta visitantes únicos e sim, totais, mesmo com repetição de IP:

……………..Visitantes- média diária……….Visitantes/mês
Nov 2006…………….1077 ……………………31245
Oct 2006…………….820 ……………………..25429
Sep 2006…………….809 ……………………..24294

Nunca na história da Casa de Chá servimos tanto chá de uma só vez. A Dona da Casa de Chá, profundamente impressionada e honrada pela preferência, agradece humildemente.

Nota:
O Joel faz o seguinte elogio à Casa de Chá:

“Blog dos melhores: MadTeaParty - Tem um agradável tom pessoal sem ser chato.”

Adorei, Joel, obrigada!

Pensamentos de começo de tarde

Wednesday, November 29th, 2006

Algumas pessoas procuram respostas; deve-se procurar boas perguntas. Respostas podem (e devem) ser sempre questionadas. Não existem respostas definitivas para nada, tudo no mundo é mutável.
…mas as boas perguntas permanecem, indeléveis.

***

“Uma boa história não tem necessidade de se parecer com a vida real; é a vida que, com todas as forças, procura assemelhar-se a uma boa história.”
- Isaac Babel

***

Chove.

***

Now listening: Amon Tobin, Four Ton Mantis

Poesia roubada em scrapbook alheio

Tuesday, November 28th, 2006

“A explicação mais simples normalmente é a verdadeira”.

Frase deixada pelo Poeta Morto no scrapbook da Bailarina.

É isso que eu precisava exatamente nesse minuto, um pouco de poesia vinda de amigos.

Sobre John Cage

Monday, November 27th, 2006

Quando veio ao Brasil para uma das bienais de arte, Cage disse que não tinha ouvido para música e que nem consegue ouvir coisas quando lê sua notações: “Quando escrevo notações”, disse ele, ’somente ouço coisas como sirenes na 6ª Avenida, porque tenho muito mais interesse em apontar o que não esteja familiarizado com as pessoas’. Verifica-se, portanto, que Cage quer nos desacostumar do dia-a-dia. Ou melhor, incorporar musicalmente esse dia-a-dia, possivelmente com a intenção de torná-lo lúdico e não massacrante. No que faz (e nós faríamos) muito bem.
Mas ele tinha ouvido para música, sim, fica tranqüila, baby.
Bom, a realidade é uma coisa que depende de quem a observa (sic). Cage não só a observava, como contou o que viu. Fez isso usando desenhos em computador, lendo Joyce (Finnegans Wake, por quê não?), modulando a voz como nas preces budistas e concluindo que “somos o que experimentamos”. Desta forma – e isso eu acho que todo mundo já sabe, mas sempre é bom recordar – a arte gera mudanças na nossa maneira de perceber a realidade. Para Cage, o passado e o futuro estão contidos no presente (e também é por isso que ele não curtia as gravações de disco, justamente porque essa linguagem afastava a possibilidade de “brincar” com o acaso da performance).(…)
Isso posto, essas artes já não precisam ser mais os produtos a serem congelados nos depósitos refrigerados do museu; já que são os organismos vivos que refletem a própria vida. Assim como nos adaptamos às condições climáticas no dia-a-dia, a arte ajuda a compreender esse processo com mais rapidez, quebrando a barreira da educação formal, escravidão cultural, e tal e coisa.

Leiam o delicioso artigo completo de Eduardo Barrox no Digestivo Cultural: Sobre John Cage.

Frase para vários dias

Monday, November 27th, 2006

Entre a fumaça do café e cigarros, uma pessoa linda falou mais ou menos o seguinte, para mim, no final de tarde do domingo:

“Não deixe a imagem da ‘mulher de 40′ esmagar você. É cliché. Subverta essa imagem, vença essa imagem. Você é uma mulher linda, subverta a imagem da mulher de 40.”

Okay, okay, vocês venceram. Quando em menos de 72 horas TRÊS pessoas diferentes, todas especiais, inteligentes e lindas dizem isso pra você, é porque está mais do que na hora de acreditar. Vocês venceram, meninos. Eu fico pequenina, muito obrigada pelo imenso privilégio.

Nota posterior reflexiva e muda: aumentem a conta para quatro, por favor…

Eu queria contar uma coisa, mas é segredo e nem é um segredo meu, eu não posso contar segredos alheios, só os meus, então vou resumir, vou dar uma versão editada.

Eu tenho um amigo lindo, lindo, que não sabe que é lindo, mas parece que está finalmente descobrindo que é. Esse meu amigo lindo, lindo, tem trocado emails muito especiais comigo há mais ou menos uns dois meses. Ele não sabe, porque às vezes me falta coragem para falar mais de mim mesma, mas os emails dele têm me feito refletir sobre mim mesma - somos todos espelhos para outras pessoas, todas as pessoas são espelhos para nós, o ser humano tem essa constante relação de projeção, Caverna de Platão, nós nos vemos refletidos no olhar do outros, os outros se vêem refletidos no nosso olhar.

