“Paris é claramente Paris”.

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday July 1, 2008

Lembrando dessa afirmação de Clarice, entre Montparnasse e Marais. Sentado. Olhando. Conversando com Rajen, possuidor de um sorriso luminoso, abundante e perfeito, míope, alegre, bilíngüe e falante; nascido nas Ilhas Maurício, descoberta pelos portugueses e palco de batalhas entre franceses e ingleses pela sua posse; País do tamanho de Ilha Bela; é através dele que ouço a descrição dessa cena, ocorrida por ocasião de sua chegada, sentados no mesmo lugar de antes.

“Um casal idoso, ela tem menos idade que ele, ou aparenta ter. Ele está curvado, a espinha não está mais ereta, os braços estão paralelos e juntos do corpo; o antebraço e a mão formam um ângulo de noventa graus. A mão dele está fechada, apontando à frente. Anda colado com a mulher. A cabeça está olhando para baixo, irremediavelmente. O trajeto do casal colide com outra mulher, amiga da esposa. Param os três, as duas trocam beijos e conversam, conversam sobre assuntos ignorados, pela distância. Mas observo que o homem esforça-se para levantar a cabeça em direção à recém chegada e põe adiante os dedos da mão, esboçando um comprimento e, talvez, esperando o beijo. Olha fixamente para a visitante, e não consegue ser visto. Os seus dedos ficam distendidos por um longo tempo, numa oferta ignorada e se recolhem após ter perdido suas últimas esperanças. Nota-se em seu olhar algo estranho, jovial.

Ao seu lado aproxima-se um outro casal jovem, saído de alguma estação próxima do metrô, creio estrangeiro, olhando para os lados, até encontrar um painel com o mapa do local. Isso é muito comum, por aqui. Não há pessoas disponíveis. Tudo está escrito. Enfrentam a batalha do idioma, fala inglesa – sim são estrangeiros – e conversam sobre o local do hotel, após tê-lo encontrado, aqui próximo, se é ou não adequado. Afinal de contas, parece que o local é despovoado, são poucos os que passam. Eles não têm segurança de ter feito uma boa escolha. Retiram-se, provavelmente, em busca de um outro, em local mais povoado.”

Somos atendidos depois de algum tempo por um garçom, peço e ofereço um cálice de vinho, observo o rótulo, para anotar seu nome: Domaine de La Solitude, 2004, Passac-Leognan.

Continua Rajen.

“Meu olhar vagueia pela rua dividida em duas por uma ilha arborizada, em um dos lados encontro uma moça loira com cabelos grossos, com olhos claros, rosto oval. Nova. Muito vestida. Com uma quantidade de roupas próprias para inverno; entretanto o dia está fresco, primaveril, sem vento. Tem uma pele um pouco escurecida. Um bronzeado sujo. Está sentada e brinca com as flores do canteiro. Olha para o outro lado, depois à direita e à esquerda, parece estar esperando alguém. E ele chega. Alto, com os cabelos longos, rastafári, com tranças grossas, com sapatos sendo usados como chinelos, dando uma instabilidade no andar, um grande cobertor lhe cobre o corpo, seu anoraque pós-moderno; acompanha o tipo seu cão, sem raça definida, com os ossos à mostra. Ele atravessa a rua dirigindo-se ao encontro daquela moça. Os dois trocam um beijo apaixonado, jovem e público. Caminham agarradinhos. No sentido oposto aos outros dois.

Passa uma africana com sua roupa orgulhosa, de um colorido intenso e variado, com excesso de panos, cobrindo o seu largo corpo, com a cabeça vestida por um ‘foulard’ e falando ruidosamente num celular; percebo um ar de reprovação no tom de sua fala, e não consigo distinguir o conteúdo, nem a origem do seu acento.

Sai da confeitaria uma hare krishna com sua túnica laranja, cabelos quase inteiramente raspado, magro e apressado, abocanhando um doce do tamanho da sua palma e levando sob os braços uma baguete. Noto o cíngulo atravessado em sua cintura e nele está pendurada a escudela.”

Assim termina a descrição da sua Paris, ao fim agradece a oferta, e precisa ir. Está de viagem marcada para sua terra natal. É casado com uma francesa e precisa colocar os presentes para seus familiares na bagagem dela. Explica que a alfândega mauriciana é muito rígida com os locais e vasculha inteiramente a bagagem em busca de tributos, mas são respeitosos com os franceses. Pisca o olho, matreiro.

