Arte digital - um novo tipo de pincel

Artigo publicado no Cyberartes - edição 176, dezembro de 2005
Por Ronaldo Carneiro Leão

O mínimo que se pode dizer de Daniela Castilho é que trata-se de uma pessoa rica. Não estou falando de dinheiro, obviamente. Falo de idéias, de emoções, de projetos, de conteúdo. Conversar com ela é conviver com um turbilhão de conceitos, de opiniões e posicionamentos, alguns inteiramente emocionais, outros completamente produzidos na área intelectual. Daniela Castilho é uma pessoa rica e enriquece aos outros com seu contato. Ela é também uma pessoa direta e objetiva, apesar de se classificar como tímida. Ela procura simplificar as coisas. Já a sua pintura, como toda obra de arte, merece uma interpretação muito mais complexa e profunda.

Arte digital - um novo tipo de pincel

Atualmente ela trabalha com arte puramente digital e o resultado é simplesmente fantástico. Por isso talvez, tenha sido convidada para participar da Bienal de Firenze, para mostrar por lá o que estamos mostrando aqui em CyberArtes com imagens gentilmente cedidas, retiradas do blog da artista. Por sinal, um belo trabalho também. Uma tendência a montagens monocromáticas muito lindas, contrasta com outra tendência ao uso de cores primárias vivas, vigorosas e que não se misturam, chamando a atenção exatamente pelo contraste marcante. Não há como escolher qual a forma preferida. Ela consegue efeitos próprios e bem determinados, ambos com força intrínseca e cheia de poder interior.

Tendência monocromática ou cores fortes - diferentes resultados

Os temas podem ser recorrentes e a artista pinta muitas vezes uma série sobre o mesmo tema até sentir esgotar, temporariamente, o assunto. Certa vêz olhou as asas desenhada por Leonardo da Vinci e imaginou anjos com aquelas asas. Surgiu uma série com esse tema. Quando olha uma imagem, Daniela já pensa em uma composição e sai anotando tudo em um caderninho que deve ser uma loucura e um enigma indecifrável, a não ser aos seus próprios olhos. Daniela parece uma pessoa bem centrada mas o seu caderninho deve ser uma daquelas imensas viagens sem princípio ou fim, objeto próprio para uma pesquisa interminável, divertida e louca.

Enigmas do interior da mente

Embora muitas vezes a inspiração venha de uma música ou um acontecimento, a maior parte da vezes parte de uma imagem, de cenas da vida real ou de fotografias, por exemplo. “Eu parto de uma idéia. Por exemplo, tenho uma imagem cujo tema é um Náutilus. Achei uma vez uma linda foto na internet, me apaixonei pela forma e fiz um conjunto de seis imagens com aquela forma, em diversas cores, em diferentes estilos, só com traços, com traços e volumes, com e sem
sombreados.” Daniela é assim, uma mistura de inteligência e instinto com marcas fortes nas duas características. Pode? Claro que pode. Nem chega a ser rara essa mistura mas é sempre fantástica.

Anjos, fadas, duendes, demônios - seres sobrenaturais! Ou não?

Ela trabalha com direção de arte e como design. “Trabalhar com design e direção de arte me permitiu ser mais livre com a minha arte: não preciso fazer arte comercial ou seja, me preocupar em produzir algo comercial, produzo a minha arte como eu quero que ela seja”. Isso a deixa livre de compromissos que poderiam influir na sua produção e tem como objetivo, sempre que produz, o resultado do trabalho em si. O comprador escolhe a obra por ela mesma e não pela cor do sofá em sua casa. Essa é uma vitória da qual se orgulha. “É muito compensador” - explica.

Figuras gregas e fórmulas matemáticas - contraste e diversidade

Para quem tem a inspiração primeiro nas imagens e trabalha com a tecnologia dos computadores, as influencias devem ser múltiplas e extremamente diversificadas. Percebi a presença de Escher, que bem soube conviver entre a ciência e a arte com suas ilusões e fórmulas matemáticas. As formas gregas estão presentes, assim como o pop americano de Andy Warhol e seu colorido mágico. O provável é que não tenha havido nada disso mas trouxe-me a lembrança e como cada um olha a arte com os olhos de sua emoção, foi assim que eu vi. E gostei do que vi. Muito.

Colagens - um mergulho na alma

A arte de Daniela Castilho me tocou de perto e certamente tocará de perto a muitas pessoas. Haverá quem rejeite seu trabalho por ser arte digital e essa é uma opinião comum, principalmente entre os amantes do pincel mas a força da arte digital trabalha como uma motoniveladora. Não há como opor resistência e há de se reconhecer a sua beleza. A questão surge somente quando se usa a palavra arte, essa coisa indefinida e indecifrável. Vamos ver o que dirão la na Bienal de Firenze porque a artista foi convidada para participar da Bienal. Ela não mandou um trabalho e foi selecionada. Ela foi escolhida e convidada, o que da um status muito maior e destaque garantido. Claro que tudo isso precisa de um patrocinador para remeter os trabalhos e tudo o mais. Não é muito dinheiro e trata-se de uma boa oportunidade de patrocinar uma pessoa que terá visibilidade garantida, lá em Firenze e na volta ao Brasil, pois certamente receberá muitos convites. Se tivéssemos verba para isso, apostaríamos nessa. Garantidamente daremos toda divulgação junto aos 2.500 acessos diários de CyberArtes.

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Os trabalhos que ilustram essa matéria podem ser encontrados expostos na Galeria Espectro, onde Daniela Castilho é artista permanente.