Nessa reflexão nos olhos do F eu me vejo especial, linda. E eu fui impiedosa com ele na troca de emails, porque ele estava sofrendo tanto (de amor) e eu não suporto ver ninguém sofrer, eu preciso falar o que eu penso, eu tenho ganas de sacudir a pessoa pelos ombros e dizer “não seja refém, não seja refém! Eu fui refém durante muitos anos, ser refém destrói você devagarzinho por dentro, como uma gota de água consumindo uma rocha”. (É como naquele conto que eu escrevi, M, sobre o funeral que eu participei quando eu tinha 16 anos, mesmo o tempo e a idade tendo me transformado numa pessoa muito mais tranquila e racional, de vez em quando aquela “vespa furiosa” se manifesta, eu amei encontrar isso vivo dentro de mim, tão por acidente, eu amei descobrir que o meu lado “vespa furiosa” ainda se manifesta, especialmente quando pessoas que eu amo estão em jogo, e ontem eu tive total certeza de que isso não está errado, não é errado amar as pessoas - tem sempre alguém tentando me fazer acreditar que é errado amar as pessoas mas não é - e não é errado defendê-las, especialmente se você tem o poder de defendê-las).

Eu dei em F uma espécie de “chacoalhão” verbal em vários emails. Quando lia os emails dele eu pensava na Caverna de Platão, no sofrimento dele. Não consegui resistir e falei o que penso.

Meu amigo me agradeceu por ser “impiedosa” - palavra que ele usou. Meu amigo é mais meu amigo do que quando começamos a ser amigos. Meu amigo me vê linda.

O tempo todo eu sentia uma imensa responsabilidade.

Claro, não vai fazer muito sentido para a maioria de vocês, porque vocês não sabem nem um terço do que tem acontecido comigo, mas tentando contar uma versão editada, eu tive que tomar muitas decisões importantes essa semana, todas elas envolvendo pessoas que eu gosto, pessoas com quem estou trabalhando, pessoas que são meus amigos.

Daí vou ter que lembrar do mesmo amigo com quem tomei café ontem, T, que também tem essa “impiedade” - a “impiedade” dele brilha nos olhos e ele tem um lindo sorriso de menino que eu aposto, ele não sabe que tem, mas é de família, o irmão dele tem o mesmo sorriso lindo e doce. É poética essa imagem daqueles olhos impiedosos em contraste com o sorriso.

T disse para mim, em outro dia que tomávamos café que eu estava acreditando naquela coisa de ser “responsável por quem cativas” e me espinafrou totalmente, com aquele jeito-Beethoven-de-ser que ele tem. As frases dele são de espatifar as vidraças.

É, você está certo. Eu me sinto responsável pelas pessoas. Eu sempre me senti.

Mas eu hoje posso reafirmar que é uma responsabilidade que eu aceito, com a qual posso viver. E é maior que a frase de Antoine - lembram de Antoine, que falava de rosas, espinhos, raposas e para quem uma vez eu escrevi uma carta? - Antoine acreditava que a responsabilidade se resumia “às pessoas que cativamos” e hoje, com passarinhos cantando na janela, nessa manhã nublada eu posso dizer em bom som: a responsabilidade precisa ser com todas as pessoas, não apenas as que gostam de nós. Cada um de nós tem o poder da borboleta atravessando o silêncio.

E John Cage têm razão, silêncio também é música.

Ontem eu senti isso de forma profunda, ao ter minha linda equipe de cinema trabalhando comigo de forma tão concentrada, harmoniosa, responsável - e eu, na posição privilegiada, porque eu via a beleza nos olhos de quem vê. Eu regi aquela orquestra talentosa, eu assisti aquela orquestra talentosa. É um privilégio. Eu tenho grandes responsabilidades porque me são concedidos grandes privilégios.

E aqui, façam uma borboleta atravessar a sala, em silêncio.

Chega, esse chá adoçou demais. Eu tenho mil coisas pra fazer.

Em homenagem a um dia especial e a amigos especiais

Sunday, November 26th, 2006

“O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas se rejubila com as que tem”.
Epíteto

Eu tenho a melhor equipe de cinema do mundo. Hoje foi um dia de filmagem especial.

Um amigo muito especial me apresentou ao filósofo Epíteto. Desde então, tenho procurado saber mais sobre o grego Epictetus (50 - 115 d.C.), escravo e filósofo.

Vou aproveitar que estou com algumas páginas abertas aqui com pensamentos de Epíteto para fazer algumas citações e colocar algumas quotes na base de dados aqui do chá. Como no cinema, a escolha é basicamente um recorte.

“Nada de grande se cria de repente”.

“Qualquer lugar onde alguém está contra a sua vontade é, para este alguém, uma prisão”.

“As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas.”

“Não devemos acreditar na maioria que diz que apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas sim acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres.”