Abraçamo-nos fraternalmente, continuo pensando nas histórias que ele me contou, abro o livro que carrego e encontro:

“Nicópolis. Perto desta cidade sobre o Danúbio, hoje reduzida a aldeia, o sultão Bajazé o Raio, aniquilou, em 1396, o exército cristão comandado pelo rei Sigismundo da Hungria; os cronistas da época e o testemunho do aventureiro Schiltberger, o Marco Pólo bávaro, sublinham sobretudo a displicente elegância com que a cavalaria francesa, indiferente aos planos estratégicos, se atirou de ponta-cabeça e em formação cerrada, na derrota.”

Creio não ser desnecessário esclarecer o nome do autor: Cláudio Magris.

Um banal pardal

scriptu em Acaso Sinto? by Djabal Friday June 27, 2008

Acompanhou o almoço, sentou-se como um cão e pediu de comer. Apesar de não estar habituado a essa forma de pedido, dei-lhe um pedaço minúsculo de miolo de pão, que foi recolhido; imediatamente o identifiquei como fêmea, por atravessar voando à meia altura no salão de refeições do hotel onde nós estávamos ir até o canto oposto e no chão, local do seu ninho e dividir o pedaço entre os filhos.

Enquanto escrevo, creio necessário defender-me das eventuais acusações de machismo; desculpo-me perante meus iguais, por não conhecer nada dos costumes desses pássaros e em minha mente existencialista, os que alimentam os filhotes são as fêmeas. Também devo mesmo desculpar-me com os próprios pássaros pela minha simplista visão antropomórfica.

Mas fiquei absolutamente feliz, sentia já falta do canto matinal do bem-te-vi que me acompanha em todos os meus dias; não sabia identificar o canto daquele pássaro francês, melodioso é verdade, mas que chamava tanto a minha atenção que não conseguia ler, a música me distraía. Cheguei à grande cidade – Paris - a presença daquele bichinho, me lembrou o canto do outro.

Por nossas bandas, ele não é bem cotado, sempre ouvi relatos pejorativos a respeito do pardejo, conta-se também que na China se promoveu um massacre deles, com varas flexíveis de bambu agitadas em conjunto pelos habitantes; sei também que são comidos tostadinhos no sudoeste de algum continente.

Ele, ali, me lembrou de coisas amigas e próximas. Principalmente porque consegui ver no olhar dele, um olhar pidão. De qualquer forma fiquei também desconfiado desse olhar, tudo poderia ser uma tremenda coincidência; e se tudo fosse obra da minha imaginação?

Fiz o gesto novamente de jogar algo no chão, ele pensou que fosse o pão, mas eu havia jogado uma semente do gergelim que acompanhava o pão. Ele procurou inutilmente, por vários lugares, até desistir e me interrogar novamente. Dei-lhe outro e mais outro.

Até que fui aconselhado a não fazer mais isso, pelos problemas que lhe causaria. De excesso de açúcar, dificuldades na digestão, e do desequilíbrio em sua dieta de frutas e sementes.

A argumentação de que ele não encontrara as sementes que eu tinha disponível, e colocado à disposição, não foi suficiente para serenar os ânimos. Ele foi embora durante essa distração. Imagino que tenha perdido a paciência.

Deixei de lado o amigo e pedi uma salada para comer. Mais do que nunca devo ser vegetariano. As emoções que possuímos são compartilhadas ou transmitidas também pelos animais. Cada espécie deles nos ensina alguma coisa.

A ordem que presumivelmente nos coloca numa posição central deveria ter morrido junto com Lineu. Um livro de História Natural é algo tão fora do comum para os urbanos, como ver uma simples e honesta mula excitada – admirada e cantada por Elias Canetti – ou um mísero passerídeo.

Dividi minhas dúvidas com o amigo. Longe de ficar atônito, surpreso, me disse que em Montmartre, perto da Basílica de ‘Sacré Cœur’, viu um senhor com um saquinho de pão numa mão e na outra um ‘moineau’. Por uma parte de um Euro ele fornecia o pão para que o turista o alimentasse. Se a fração fosse muito pequena, o pedaço de pão seria também proporcionalmente menor. Depois de uma reclamação de um turista, pelo pedaço recebido, não se acanhou de dizer:

- Pelo que você me deu, estou sendo muito generoso.

Parece que os sentimentos que me atravessaram não são originais. Os pardais estão domesticados na França. Talvez também o estejam no Brasil. Vou consultar e descubro o seu nome científico: “Passer domesticus”. E com isso o meu ânimo por ele, se revelou atrasado no tempo e no espaço.

Voltei à minha salada e expliquei à pessoa que sou vegetariano. Esperando que com essa definição tudo estivesse resolvido e poderia ficar em paz.

A resposta da dedicada e sorridente moça anotando o meu pedido foi a seguinte:

- Bem, o senhor é “Végétalien” ou “Végétarien?”

- Como assim?

- ‘Végetalien’ é aquele que não come produtos de origem animal, incluindo o mel; e ‘Végétarien’ é aquele que não come carne de animais de qualquer espécie, contudo consome produtos derivados.

- Ah, sim. Eu compreendi, quero apenas uma salada com folhas verdes.

- Tenho essa aqui: com cebolas, tomates, funcho e repolho.

Eu que pensava que as palavras facilitassem tudo. Acabei por me acomodar com a minha falta de folhas verdes naquele dia. Dei uma entrada errada numa conversa, aprendi a diferença entre os vegetarianos, e não consegui comer a salada que eu queria.

Os que pensam com a emoção estão dormindo.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Tuesday June 24, 2008

Encontrou a casa, num bairro distante, levado por um amigo espanhol da Galícia, calvo, olhos azuis, forte como um touro, tronco de triângulo isóscele, pau pra toda obra, abraço de quebrar costelas, falante, num tom anunciando briga; sempre preocupado quando alguém pensava diferente dele. Fazia de tudo para convencer o desviado para retomar o caminho certo: o seu.

A casa um sobrado, duas janelas e porta e uma entrada lateral ao lado do pequeno jardim da frente, toda simétrica; entrou pelo lado até encontrar uma porta contígua à lavanderia. Bateu à porta; entrou e encontrou a pessoa indicada.

O galego garantira que ela poderia decifrar os sonhos do amigo. Uma versão feminina do hebreu José, uma voz que surgia das profundezas e falava através daquele corpo travestido de oráculo.

Aquilo que deveria ser o recinto sagrado fugiu completamente ao previsto. Lugar sombrio, atulhado de coisas, com uma pequena mesa onde os dois se sentaram de frente para a mulher.

Uma expressão sofrida no rosto, marcado, a região dos olhos bem mais escura, fazia sobressair o falso e primitivo vermelho dos lábios.

Perguntou ao galego em que poderia ajudar, e o amigo foi apontado com o queixo quadrado e saliente.

Desviou seu olhar e curiosa; pediu para que ele falasse um pouco dele.

O consulente preferiu não dar nenhuma indicação, explicou que gostaria de saber como ela poderia compreender os sonhos que o atormentavam nos últimos dias, que mensagem deveria ler?

- Pois então, conta os sonhos.

Disse então o aconselhado:

- São três sonhos, repetitivos, uma espécie de pesadelo; desperto angustiado, e ao voltar a dormir, recomeçam de onde tinham parado.

No primeiro estou caído. Acabo de cair num saguão de elevadores. Tento me levantar e não consigo, estou nu, tento arrastar-me para apertar o botão e sair dali, e ainda assim não consigo. Os botões sobem como os andares. Tento arranjar uma forma de subir em alguns caixotes e trazer uma corda para me auxiliar. Consigo construir essa engenhoca e nada, não alcanço. Antes que eu desista o botão para de subir e aparece diante de mim um degrau. Àquela máquina tenho que acrescentar altura e não tenho nada para botar em cima. A angústia não é pelo vexame, ninguém se importa com o meu esforço, problema ou nudez. Estava esperando risos pelo fracasso. O silêncio chamou a minha atenção, todos continuam a sua vida normalmente. Como se o único que precisasse do ascensor fosse eu mesmo. Passam pelo saguão ignorando-me.

O segundo sonho leva-me a uma espécie de loja para animais. Uma loja que atendia uma pessoa por vez. Apenas com horário marcado. Neste, estava com meu cachorro e vestido.

- Quem?

- Não. Não. Eu estava vestido, não o cachorro.

Encostei-me no balcão e perguntei o motivo daquela forma singular de atendimento. Fui informado que a loja se especializara no sacrifício de animais. Um sacrifício privativo, sem dor, sem testemunhas com a privacidade que se exigia numa ocasião como essa. Eu já conhecia histórias de pessoas que se livravam dos animais indesejados colocando-os num saco e jogando-os no rio. É mais fácil, barato, tão cruel quanto, por que uma loja para isso. O senhor está enganado, nós oferecemos além de um preço convidativo e da autoria, um lugar onde o cliente pode deixar um testemunho dos motivos que o levaram a fazer isso. Os motivos estão disponíveis para consulta anônima de outros clientes

- Aliás, o senhor quer programar a sua agenda, ou sacrificar o seu animal agora mesmo? Estou disponível.

- Não, não. Obrigado. Apenas queria dar um banho nele e cortar as unhas.

- Vou indicar nossa filial mais próxima de sua casa, especializada.