“Quando você se ofender com as faltas de alguém, vire-se e estude os seus próprios defeitos. Cuidando deles, você esquecerá a sua raiva e aprenderá a viver sensatamente”.

“Acusar os outros pelos próprios infortúnios é um sinal de falta de educação; acusar-se a si mesmo mostra que a educação começou; não acusar nem a si mesmo nem aos outros mostra que a educação está completa.”

“As aparências para a mente são de 4 tipos. As coisas ou são o que parece ser; ou não são, nem parecem ser; ou são e não parecem ser; ou não são, mas parecem ser. Posicionar-se corretamente frente a todos esses casos é a tarefa do homem sábio.”

Amon Tobin

Sunday, November 26th, 2006

Nossa, que é isso, o QUE É ISSO?!! Maravilhoso, maravilhoso!

Amon Tobin - Hokkaido

Amon Tobin - Deo

Fast Food Freestyle

Saturday, November 25th, 2006

Essa maluquice sensacional vem do Rafael, diretamente de Ontario, onde está fazendo UM grau e espera-se MENOS seis graus nos próximos dias:


“I will slow down for you.”

Músicas para amigos

Saturday, November 25th, 2006

Para Pedreiro:
Gary Numan - Pure

Para Marly:
Depeche Mode - Walking In My Shoes

Para Mario:
Amon Tobin - 4 ton mantis, video de Floria Sigismondi. Visita o site da Floria, babe.
Às vezes eu pareço distraída, mas eu presto atenção.

Para o Wagner: essa é a versão completa do vídeo do Prodigy, SEM CORTES:
Prodigy - Smack My Bitch Up
Atenção navegantes desavisados: X-Rated, só para adultos

Posto mais músicas para amigos nos próximos dias :)

Amizade

Friday, November 24th, 2006

Email enviado para mim por um grande amigo meu:

Amizade
Contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis porque um monge, um solitário pode não ser ruim e viver sem conhecer a amizade. Virtuosa porque os maus não adjungem mais que cúmplices. Os voluptuosos carreiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantém relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos. Cétego era cúmplice de Catilina. Mecenas era cortesão de Otávio. Mas Cícero era amigo de Ático.
Que estabelece esse convênio entre duas almas ternas e honestas? As obrigações são mais ou menos intensas consoante a sensibilidade de um e de outra e o número de serviços prestados, etc.
O entusiasmo da amizade foi mais forte entre gregos e árabes que entre nós. São admiráveis as histórias que teceram esses povos em torno deste sentimento. Não temos iguais. Somos em tudo um pouco secos.
A amizade era objeto de religião e legislação entre os gregos. Os tebanos tinham o regimento dos amantes. Magnífico regimento! Houve quem o tomasse por um regimento de sodomitas. Engano: seria tomar o acessório pelo essencial. A amizade era prescrita na Grécia pela lei e pela religião.
Voltaire.
Dicionário Filosófico.

Eu tenho os melhores amigos que uma pessoa poderia desejar.

The Pillow Book & Ederlezi

Friday, November 24th, 2006

The Pillow Book
Peter Greenaway
Goran Bregovic

“The keeping of pillow books to record poems, secrets, and encounters with lovers was a common practice of noble women in Heian Japan. Although its content is unrelated to the film, a famous example was written by Sei Shonagon at about the same time as Lady Murasaki’s The Tale of Genji which has the honor of being the world’s first novel. In fact, it has been said that Sei Shonogon and Lady Murasaki were rivals in the court of Heian.”

“O cinema não é o melhor veículo para contar histórias. É específico demais, deixa muito pouco espaço para a imaginação levantar vôo fora das indicações estritas do diretor. Leia “ele entrou na sala” e imagine mil encenações. Veja “ele entrou na sala” no cinema-como-o-conhecemos e você ficará limitado a uma única encenação. O cinema tem a ver com outras coisas que não a narração. O que você lembra de um bom filme - e vamos falar apenas de bons filmes - não é a história, mas uma experiência especial e quem sabe única que tem a ver com atmosfera, ambiência, performance, estilo, uma atitude emocional, gestos, fatos isolados, uma experiência audiovisual específica que não depende da história.”
- Peter Greenaway

“The film has written and spoken dialogue in twenty-five languages-English, French, Japanese, Mandarin, Cantonese, Vietnamese, Latin, Hebrew, necrotic Egyptian … and it has written calligraphic text on paper, wood, and flesh, on flat and curved surfaces, vertically and horizontally, on both living and dead flesh, in neon, on screens, in projection, as sub-title, inter-title, and sur-title, as High Art and low art, as advertisement and banker’s check and registration plate, on photograph, on blackboard, as letter correspondence, as photocopy facsimile, and spoken, chanted, and sung, with and without music … a mocking challenge. You want text? Cinema wants text? Cinema pretends to eschew text? Then we can give you text to mock that smug suggestion that cinema thinks it is pictures.”
- Peter Greenaway