O terceiro me coloca dentro de uma festa. De uma doceira. Amiga fraterna de longos papos e confidências. Faz e vende doces deliciosos. Conhecia todos os integrantes de sua família, exceto um. Este de camisa xadrez azul e branco, com um olhar hostil, transmitindo censura ou desagrado. Todos os demais já conhecidos, mas não sabia do parentesco. Descobri-o ao me aproximar do grupo para a foto comemorativa da data. Fui colocado ao lado dela. Numa posição muito honrosa. Abraçamo-nos satisfeitos com a festa, com a lembrança, com o reconhecimento. Fiquei, excepcionalmente, até o final. Todos saíram, e fiquei sentado num degrau de uma calçada de cerâmica vermelha, e percebi que estava bem fria. Estava nu. Novamente. Todos passaram e sequer olhavam para mim. Estava numa situação diferente, mas ignorado da mesma forma. Até que encontrei um amigo que bebia num bar próximo e ao me reconhecer ofereceu uma carona.

A maga aparentou perplexidade com a narrativa. Os fatos estavam claros, mas soltos, eram apenas as paredes de uma alhambra feita de sonhos, sem nenhuma cobertura, torre ou berloque. Apenas três sonhos. Apenas um cafofo. Insistiu irritada, querendo saber mais dados da vida da pessoa. Inútil. Não conseguiu nada. Ela saiu por alguns momentos. Voltou com um livro nas mãos, e disse:

- Você terá grandes problemas dentro do prazo de cinco anos; o seu melhor amigo o trairá.

- Devo pagar alguma coisa? Perguntou.

- Não, nada.

Saíram. Sentados no carro o galego indagou:

- Gostou? Ela não é fantástica?

- Continuo sem entender. Tanto o sonho quanto a mensagem. Você entendeu?


Saint Michel de Montaigne

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday June 19, 2008

“Qualquer ato nosso revela o que somos.”

Michel Eyquem, senhor de Montaigne.

“Do que é feito o vinho?” Foi a pergunta de um menino a um Diniz, o do Porto. A resposta não poderia ser mais objetiva e simples. “De uva.” Não era bem isso que ele queria saber. Era o impenetrável segredo da transformação do sabor doce da uva para o aquele outro indescritível. O interesse, talvez, tenha surgido pela admiração à valente adesão do ibérico ao líquido. Objeto de muita louvação. Algo que era formalmente proibido em sua família, onde beber era coisa de alcoólatra.

Aquele menino passou a maior parte de sua vida abstêmio. Até que um dia encontrou algumas palavras. Uma ordenada diante da outra, formando uma frase com esta reflexão: É o mesmo bêbado, tanto aquele que bebe quanto o que se abstém.

A partir de então passou a pensar na questão de uma outra forma. O embaraço e o deslocamento aumentaram quando pedia ao garçom para trocar os cálices. O de água para ele e o de vinho para a moça.

Como adulto passou, além de ler, a beber seu vinho. Nunca passou do aparecido limite que se impôs. Sutilmente, sem a sua interferência aparente. Talvez ele seja ainda uma subespécie do bêbado daquele pensamento. Bebe com medo da quantidade. E com ela controlada, exige do que bebe a embriaguez dos sentidos: o maior sabor. Daí a vontade de conhecer Bordéus.

Fez um roteiro olhando para um mapa. Escolheu Paris, por ser um destino obrigatório. Não se acomodou bem à cidade. A escassez de espaços privados, de pessoas disponíveis, de táxis, aliadas à compreensão deficiente do idioma, formavam a moldura de uma tela, ainda a ser pintada. A abundância dos preços, do tráfego, do barulho, das pessoas, das manifestações, das greves, das máquinas fotográficas e de irritação, completou a obra.

Estava perto de seus amigos escritores. Da memória deles. Porém, impedimentos do tempo, da topografia, do espaço impediram-no de visitar a casa do profícuo Balzac, do introspectivo Marcel Proust e do preciso Gustave Flaubert. Talvez escrevesse melhor por conhecer a mesa de um, a cortiça do quarto do outro ou a casa natal daquele terceiro. Ou ainda por respirar o mesmo ar. A casa de Honoré (47, rue Raynouard) estava sufocada por outras tantas. Não conseguiu entrar. Restava passear pelas mesmas ruas. O exilado Bernardo Soares o ajudou na tarefa: “Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. … Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta.”

Ao sair de Paris, pensou em visitar Rouen e Gustave. Chegou um dia antes do previsto, não encontrou um lugar para ficar, a não ser a uns tantos quilômetros dali: Bezancourt. Tudo se transformava numa corrida de obstáculos inesperada e inevitável.

Partiu para Bordéus. Uma cidade tão grande quanto a Capital. Imaginou uma Burdígala, uma Aquitânia, encontrou uma metrópole. Acidentada. Agitada pelos estudantes, pelos bares, cafés, trens de superfície. Só queria conhecer os vinhedos e com eles o nascer do vinho.

Ainda não era ali. Ali aprenderia a beber exageradamente o vinho e aproveitar as delícias da vida moderna. Mas um verso o orientava de Francisco Quevedo: “humilde soledad verde y sonora”.

A paz veio com a paisagem, a vinha e uma nova lembrança da memória. A amizade inseparável de Montaigne com Étienne de La Boétie. Visitar a casa de um e do outro. Este legou a sua biblioteca para o outro. Lembrou-se que ele havia sido prefeito da cidade. Portanto não poderia estar muito longe dali. Encontrou a vila de Saint Michel de Montaigne, encontrou horários disponíveis, encontrou pessoas disponíveis.

Fez o trajeto com ansiedade e alegria. Foi recebido por uma alameda de cedros, dispostos simetricamente, depois perceberia que era a maneira mais comum na região de dar boas vindas aos visitantes e de fato, foi assim que ele se sentiu. Encontrou duas moças e trataram de conversar numa língua universal, mista de substantivos franceses, verbos ingleses ambos regidos pela sintaxe das mãos e seus sinais. Dali seguiu pelas vinhas até chegar ao coração do castelo.

É um espaço retangular. Entrou: à esquerda existe a residência dos senhores, queimada e reconstruída, com majestosa imponência dada pela seqüência de suas torres cônicas; à frente e à direita estão os estábulos. Deixou atrás de si o muro e a entrada principal. No ângulo entre o muro e os estábulos, existe uma outra entrada, isolada. Essa é a entrada para a torre do Montaigne. Ela conseguiu ser completamente preservada coberta por um telhado oitavado. Com uma capela, o dormitório e biblioteca.

Sentou num estrado de madeira, semi-destruído, que deveria ter servido para alguma instalação ou audição, e observou as onze árvores existentes diante das estrebarias que faziam uma proteção diante do castelo: um castanhedo (”marronniers”). Em seus troncos ele pode ver uma espécie de escara, com a mesma feição daquelas que cobrem os cetáceos, o que lhes dá força e dignidade de vencedoras; de soldados. Um gato cinzento, com os olhos azuis e desconfiados, passeia saindo do estábulo e passando ao lado do observador. Pisca intermitentemente e agita sua cauda. Parece perturbado com a intromissão.

Entrando naquela edícula se encontra todas as respostas para a fantasia material do homem; como viveu, como era sua cama, sua roupa, seus móveis, o arranjo e a disposição. Sabe-se de suas dores físicas decorrentes de cálculos renais. Dores que o acamavam por longos períodos. Nos quais não poderia presenciar a santa missa. Pediu que se fizessem aberturas nos cantos das paredes de seu quarto. De forma que pudesse, ao menos, ouvir a palavra do seu Senhor repetida pelo sacerdote. Soube também que ele andava à cavalo por longas distâncias, para refletir. Para conhecer-se. Para encontrar seu amigo, que residia na distante e ainda medieval Sarlat-La-Canéda.

A vida no castelo corria e deu tempo ao seu senhor para andar, pensar e escrever. Ele deixou algumas marcas nas madeiras que garantiam a solidez da construção, frases em latim e em grego. Para que não as esquecesse no seu uso diário, como um ensinamento?

A mesma vida ainda corre; até hoje a terra benfazeja produz as eternas uvas do vinho vendido no local. Convidado para ver a técnica de vinificação mantida intacta desde o século dezessete, o convidado prontamente recusou.

Voltou ao pátio e ficou pensativo em companhia do gato, que reviu com o mesmo olhar em outra janela, outro passeio e num último jardim, antes da volta.

Como narrador, peço desculpas pela inevitável e falha descrição do local e pelas agressões à História Natural; apropriado seria ler algumas obras sobre botânica, arquitetura, montaria, filosofia, arte e ética. Não tive o tempo de Bouvard e Pécuchet.

O avesso do cheiro

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Thursday June 12, 2008

Sonhando através de um texto que comentava uma história, o argumento dela me chamou a atenção. É a história de um homem que num dia saiu de casa para fazer uma pequena viajem. Despediu-se de sua mulher e demorou vinte anos para voltar. Nesse período morou numa rua próxima da sua morada antiga. Não cabe aqui discutir o argumento, apenas salientar o sistema rigoroso, misterioso e interior de cada ser, talvez para compensar a confusa desordem do exterior; e sair dele, é se tornar um pária, perder o seu lugar. Essa história conta que ele volta; existem outras variantes e dependem da hora e lugar.

Não tenho experiência suficiente para não me extasiar com as coincidências que me são concedidas. Desperto e banhado ouço essa história:

A família de Ian Fleming, autor do personagem James Bond, encontrou uma nova voz que continuará a obra do seu patrono. Não pôde esperar os séculos transcorridos entre a primeira melodia cantada em persa no Rubaiyat de Omar ben Ibrahim al-Khayyam e a sua volta orgânica e contínua na voz inglesa de Edward FitzGerald. Acreditam os herdeiros que podem ver o futuro do personagem James; ele se chama Sebastian Faulks. Talvez imaginem que tenham resolvido o enigma da voz que passa de um para o outro; ou ainda que o tempo lhes foi cronicamente favorável; tudo a fim de evitar que a história se transformasse naquele pária, caso não tornasse ao prelo. Lembro que essa tentativa foi frustrada antes por outros trinta e dois escritores que escreveram exatamente como o original Ian. Agora, explica Sebastian, escreve inspirado por ele, não faz um simples pastiche. Ele conseguiu, por artes desconhecidas, fazer uma composição entre o antigo e o novo, em estimadas proporções de cinqüenta e cinco e quarenta e cinco por cento entre um e outro.

Agora em Libourne, sob as suas antigas arcadas, peço um café e olho. Sou inclinado quase à queda por cenas de amor. Amor insólito. Na forma, no conteúdo. Mas a forma… Ela é uma música. Uma nota dissonante faz com que toda melodia que percorre a partitura toda se levante.

Um pai passa com seus dois filhos. Numa lambreta completamente desarranjada com os fios à mostra, vem puxando um carrinho de madeira, em formato de caixote de madeira barata, igualmente mambembe que contém as duas crianças, em equilíbrio precário. Queimado pelo sol; rugas em profusão e profissão e um sorriso tímido em U, do mesmo formato da gola da sua camiseta, antiquada, vazada e suja. Instala-se mais adiante e fica sob o sol, brincando com os filhos. Despreocupado.

O que faz um homem vestir uma calça e camisa, colocar uma gravata listrada e atada rente ao pescoço forte e completar o traje com uma jaqueta de gabardine, com zíper? Coroa a sua vestimenta um mal equilibrado chapéu Panamá. Esse é o traje do mestre cuca da “Brasserie des Arcades”. Será o branco da cor?

Ouço, agora, três jovens moças, altas, cantando uma canção que não consigo identificar. Aproximam-se de braços dados, como as jovens fazem em qualquer lugar, ocupam toda a largura da arcada, passos sonoros que incomodam uma senhora vestida em seu traje pesado, claudicando num castão e que não responde ao meu cumprimento. O alto e bom francês das meninas, e seus acordes falaram em mim, talvez para mostrar e afirmar a alegria e desinibição do espírito, a inteligência da mente, e vocação musical do idioma. Que faz de um canto de praça um coral. Repentinamente aparece um aliado: o toque do sino daquela catedral gótica; louvando-as, a mim, ao dia e ao seu deus.

Alguém, um homem, passa e senta ao meu lado. Quieto, calvo, sobressaem-lhe os óculos, pensativo e risonho. Ri muito, das suas próprias situações, desditas ou benditas. Jamais saberemos, ele não pretende dividi-las com ninguém mais, procurou um canto isolado, simetricamente oposto ao meu, para brindar mentalmente. E esboça esse sorriso-risada como puro reflexo do pensamento. Ameaça um gargalhar com o movimento do ombro.

Talvez ainda esteja rindo dessas inúteis notas tomadas por um alguém que ele desconhece. Mas sabe que todos e tudo materialmente definido pelos sentidos não existe. É uma obra da mais pura imaginação. Talvez veja ainda a alegria causada pelas pernas à mostra de uma Lolita que passa, parecendo recém saída das páginas de Vladimir, naquele andar provocante e quase infantil.

O episódio se encerra. Alguém se sentou com ele e puxou conversa, tirando-o do êxtase em que se encontrava, brincando no seu mundo interior bagunçado e feliz.

 

 

Os seus problemas terminaram.

scriptu em Escrito pelas estrelas by Djabal Wednesday June 11, 2008

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio, todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazemo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.

Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.

Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego, através de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Deserto

scriptu em Penso? by Djabal Thursday May 15, 2008

Talvez se eu pudesse colaborar, eu colaboraria para aumentar as dúvidas, em seu Momento Reflexivo. As suas e as minhas. Não as certezas, pois entre umas e outras existe o movimento. Acredito que nele nos assemelharíamos aos bêbados. Apesar de não nos darmos conta disso.

Quando estamos parados, estamos como alguém numa poça d’água e água parada gera a peste. Já que temos que nos movimentar. Descreveria o movimento assim:

Quando escrevemos dizemos o que pensamos a respeito de alguma coisa, fato ou questão; de tal maneira que aquele que lê, tira as sua impressão decorrente daquela nossa, e esta por sua vez será fruto de ambas, nem uma, nem outra. Numa espécie de movimento circular inesgotável.

Em resumo, quando eu escrevo descrevo a mim mesmo. Você quando lê, lê a si própria. Entre essa rachadura ficamos nós, os de bom senso, curiosos, aborrascados, aflitos, para encontrar pontos nas bordas daquele rio que é uma miragem.

Um rio que brotasse miraculosamente desse deserto e que nos conduziria até um lugar onde recebêssemos como troco de uma bebida comprada, aquela moeda de vinte centavos, (el zahir). Ela de tanto ser manuseada perderia a diferença entre as diferentes faces e quem sabe nos revelaria o que não pode ser revelado.

Meme

scriptu em Penso? by Djabal Tuesday May 13, 2008

Meu amigo Julio do Digestivo Cultural fez essas perguntas e sugeriu um meme. É uma ótima oportunidade para que todos façam o mesmo em seus blogs. Será uma forma agradável e sugestiva de conhecer melhor a nós próprios e aos nossos semelhantes.

1 - Qual o seu começo de livro inesquecível?

“O vermelho e o negro” de Stendhal


2 - Qual foi o livro da sua infância?

Infância: Irmãos Grimm, Monteiro Lobato; Adolescência: Giselle, a espiã nua que abalou Paris (escrita sob pseudônimo por David Nasser), Aluízio Azevedo: Comecei com “O Cortiço”

3 - Qual o livro que mais o perturbou?
Livro do Desassossego do Fernando Pessoa, através do Bernardo Soares

4 - Qual o livro que você mais releu?

Auto-de-Fé de Elias Canetti e Vidas Imaginárias de Marcel Schwob

5 - Que livro considerado clássico você abandonou antes do fim?

Mínima Moralia de Theodor W. Adorno (tecnicamente não abandonei, estou lendo desde 92- [!!?]). Por princípio, não abandono a leitura de nada que começo.

6 - Que livro você acredita que deveria ser conhecido por um maior número
de leitores e não é?

Paisagem Pintada com Chá de Milorad Pávitch; “A neve do Almirante” de Álvaro Mutis; “A linguagem dos Pássaros” de Farid ud-Din Attar; “O Partido das Coisas” de Francis Ponge.

7 - Cite um título de livro inesquecível*
“Viagem ao redor do meu quarto” de Xavier de Maistre e “Cabra Vadia” de Nelson Rodrigues

8 - Que livro prometia uma coisa pelo título e, ao ler, você percebeu que era outra coisa?

“A Sangue Frio” de Truman Capote e O Livro dos Peixes de William Gould

9- Que livro você gostaria de ter escrito?

“Austerlitz” de W.G.Sebald ou “José e seus irmãos” de Thomas Mann

10 - Que livro você está lendo agora?

Mímesis de Erich Auerbach


Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.

scriptu em Existo: talvez. by Djabal Friday May 9, 2008

Dentro de um ambiente lotado com livros, numa aparente mixórdia que se espalhava nas três dimensões existentes, até o ponto onde restasse um único vácuo preenchido por ele e uma poltrona, sob um facho de luz. Luz que fortalecia a penumbra do ambiente. Ruud estava manuseando um grande volume com – imagino – três mil páginas de papel bíblia, e parecia muito contrariado.

Eu que estava para fazer uma matéria não achava o fio daquela meada. Resolvi falar um lugar comum: “O que o senhor está lendo?” “Um livro de história natural” foi a sua resposta. Depois de um tempo, ele começou a falar: “A mariposa não se alimenta durante a sua vida, apenas se preocupa com a procriação. Quando ela entra num ambiente e fica pousada imóvel numa parede, sabe que está irremediavelmente perdida. Não conseguirá mais sair de lá; ficará ali até o final dos seus dias, auxiliada por minúsculas garras, presa naquele canto, até que um espanador ou um vento qualquer jogue o seu cadáver numa lata qualquer. São animais belíssimos, com cores e desenhos surpreendentes.”

Enquanto contava essa história percebi que separou o volume encadernado com uma textura peculiar, parecida com linho, de um amarelo sulfúreo, com letras negras gravadas em relevo, com marcas nos lugares onde uso era constante. Apontando para ele disse, contrariado: “Tenho esse dicionário há muitos anos, e hoje, ao procurar uma palavra, quis abri-lo já na letra S. Deveria fazer como sempre, deitá-lo no meu colo, e pegando pequenos maços de páginas atingiria o vocábulo paulatinamente; primeiro C, depois o F, mais adiante o M, até atingir o lugar e daí encontrar minha palavra. Entretanto hoje o peso do volume parecia maior e colocando a lombada sobre as minhas pernas, calculei onde estaria o S e num único golpe abri o volume. Perdi o equilíbrio, o livro ameaçou cair e, instintivamente, tentei segurá-lo pela única folha que me restou e acabou rasgada.”

E me mostrou a folha rasgada onde pude ler uma palavra rapidamente: ‘solitário’. Pensei comigo, bem até que ele acertou, tem boa mira.

Assim continuou falando: “Lendo sobre as mariposas, aprendi que eu também me comporto como elas; e com esse lamentável acidente, percebi mais, que o conhecimento do nosso semelhante deve ser como a leitura de um dicionário; nunca o conheceremos inteiramente é uma tarefa impossível e quando é necessário encontrar um ponto em especial, devemos ir de pouco a pouco; ao queremos acertar imediatamente com base em nossa experiência, eventualmente acertaremos, mas ficamos com a página na mão e com o livro estragado.”

Mencionei que não havia entendido direito o que ele estava falando e pedi que abrisse o dicionário na letra certa, de uma vez por todas.

E ouvi o seguinte: “Tenho um amigo por muitos anos, ambos somos solteiros, conhecemo-nos muito bem, ele também é professor; outro dia ele me disse que encontrou um outro homem, quinze anos mais novo; e – mais - que ele não saia de sua cabeça. Havia ficado muito impressionado e emocionado com sua beleza física, com a conversa envolvente e mais do que tudo, com o interesse que ele demonstrou em conversar, trocar idéias, expandir horizontes. Tanto é que conversaram todo o tempo da festa. Ao terminar a narrativa me perguntou se por tudo isso ele é um homossexual? Depois disso, nunca mais falamos.”

Esqueci a entrevista e perguntei com curiosidade mórbida: “Mas afinal de contas, qual foi a sua resposta, professor.”

“É.”

Quem tem medo dos blogues, Mr. Albee?

scriptu em Penso? by Djabal Wednesday May 7, 2008

O blog é uma abertura imensa para o diálogo. Diálogo pertinente, impertinente, culto, inculto, sobre coisas sérias ou nem tanto. Mas diálogo. Ainda se cultiva muito a ofensa pessoal, a irreflexão, o elogio puro e simples e imerecido, a vingança na forma de um texto de resposta ou comentário. Porém, acredito tudo isso é um grande e inovador exercício que se aprenderá praticando, lendo e ouvindo o que o outro tem a dizer. Tentar responder com argumentos, moderados pela possibilidade latente de bloqueio puro e simples, é uma questão relevante cujo mecanismo incentiva esse exercício. Aquela resposta como desabafo, como uma reação veterinária e passional ainda continuará, mas acabará perdendo a força. Em suma é inútil. E o argumento tentará convencer até o limite de sua tolerância, que pouco a pouco será expandida. Não que eu espere que ela tenha a dimensão da nebulosa da Águia na constelação da Serpente, mas a simples dimensão humana paulatina ainda que errática já será divina.

É evidente que a possibilidade de se colocar no ar, a um custo acessível qualquer texto, também ajudará a aumentar a confusão de fontes, de dados, e de pseudos. Mas não precisamos dar importância ao que é irrelevante. Uma pesquisa consistente elimina todas as impurezas. Ler e desconfiar são atos siameses.

De outro lado não espero nenhuma modificação no fator humano, não é isso que estou tentando argumentar ou prever. É apenas uma nova possibilidade diante da qual teremos que tomar uma decisão. E é inteiramente nova.

No começo da literatura, chamando de literatura tudo que se relaciona com a palavra; sabíamos da história de um ou outro príncipe, nobre ou assemelhado, contada por algum maluco para que servisse de lição, de paradigma. Hoje temos a possibilidade de saber a história de tudo e de todos, contada por uma série imensamente maior de pessoas, que por sua vez a abordará dos mais diversificados, inesperados e obsessivos ângulos. E esse aspecto é determinante.

Se a imensa maioria das histórias e pontos de vista são repetitivas ou tediosas; - pena, assim é que nós somos vistos da janela de um foguete. Mas quem garimpar e tiver paciência para se aproximar do planeta e escolher, não será frustrado. Terá uma ótima oportunidade de alargar o seu horizonte.

Escrevi sobre tolerância e paciência e não sei se isso adiantará, pois os modernos têm pressa. Mas essa é uma janela, grande, imensa, com mais de cento e vinte duas vidraças emolduradas por chumbo – como existe no Observatório de Greenwich – janela, que ajudará a diminuir a imensa zona de sombra que nos avassala.

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